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O ‘Tempo’ certo de Julia Bosco

Por Daniela Guedes
Antes de enveredar pela carreira de cantora, Julia Bosco passou por uma grande multinacional do petróleo como consultora de gestão de pessoas. Mas, já naquele tempo, ou talvez desde sempre, ela já flertava com a cena musical.
O desejo de cantar era latente. Por isso, sempre que podia, lá estava ela dando “canjas” em rodas de samba, apresentações de amigos e saraus, na cidade onde nasceu e vive até hoje, o Rio de Janeiro.
 
Não podia ser diferente: Julia é filha do cantor e compositor João Bosco, e a paixão por música, pode-se dizer sem pestanejar, veio de berço.
Bem, os dias passaram, e hoje ela já não trabalha naquela multinacional, mas só optou pela carreira de cantora quando se sentiu segura o bastante para isso. Portanto, o que era projeto experimental acabou dando tão certo que o resultado é o seu primeiro CD, batizado de Tempo.
Uma produção independente produzida a quatro mãos, por Plínio Profeta e Fabio Santanna, que também é músico, produtor musical e marido da Julia. Ele assina sozinho quatro das 13 faixas e outras nove em parceria com ela.
Com canções biográficas e bem construídas, como se nota em “Desavisados”, “Confusão” ou “Carta Para Uma Amiga”, Julia não deixa dúvidas sobre sua decisão de não definir, pelo menos por agora, o seu trabalho.
 
Segundo a própria cantora, sua música tem um longo caminho a ser percorrido ao longo de muitos anos. “E hoje é só o começo da jornada”, lembra.
Ainda sobre Tempo – O disco conta com as presenças especiais de Marcos Valle e João Bosco nas canções “Curtição” e “Na Oração”, respectivamente.
 
A primeira foi inspirada pela música do autor de “Samba de Verão” e a segunda nasceu da lembrança de uma viagem que Júlia fez a Istambul com o pai e a mãe, Ângela. Saiba um pouco mais sobre Julia Bosco aqui no Radar.
 
Você assina nove das treze músicas do CD. O que te motivou a compor as faixas e como é seu processo de composição?
Julia. Foi um processo absolutamente experimental. Eu nunca tinha tentado compor música antes de o Fabio me propor fazer um disco autoral e se dispor a dividir essa função comigo. E justamente por ser uma novidade no meu contexto criativo, esse processo ainda está se definindo e, por enquanto, não tem qualquer lógica aparente, apenas aproveitamento de oportunidades e ideias.
Tempo apresenta uma mistura de estilos. Fale mais sobre isso.
Julia. Sim, apresenta. Eu sou uma mistura de estilos e referências de tudo que sempre ouvi: da infância, com os vinis do meu pai, da minha fase adolescente, alucinada por Mutantes, Pink Floyd e Raul Seixas, da adoração pelas grandes cantoras. Enfim, seria difícil fazer um trabalho precisamente rotulado, especialmente sendo este o primeiro, porque é uma fase de experimentação e de “colocar tudo para fora”. Mas, ainda que tenha muitas referências e estilos, o disco tem uma amarra própria, um ponto comum que identifica com coerência o que pretende ser uma Julia Bosco cantora e compositora.
Como é a experiência de trabalhar em família, com Fabio (marido) e João Bosco (pai)?
Julia. Cada uma foi de um jeito. Com o Fabio foi mais fácil, apesar de a gente ter se conhecido, feito o disco e resolvido morar juntos praticamente ao mesmo tempo, porque eu me mostrei muito disposta a essa entrega e ele abraçou a causa de volta sem qualquer ponderação. Então, a gente pulou juntos na ideia e deu tudo certo. Com meu pai foi um pouco mais difícil, no sentido de que existia certa inibição minha em sair da posição “filha” para uma posição de parceira profissional. Confesso que levou um tempo e alguns rascunhos até que eu soubesse como fazer o convite sem demonstrar minha insegurança diante dele, mas, depois do aceite, tudo aconteceu de forma muito prazerosa e familiar: sem grilos, sem traumas.
Você se formou em Publicidade e trabalhou em uma multinacional do petróleo antes de lançar “Tempo”. Qual era sua relação com a música antes de chegar até aqui?
Julia. Minha relação com a música sempre foi estreita e íntima. O fato de eu ter feito outras coisas nunca me impossibilitou de estar próxima do universo musical, pelo contrário, permitiu que eu tivesse condições de esperar calmamente o meu melhor momento para escolher esse caminho, já que eu tinha outras escolhas possíveis.
Será que você consegue dizer o quanto João Bosco influenciou sua formação musical e influencia no seu trabalho?
Julia. Mensurar é impossível, mas eu não consigo dissociar a nossa relação do meu amor pela música, do meu respeito pelo ofício de um músico, dos meus pés no chão e da minha total falta de deslumbramento com essa ‘coisa’ da fama. Meu pai sempre me ensinou que talento sem disciplina e responsabilidade é desperdício, e que um músico é um operário, como são todos os outros que se entregam a um ofício. Quanto às influências, com certeza elas ainda me acompanham de alguma forma, e eu só tenho a agradecer quando lembro de passar a infância ouvindo Nat King Cole, Billie Holiday, Milton Nascimento, João Gilberto, Dolores Duran. 
 
Por que o nome Tempo para batizar seu primeiro disco?
Julia. Porque o tempo e as mudanças de maré que ele provoca de alguma forma tornaram possível este trabalho. Eu pude esperar as ideias amadurecerem, contei com ele ao meu lado. Então, fica como agradecimento.
 
O que mais te inspira a compor e quais são suas referências nessa área?
Julia. Para este disco, especificamente, as composições foram abordadas de forma pessoal e quase biográfica. Falamos, Fabio e eu, de coisas que vivi neste tempo em que ansiei fazer música, do meu encontro com ele, das minhas relações familiares, do meu modo de encarar a vida e das muitas possibilidades que o futuro me reserva. Porém, apesar desse “olhar para dentro”, o resultado é de livre apropriação e fácil identificação: o tempo é de todos nós.
 
 
“Dia Santo” é uma canção que fala de Orixás. Qual a sua relação com o assunto?
 
Julia. Eu não tenho um nome certo para a minha espiritualidade porque nunca achei necessário tomar partido por um dos times: se é umbanda, candomblé, mesa branca ou qualquer outro nome, o que importa é que tenho uma ligação forte com as batidas de tambor e os pontos cantados nos terreiros. Adoro as festas, as roupas, as comidas e, principalmente, as lendas dos Orixás. E sempre me foi dito que eu era filha de Xangô e que Xangô era um rei. Por isso a musica diz: “eu vi o Rei chegar” e, a partir daí, tudo mudou.
 
E suas influências em música internacional? Alguma foi preponderante em Tempo?
Julia. Sim, algumas coisas eu quis mesmo citar no disco, como uns timbres usados que lembram coisas da New Bossa, a Salsa, que é uma paixão, algumas levadas mais “jazzy”. Tem um pouco de tudo que eu gosto ali. Do pop ao jazz, da bossa ao soul.
Além de todas as suas influências, existe algo novo que você esteja ouvindo ultimamente?
Julia. Estou sempre ouvindo alguma coisa, muitas vezes antiga. De novidades no mercado doméstico, posso dizer que estou ansiosa pelo disco novo da Ana Cañas, que já pude ouvir algumas vezes em encontros com ela e gostei muito da ousadia e da sonoridade, ficou um disco com “pegada”. Da galera gringa, tenho curtido muito Florence and the Machine e Paloma Faith.
 
Depois do lançamento do álbum, o que vem agora?
Julia. Como o disco é independente e a gente faz tudo por conta própria, nas próximas semanas estaremos trabalhando na organização do show de lançamento do disco no Rio: já conseguimos definir uma banda bem bacana e escolher o repertório desse show que será dia 11 de abril, no teatro Rival. Agora começaremos a ensaiar e a torcer para que ele seja levado a outras capitais.

 

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