Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 09.03.2020 09.03.2020

O Teatro como espelho da sociedade

Teatro

Por Felipe Candido
Com colaboração de Bruno Gavranic (ator)

O teatro é a forma de expressão artística mais inerente ao ser humano. Desde o princípio, o homem tentou se expressar através do corpo e da fala. A representação foi uma das primeiras formas de comunicação encontradas pelo homem.

Assim, sempre foi natural que questões cotidianas, reflexões e dúvidas fossem utilizadas como material para a expressão artística nos palcos.

O teatro é também uma forma de expressão social e política do homem, para além da arte ou do entretenimento. Os textos e as encenações são reflexos de formas de pensamento, épocas e vivências sociais. Funcionam também como o retrato de um período ou uma sociedade.

No dia 27 de março, é celebrado em todo o mundo o Dia do Teatro. Para comemorar essa data, o SaraivaConteúdo conversou com o ator e diretor Celso Frateschi para entender um pouco mais sobre a estreita relação entre o teatro e o mundo cotidiano em que vivemos, como ele é símbolo de sentimentos, ações e pensamentos, tão comuns a todo e qualquer ser humano.

A partir de qual momento da história o teatro passou a refletir as angústias e os pensamentos da sociedade?

Celso. Creio que desde a sua origem. O teatro surgiu quando os homens passaram a viver em cidades. O novo tipo de convívio gerou novas relações sociais, e o teatro surgiu, creio, para colocar em questão essas novas relações. Portanto, o teatro surgiu exatamente para refletir as angústias e os pensamentos da sociedade.

Quais foram os dramaturgos que melhor souberam transpor para os palcos as questões sociais?

Celso. A lista é enorme e vem desde os gregos até os autores contemporâneos. Acredito que toda a dramaturgia de alguma forma fez isso.

De que maneira os textos considerados clássicos, como os gregos ou Shakespeare, ainda refletem discussões que podem ser atuais?

Celso. De alguma forma, o texto dramático se constitui numa fábula e, como tal, propõe metáforas que podem ser traduzidas em qualquer época. Os textos clássicos tratam das relações entre os homens e são permeados por questões humanas fundamentais que podem ser revisitadas em qualquer momento.

Para além das questões sociais e políticas, a vida cotidiana também pode servir de inspiração para o fazer teatral?

Celso. A vida cotidiana é definida por questões sociais e políticas e é ponto de partida do teatro.

Celso Frateschi

Celso Frateschi – Foto: Divulgação

No Brasil, a telenovela se ocupa essencialmente em representar o cotidiano. Se o teatro se vira também para essa temática, quais são as maiores diferenças entre esses dois meios?

Celso. O teatro se realiza na relação física entre os atores e o público. É nessa relação que se estabelece o seu conteúdo. Os temas do teatro são múltiplos, assim com os da televisão.

Qual a importância social que o teatro tem na sociedade brasileira?

Celso. É uma pergunta impossível de responder numa entrevista rápida. É tema de tese de doutorado que, com certeza, teria ainda que fazer um recorte e acabaria não respondendo a essa questão.

Após 50 anos do golpe militar, período em que o teatro era um instrumento de reflexão e luta política, qual a herança que o teatro feito nesse período deixou para a cena atual?

Celso. O teatro continua sendo sem dúvida um instrumento de reflexão e luta política, apesar de ter sofrido censura violenta da ditadura militar e de censura econômica nos tempos atuais. Continua sendo, também como sempre foi, uma atividade de entretenimento. Configura-se sem dúvida muito diferente do teatro realizado há 50 anos, como diferente é a sociedade brasileira atual da sociedade brasileira há 50 anos.

O teatro pode ser palco de manifestações ideológicas?

Celso. O teatro é palco de manifestações ideológicas, mas creio que o bom teatro continue sendo aquele que coloca as ideologias em questão. “Desideologizar” é mais próprio ao teatro que qualquer tentativa de ideologização.

O teatro ainda hoje é uma representação do que acontece na sociedade?

Celso. Sem dúvida! Para o bem e para o mal.

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