Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 17.03.2011 17.03.2011

O sentido da guerra

 


Por Bruno Dorigatti

A guerra, vista desde suas entranhas. Ou, ao menos um ladodela. Para realizar o documentário Restrepo,que concorreu ao Oscar deste ano, Sebastian Junger e Tim Hetherington passaram um anoembutidos (embeded, no original eminglês) em um batalhão do exército norte-americano, em uma das regiões maisviolentas do Afeganistão, entre 2007 e 2008. O filme acompanha o dia-a-dia daguerra, entre os momentos de descanso, espera, mas também de combate, com uminimigo nunca visto, nunca alcançado ou reconhecido, e que está sempre àespreita, a tentar emboscadas e a pegar desprevenidos os meninos do exército.Meninos, sim, pois muitos dos garotos ainda imberbes não aparentam ter muitomais do que 20 anos. E exibem o olhar, os gestos e a postura juvenil na aberturado filme – ainda não recrudescida pelos tensos dias de combate, pouco sono eadversidades –, registrada pelos próprios com suas câmeras digitais, no tremrumo à apresentação para o embarque para a guerra. 

Cortepara Afeganistão. Estamos os espectadores igualmente embedados em um tanque deguerra que cruza uma vila na zona rural do país, onde vemos alguns afegãos e suashumildes casas. “Em maio de 2007, os homens do Segundo Batalhão da Companhia deCombate deram início a um posicionamento estratégico de tropas que duraria 15meses, no Vale Korengal, leste do Afeganistão. Ele é considerado um dos locais maisperigosos pelo exército norte-americano”, nos informa o texto na tela. Emestreitas e sinuosas estradas de terra, acompanhamos o belo cenário de vales emontanhas através da visão do motorista do tanque, ouvindo a comunicação viarádio, quando algo explode do lado de fora. A tensão aumenta, os soldados saem,fuzis em punho, e atiram a esmo para o que não veem. Para o que não vemos. Ascâmeras, posicionadas no capacete de alguns deles, registram o momento semáudio. E será assim nas situações mais delicadas. 

O documentário é construído com estas imagens do front, o cotidiano do batalhão, intercalando conversas triviais, a saudade de casa, os combates e bombardeios com depoimentos colhidos dos soldados após a passagem pelo país. Acompanhamos as investidas nas vilas em busca dos talebans, as conversas, na maioria infrutíferas, com os velhos sábios, que fazem as vezes de uma câmara de vereadores, os ataques aéreos que matam inocentes. Pragmaticamente, o Segundo Batalhão está no Vale Korengal para construir uma estrada, de modo que a população evite passar por áreas dominadas pela Taleban. E para substituir outro batalhão, que havia atuado de maneira equivocada, não distinguindo a população dos terroristas e cometendo atrocidades ainda maiores. Porém, com o passar dos meses, o sentido do confronto – que muitas vezes não é nada mais que a resistência à guerrilha inimiga e a conquista de terreno – vai se esvaindo. Ou melhor, a falta de sentido do que se faz ali vai aumentando. 

O nome do documentário se deve a homenagem que os soldados fazem a um colegamorto em combate. O desaparecimento de Juan “Doc” Restrepo – que aparece noinício, registrando as imagens dentro do trem e é lembrado ao longo do filme,seja em imagens do dia-a-dia ou no depoimento dos companheiros – causou umsentimento de comoção nos colegas. Quando uma unidade de combate toma um postoestratégico no alto das montanhas do Taleban, escolhem o sobrenome do médicopara designá-la. Acompanhamos então a montagem de um posto avançado, com ossoldados a cavarem dia e noite, para construir um refúgio seguro. Entre ojantar, os exercícios físicos e os joguinhos de videogame portátil, eles atirampra valer suas balas traçantes nos bastardos inimigos. É curioso ver os garotoscomemorarem quando acertam no alvo, como se zerassem alguns destes jogosviolentos. Combatem como jogam e vice-versa. 

Muitojá se falou sobre a falta de sentido da guerra, de qualquer guerra. Restrepo, vencedor do Grande Prêmio do Júrino Festival de Sudance em 2010, vai além, ao mostrar isso, de forma honesta,sem melodrama. Preserva os mortos em combate, não exibe corpos dilacerados,capta a emoção da perda quando ela acaba de acontecer em uma operaçãoequivocada, sem exalar vingança ou sentimentos comezinhos. Se não chega amostrar o inimigo, a opção parece ser louvável, pois incute no espectador amesma sensação pela qual passam os soldados, do crescente medo do desconhecido.E esclarece, uma vez mais, como é absurdo o que acontece por lá, ao passar umsentimento de impotência e reforçar a crença de que algumas coisas têm quemudar para permanecerem a mesma. 

 

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