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O sarcasmo e a ironia do livro ‘Um Homem Burro Morreu’

Por Mariana Pitasse

Como em um labirinto de palavras, Rafael Sperling conduz sua narrativa através das mais mirabolantes situações. De uma briga de casal exagerada, em que a esposa liga para o exército russo a fim de bombardear a cabeça do marido, ao padeiro que morre estilhaçado por um pão explosivo, o escritor carioca, de 28 anos, constrói histórias em formatos nada comuns em seu segundo livro, Um Homem Burro Morreu (Editora Oito e meio). Lançado no início de julho, o título é composto por 27 pequenos contos recheados de sarcasmo, que se passam em um universo simbólico de difícil classificação.

 
A primeira obra de Sperling, Festa na Usina Nuclear (Editora Oito e meio), lançada em 2011, foi considerada uma boa surpresa pela crítica e por autores da literatura contemporânea como André Sant’Anna, Paulo Scott, João Gilberto Noll, Ana Paula Maia e Marcelino Freire.
 
Também em formato de um livro de contos, apresenta estranhos espaços inverossímeis, que ao mesmo tempo se mostram plausíveis. Com efeito de continuidade, em Um Homem Burro Morreu, o escritor segue apostando em formatos experimentais. Na orelha, o texto de apresentação assinado por Raphael Montes, novo nome da literatura policial brasileira, destaca os elementos irônicos e provocadores de seu conteúdo. Para Sperling, recursos não tão planejados quanto parecem.
 
“Acho que podemos ver várias das histórias como críticas da contemporaneidade, mas confesso que durante a escrita não penso muito no que estou fazendo. Simplesmente sinto algo e faço meio sem pensar muito, ou melhor, faço quando algo me causa algum estranhamento ou se me parece cômico. Só depois de já parcialmente escrito e pronto é que vejo o que aquilo pode significar”, afirma.
 
Reunindo histórias bem distintas no conteúdo, mas semelhantes na linguagem, o título apresenta os contos mais significativos de sua produção nos últimos quatro anos, escolhidos a dedo pela editora Flávia Iriarte.
 
“A realidade paralela em que passam as histórias também é um ponto em comum. Não que se construam num mundo distante no espaço ou no tempo, mas numa realidade um pouco parecida com a nossa, só que com outras regras. Tem também a questão do ‘homem burro que morre’. Em vários dos textos temos pessoas passando por situações em que se machucam ou morrem de forma besta. Percebi isso no meio da seleção dos textos, não foi algo intencional, e achei que o conto ‘Um homem burro morreu’ de certa forma resumia esse clima”, explica.
 
                                                                                                                       Julia Staneck
Em seu segundo livro, o escritor Rafael Sperling consolida linguagem ao apostar no formato experimental
 
Embalados por um registro coloquial, os contos remetem a estranhos relatos de sonhos ou memórias esquisitas. Em "O Juiz que queria ser Artista Plástico", a narrativa gira em torno de um meteorito que destrói o mundo, enquanto um juiz de futebol que gostaria de ter sido artista reflete sobre sua vida. Tudo o que resta da humanidade após o impacto é a malograda escultura de um atleta que o artista fracassado pretendia finalizar. Já na pequena história “Insônia”, um menino de oito anos não consegue dormir e decide ir ao quarto dos pais. Chegando lá, escuta gemidos que não consegue decifrar. Assustado, abre a porta e se envolve em uma série de situações inusitadas.
 
Ao longo do livro, Sperling nos apresenta personagens que estão sempre fazendo coisas absurdas, passando por situações estapafúrdias, num mundo em que nada funciona. Intencionalmente ou não, as narrativas servem como perfeitas metáforas do cotidiano. “Em geral, meus contos não nascem de experiências vividas, mas certamente nascem de sensações, coisas que ouvi aqui e ali, de leituras, filmes. Começo escrevendo com algum fio de ideia e não sei aonde vai dar. No entanto, acredito que as coisas que escrevo sejam, no fundo, bem brasileiras. Não no sentido cultural – apesar de volta e meia usar uma coisa ou outra, como o futebol, por exemplo –, mas no sentido de como vivemos aqui”, confessa.
 
Com contos traduzidos para mais de seis idiomas, Sperling se estabelece hoje ao lado de novos nomes da literatura contemporânea. Apresentando flexibilidade entre gêneros e mais um pouco de seu caráter experimental, o autor prepara uma nova obra, desta vez um romance. “Não tenho ideia de quando ficará pronto, mas estou escrevendo, ainda numa fase pouco avançada de desenvolvimento, até porque estou lutando um pouco contra o formato. Me questiono sempre sobre o porquê de fazer um romance, e, enquanto o escrevo, vou aos poucos tentando responder a essa pergunta”, finaliza.
 
                                                                                                           Rafael Sperling
 
 
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