Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 25.01.2011 25.01.2011

O Rei da Vodca

Por Bruno Duarte
Fotos de divulgação

 
Do tempo dos czares até hoje, a vodca é um ícone da cultura russa. Além de ser uma das bebidas mais populares do mundo, a vodca é um problema social em seu país de origem. Criada como um produto medicinal no século dezesseis, a bebida era oferecida tanto para homens prestes a iniciar trabalhos grandiosos, como construções ou colheitas, até mulheres em trabalho de parto e recém-nascidos enfermos. O traço cultural é inegável, a vodca, diminuitvo da palavra vody – água em russo -, era brindada desde as mais simples ocasiões em pequenos vilarejos a festejos reais nos palácios da nobreza. Desde o início de sua produção em maior escala, por vezes, o Estado teve que intervir, tomando para si o monopólio da comercialização da bebida, na tentativa de conter a produção de vodca de má qualidade. As falsificações prejudicavam os cofres do Império – que cobria todas as despesas básicas do Estado com os impostos sobre a vodca – e assolava a população por uma série de intoxicações. Até hoje o governo russo tenta criar políticas públicas para a redução de mortes por intoxicação álcoolica, em 2006 foram 33 mil mortes, além dos muitos casos de doença relacionadas ao alcoolismo. Por mais de quatro anos a jornalista e escritora norte-americana Linda Himelstein mergulhou na história da Rússia para narrar a trajetória de Piotr Smirnov, ex-servo de uma pequena aldeia que, em meio a essa atmosfera de profundas mudanças sociais, construiu a maior marca de vodca do país, hoje, a marca mais conhecida do mundo.

O primeiro contato de Linda com a história se deu quando ela era editora para assuntos jurídicos da revista Business Week. Na década de 1990, descendentes de Piotr Smirnov foram às cortes americanas reivindicar os direitos sobre a comercialização da marca no ocidente. Mesmo depois de fechada durante a Revolução Bolchevique, Vladimir Smirnov, terceiro filho de Piotr, tentou reestruturar os negócios de seu pai na Europa, após refugiar-se na França. Foi ele quem deu ares ocidentais à marca, grafou pela primeira vez o nome do produto com “f” e, em 1933, licenciou a marca e suas receitas para o empresário russo radicado nos EUA Rudolph P. Kunett. Foi Kunnett que com seu talento para os negócios instalou a primeira fábrica de vodca dos EUA e introduziu o consumo da bebida no país com estratégias de marketing avançadas para a época, como as que o próprio senhor Smirnov já havia utilizado na fundação de sua fábrica. Mesmo em um cenário político árido a qualquer referência à Rússia, a vodca tornou-se um produto com alta penetração na sociedade americana, mesmo que para isso já tenha sido vendida como “uísque branco”.

A trajetória da empresa serve como fio condutor de uma história de costumes, cultura e política da Rússia. O livro percorre dois séculos de intensas transformações no país e mostra o que aconteceu com o legado de Smirnov depois de sua morte – as brigas familiares que levaram ao declínio da empresa, até ela chegar aos EUA e se desenvolver como produto legítimo russo em meio à tensão da Guerra Fria, além de comentar as marcas deixadas pelo rei da vodca, que enfrentou a cruzada pela sobriedade apoiada por grandes nomes da sociedade russa como Anton Tchecov, Liev Tolstói e Dostoiévski, o monopólio estatal do comércio de vodca e a Revolução Bolchevique. Elementos da história russa e da economia mundial se cruzam neste livro que vai além do projeto de registrar a biografia do ex-servo que construiu um império, O rei da vodca (Jahar) abrange um período de profundas transformações sociais. Na entrevista ao SaraivaConteúdo, Linda Himelstein fala de como foi o processo de realização do livro, de seu primeiro contato com a história de Piotr Smirnov e dos quatro anos de pesquisa para a biografia.

 
Como você chegou a história de Piotr Smirnov?
Linda Himelstein. Eu conheci a história de Piotr Smirnov quando era editora para assuntos jurídicos da revista BusinessWeek, em meados dos anos 1990. Um homem me contou uma história sobre os descendentes do senhor Smirnov. Na época, eles entravam com um processo em instâncias internacionais para reaver suas marcas e direitos de produção. Os familiares alegavam que os diretos da marca foram transferidos de forma ilegal a terceiros após a Revolução Russa. Aquela história me intrigou imediatamente e escrevi sobre ela para a revista. Eu continuei a cobrir o caso e comecei a investigar a história daquela família. Quanto mais lia, mais fascinada eu ficava.

Quando você decidiu narrar a história em um livro?

Linda. Eu tive que deixar a história de lado por muito tempo. Tive dois filhos, me mudei de Nova Iorque para São Francisco, pois assumi a chefia do escritório da BusinessWeek no Vale do Silício  durante o boom tecnológico. Muita coisa estava acontecendo ao mesmo tempo e durante todo este tempo eu continuei pensando na história da família Smirnov, desde o começo eu sabia que aquela história merecia ser contada em um livro, eu só precisava saber como escrever. Eu sou uma jornalista que cobre a área econômica, mas não queria escrever um livro tradicional sobre negócios. Foi quando eu li Seabiscuit, de Laura Hillenbrand, uma história maravilhosa. Seabiscuit foi um cavalo azarão que, contra todas as probabilidades, saiu do zero para alcançar a glória. Com Pyotr Smirnov foi o mesmo. Ele foi um servo feudal, analfabeto, que se tornou um dos comerciantes mais poderosos na Rússia do século dezenove. Além de trajetórias parecidas, o contexto histórico tem um papel importantíssimo nos dois livros. A época em que essas histórias se desenrolaram faz cada uma delas mais improvável, o que me convenceu de que o caso dos Smirnov merecia ser estudado a fundo e contado em um livro. Então, em 2003, eu comecei a pesquisar a história a fundo.

Qual foi a maior dificuldade encontrada durante o processo de pesquisa para o livro?

Linda.  A pesquisa foi um grande desafio. Em primeiro lugar, eu não falo russo e não sou uma especialista em história da Rússia. Entretanto, eu sabia o quão importante era contar aquela história e o que eu precisava para transportá-la para uma narrativa convincente. Eu contratei uma tradutora em Moscou para que me ajudasse em tempo integral. Ela me ajudou a consultar os arquivos russos e foi um instrumento fundamental para o sucesso do livro. Os documentos russos não estão totalmente organizados em arquivos digitalizados e isso torna as coisas mais difíceis. Às vezes, fatos que eu pensava que tomariam um dia ou dois para confirmar, levavam algumas semanas até a sua confirmação. Eu queria saber se no dia do funeral de Piotr Smirnov fazia frio o suficiente para ter neve pelas ruas de Moscou. Isso era um detalhe importante, afetaria muito o cenário em que eu descreveria esta cena. Eu achei que seria simples encontrar esta informação. Em vez disso, pela forma como eles registravam as temperaturas naquela época (1898), demoramos quase um mês para achar esta informação. Eu realmente sabia como queria construir aquela história e o processo de escrita fluiu naturalmente.

No seu livro, você abrange um grande período da história. Como foi trabalhar todos os aspectos históricos desde o início de fins do século dezoito até os dias de hoje?

Linda. A história que eu descobri neste livro foi a grande surpresa. Eu aprendi muita coisa que aparentemente não eram tão relevantes para a família Smirnov, mas que compunham um retrato da sociedade russa. Primeiro eu descobri que Tolstói foi um defensor da moral e dos bons costumes que considerou a vodca responsável por 90% dos crimes cometidos na Rússia de fins do século dezenove. É claro que ele deveria estar na livro. O mesmo se aplica a Tchecov, seu contemporâneo, que chegou a escrever sobre o senhor Smirnov além de outros fabricantes de vodca, se referindo a eles como “mascates do sangue do diabo”. O álcool e alcoolismo têm papel relevante na sociedade russa, desde século dezessete até os dias de hoje, faz sentido que a saga dos Smirnovs esteja intimamente ligada a história do país.


Estande de Smirnov numa exposição industrial; prédio onde funcionava uma fábrica, um escritório e uma loja dos Smirnov, a família morou no andar superior de 1860 até a revolução; Retrato de Piotr Arsênievich Smirnov publicado no jornal A folha de Moscou em homenagem a sua morte, em 1898.

Em russo, a palavra vodca vem da mesma raiz gramatical de água. Você pode citar alguma curiosidade achada durante a pesquisa para o livro?

Linda. Foram muitos os fatos curiosos que surgiram durante a pesquisa. Tolstoi, por exemplo, criou o que talvez tenha sido o primeiro rótulo alertando para o perigo das bebidas alcoólicas, com uma caveira e dois ossos cruzados com a palavra “veneno” abaixo. No fim, a proposta foi recusada pela Duma – Assembléia Nacional da Rússia. Algumas histórias sobre como o czar Pedro, o Grande, usava álcool em suas leis também são interessantes. Em um caso, ele instituiu a “pena da dose” – quando um vassalo se atrasava para uma reunião deveria pagar uma multa ou tomar uma dose de vodca. Outra curiosidade é o quesito para se tornar um comerciante na Rússia no século dezenove. Entre outras qualidades, aqueles que intencionavam uma licença para se tornarem comerciantes deveriam jurar que não eram membros de nenhuma “seita insidiosa” – o que incluía ser judeu ou eunuco, por exemplo.

Atualmente você consegue apontar um nome no mundo dos negócios com uma trajetória tão fantástica quando a de Piotr Smirnov?

Linda. Existem muitos exemplos de sucesso no mundo dos negócios, até hoje, com histórias convincentes. Casos como o de Bill Gates, que abandonou a graduação na Universidade de Harvard e fundou a Microsoft, e teve que enfrentar disputas comerciais contra Steve Jobs, além de outros concorrentes. Você pode ver também o caso de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, que teve sua história contada recentemente em um livro, logo adaptada para o cinema. Richard Branson, fundador da Virgin Atlantic, veio de uma família desestruturada e é um tanto excêntrico. A intensidade e a garra com as quais estes homens venceram as previsões mais pessimistas e ultrapassaram um sem número de dificuldades os coloca em posição de destaque – junto a Smirnov – em uma categoria própia. Eles possuem determinação e foco, estão dispostos a fazer o que for preciso para serem bem sucedidos em suas ações. Eles também são visionários, peculiaridade que lhes fazem ter sucesso onde outros falhariam.

> Assista ao vídeo onde a jornalista Linda Himelstein fala sobre o livro O rei da vodca na série de encontros Authors@Google
 

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