Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 28.02.2013 28.02.2013

“O que me interessa é botar os bichos para fora”, diz Marcelo Yuka

Por Andréia Silva
 
Marcelo Yuka. Quem ouve esse nome logo pensa em música, política, ativismo, posicionamento, resistência e poesia. Tudo isso foi intensificado na vida do músico e compositor quando ele foi surpreendido por assaltantes, em uma noite de novembro de 2000. Nove tiros, uma espera no hospital e a história já conhecida.
Passados mais de dez anos do episódio, Yuka conta que vem conseguindo escapar do jogo de herói-vítima que a mídia tentou usar com ele, e agora expõe suas mais profundas e intensas reflexões em um documentário, No Caminho das Setas, lançado no final de 2012, e em um livro, Astronautas Daqui, com poesias, frases, canções e trechos de pensamentos completos e incompletos.
 
O livro é uma colcha de retalhos formada por palavras sobre o que passa na cabeça de Yuka, que segue trabalhando, colocando seus bichos para fora e sonhando. Isso, segundo ele, é o que o mantém seguindo em frente.
Aproveitando o lançamento da obra, Yuka conversou com o SaraivaConteúdo e falou sobre tudo isso. Veja a entrevista abaixo.
 
O documentário e o livro saíram quase simultaneamente. Que Yuka cada um deles revela ao público?
 
Yuka. Eu acho que os dois me deixam muito exposto, mostram minhas fragilidades e também a necessidade de controlar o que a mídia pode querer de mim, porque, depois dos tiros, tentaram me fazer de herói ou de vitima. Eu tive que ter cuidado para não cair neste lugar-comum da celebrização pela vitima ou de entender que eu sou especial por um lado heroico que na realidade não aconteceu. Acho que os dois se completam. São coisas diferentes, até porque o filme é o recorte da Daniela sobre mim, não é um recorte meu, por mais que eu seja protagonista. Eu tive que ser muito honesto e sincero para fazer o filme e o livro. 
 
Esses textos, frases e reflexões do livro obedecem a alguma ordem cronológica?
Yuka. Tem o último capítulo, que chama “Queima de Arquivo”, que é um apanhando de letras minhas, então quase conta a história da minha carreira. Mas o primeiro, que são as poesias anticompletas, saíram de vários cadernos, recheios de gavetas, papéis perdidos, frases que não consegui completar, que não quis completar ou de outra poesia. Mas achei interessante que elas fossem colocadas deste jeito, como frases, para que o leitor pudesse participar ainda mais com as suas conclusões e pudesse, quem sabe, riscar, completar, como se o leitor tivesse a propriedade do final. Os outros dois capítulos, “Canção para depois do Ódio” e “Ócio”, são de textos inéditos feitos nos últimos dois anos.
 
Uma de suas frases no livro diz: "O domador de sonhos atravessa o improvável sem ter medo de cair". Você se vê como um domador hoje?
Yuka. Totalmente. Só o que me leva para frente são sonhos. Acho que minha profissão, muito mais do que me expressar, é criar utopias para mim e para os outros. "O artista anda nesta corda bamba", essa poesia talvez seja uma das mais bibliográficas.
 
Na ilustração que abre o capítulo "Canções Para Depois do Ódio", aparece escrita em um tanque a frase: “Todo mundo quer amor”. O que nos impede tanto de concretizar esse desejo coletivo hoje?
Yuka. Acho que temos estas duas metades: uma melhor e outra pior. Como quase tudo na vida. Mas acho que neste sistema econômico que induz ao consumo exacerbado, à competição e ao individualismo, é muito mais forte você querer ser amado do que amar de verdade. Acho que isso tem uma relação com o poder, o poder induz a isso. É melhor você querer sempre mais do que sentir o que você tem. Então, somos nós mesmos que nos confundimos e não achamos a direção, principalmente no ocidente. Nós somos mais doentes disso, doentes dos desejos. Somos incentivados a ter desejos que nunca têm fim.
 
Você diz uma frase no documentário sobre ter medo de viver em vão. Escrever ameniza esse receio? Aliás, isso ainda é um receio, uma pulga atrás da orelha?
Yuka. Uma das coisas que me levantou e me fez continuar foi o entendimento de que não vim ao mundo a passeio. Se por acaso minha trajetória é mais difícil, ela é marcante pela minha ingenuidade de querer que meu trabalho, meu ativismo, tenha uma relação para o outro. Estou mais apaziguado com isso. Esse “em vão” só é amenizado se for pelo outro, que indica minha felicidade. Talvez seja um sentimento de culpa, não sei, só sei que no meu íntimo não sei muito ser feliz isoladamente.
 
Capa do livro Astronautas Daqui, de Marcelo Yuka
 
Em alguns textos, fica a impressão de que muitas vezes você se vê como seu maior inimigo. Há uma frase em "Nesse momento", quando você escreve "Eu sou o pulo e a barreira, sou eu que me enfrento", que reforça um pouco isso. É apenas uma impressão? Quando você se vê como seu pior inimigo?
Yuka. Lógico, tenho orgulho de coisas que faço e fiz, orgulho para onde eu direciono minha sensibilidade. Mas tenho autoestima baixa e algumas metas a alcançar que são muito altas talvez para mim, principalmente com o meu trabalho. Estou sempre me cobrando mesmo. Muitas vezes eu me enxergo como o maior problema, mas a arte apazigua um pouco.
Por mais que, quando eu esteja produzindo, tenha uma maneira egoísta de compor e me expressar, o que me interessa mesmo é botar os bichos para fora.
 
Tanto no filme quanto em alguns textos, você fala sobre a sua busca por novas possibilidades para tentar voltar a andar. Você acredita que ainda pode voltar a andar?
Yuka. Veja bem, o filme só foi realizado porque a Daniela vinha tentando há muito tempo que eu topasse, e só topei porque ela falou: olha, o Brasil está na disputa (na época, né) para que as células-troncos embrionárias sejam usadas em estudos, o que não estava autorizado ainda. O filme é uma ferramenta para pressionar esses estudos. Aí eu topei e fomos adiante. Hoje, para mim, o mais interessante é diminuir as dores que eu sinto, muitas dores neuropáticas, que se tem pouquíssimo êxito para controlá-las. A questão de andar não é determinante para a felicidade, determinante é ter uma boa qualidade de vida, paz, a felicidade da maneira mais digna possível.
 
Quando conversei com a Daniela sobre o documentário, ela comentou que sua visão mais crítica faz muita gente vê-lo como um cara pessimista. Você se considera uma pessoa pessimista?
Yuka. Não, de jeito nenhum! Uma pessoa pessimista não leva uma vida como eu levo. Teria todos os motivos para não acreditar mais nas pessoas ou na vida. Todo dia, quando acordo, a primeira coisa que faço é agradecer. Durante muito tempo eu era saudável em pé, sem nenhum problema, e não me sentia feliz, e [de modo] inversamente proporcional, hoje tenho um corpo debilitado, vários problemas, mas me sinto simplesmente feliz.
 
Você nunca deixou de trabalhar com música. Como anda o seu trabalho, o que você pensa em lançar, produzir? Passa pela sua cabeça montar uma nova banda?
Yuka. Estou fazendo um trabalho solo. Na realidade não é um trabalho isolado, gosto de trabalhar com várias pessoas, então nesse disco tenho pessoas com quem trabalho, e com ele vou para estrada. Posso dizer que é minha banda. Tem outro projeto que é o Mestiço, que eu produzo e toco. É uma banda de protagonismo indígena, estou terminando o disco também. Este ano, quero fazer um infantil, e tem também um projeto de disco com Seu Jorge e D2. Fora as trilhas e artistas que produzo… Acho que nunca trabalhei tanto.
 
Aliás, por curiosidade, o que você anda escutando?
Yuka. Mestre Lourimbau, cantor baiano que toca berimbau, canta muito bem e tem um trabalho único. Ando ouvindo o disco Transa, do Caetano Veloso, que é um disco básico, jongo, samba do recôncavo e Flying Lotus, que também é básico, muito dub. Meu gosto é variado, mas estou em uma fase de música regional folclórica, isso tem me emocionado.
 
Preparar esse livro aguçou mais seu lado escritor? O que foi mais diferente nesse processo, comparando com seu trabalho na música?
Yuka. Por mais que escrevesse, independente de que aquilo fosse virar uma canção, como era basicamente a minha intenção no começo, eu caminhava quase que impulsivamente a criar estrofes que virassem refrão. Nesse livro não, eu me descartei de qualquer fórmula de canção e apenas botei meus bichos para fora da maneira mais sincera. Pode ser que uma dessas poesias virem canção, como já estão, mas trabalho direto da caneta para o papel, da emoção jogada ali, sem pensar para o que fosse. É mais a intenção de falar do que a necessidade de entender.
 
O peso da palavra no papel, sem a música, é o mesmo?
Yuka. Não, a palavra tem um peso muito maior. Muitas vezes ela se esconde ou é alavancada, glorificada pela melodia, pela harmonia, pela popularidade da canção. Mas a palavra por si só tem seu caminho e entendimento automático; ela propõe imaginários futuros particulares, lugares únicos aonde chegar que independem de complementos, sejam cênicos ou musicais; ela pode se tornar mais popular, agradar mais a alguém, determinado tipo de pessoa. Ela por si só já é a nossa maior forma de expressão e a nossa maior transcendência, por isso que é o signo mais popular que o homem tem. Ela ainda propõe juras, acordos e imaginações, nos leva mais do que os números; ela é capaz de dividir os sentidos mais íntimos e o nosso maior canal.
 
Se você tivesse que escolher um trecho de Astronautas Daqui para traduzir o Yuka de hoje, qual seria?
Yuka. Tem várias [composições], mas vou falar uma que veio na cabeça. É uma música que fiz para o disco O FURTO, que diz: "Caio para dentro de mim com a vertigem dos que aprendem em queda livre", acho que talvez esse seja o homem que sou hoje. Dessa vertigem eu estou tirando alguma coisa boa.
 
 
Recomendamos para você

Os produtos Saraiva mais comentados