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O que há de bacana por trás do grupo Tiquequê

Por Daniela Guedes
Fazer espetáculo para criança não é para qualquer um. O público, apesar de ‘pequeno’, é um dos mais exigentes, não tem papas na língua e fala sem pestanejar se a apresentação está boa ou ruim. Não é qualquer brincadeira que vai ser garantia de sucesso. Pensando nisso, quatro amigos decidiram criar o grupo Tiquequê, uma mistura de linguagens expressivas, em que os espetáculos são feitos de música, teatro, narração de histórias, dança e brincadeiras. Som e visualidade acontecem simultaneamente.
Formado pelos músicos e educadores Diana e Isabel Tatit, Ângelo Mundy e Wem, o Tiquequê, que já tem 10 anos de estrada, possui três espetáculos criados, “Toc patoc”, “Tu toca o quê?” e “Canta outra”. Todos eles inspirados em brincadeiras de roda e de rua, danças tradicionais, parlendas (versinhos com temática infantil que são recitados em brincadeiras de crianças), percussão corporal e tudo que a imaginação musical e cênica desses jovens inventarem. A criançada adora.
O grupo ainda comemora o lançamento do seu primeiro DVD independente, intitulado Tu toca o quê, com base no espetáculo de mesmo nome, criado pelo grupo em 2009 e que já foi visto por mais de 10.000 crianças entre um e 12 anos. Finalmente o registro de parte da trajetória do Tiquequê – que, por onde passa, encanta não só aos pequenos, mas também àquele primo um pouco mais velho, aos pais e até aos grandinhos, para ser sincero.
 
Conheça um pouco mais sobre o grupo nesta entrevista concedida pelos integrantes ao SaraivaConteúdo.
Como surgiu a ideia de montar o Tiquequê?
Isabel Tatit. Queríamos desenvolver um espetáculo que fosse ao mesmo tempo musical e cênico, em que cada número tivesse uma proposta teatral ou coreográfica. Ao mesmo tempo, desejávamos que fosse um show prático de ser montado, que pudesse ser apresentado com uma infraestrutura simples e que pudéssemos ter um contato muito próximo com o público.
O que significa para vocês trabalhar com e para as crianças?
Ângelo Mundy. Temos, de fato, um encantamento pelo público infantil. Consideramos esse envolvimento algo muito prazeroso, que nos inspira e nos motiva. Gostamos muito de pensar nas cenas que irão entreter as crianças, nas letras que irão cativá-las, no repertório que lhes agradará. Além do Tiquequê, dois integrantes do grupo são professores e, portanto, trabalham diariamente com crianças.
Qual a preocupação que se deve ter em um projeto assim?
Ângelo Mundy. Talvez não uma preocupação, mas um cuidado. Cuidado com a qualidade do que se apresenta, com o que nos propomos a fazer. Não é porque é pra criança que não se deve ter critério e uma estética acurada. Ao contrário.
O que significa a palavra “Tiquequê” e como surgiu o nome da banda?
Diana Tatit. A palavra “Tiquequê” vem de uma brincadeira popular, usada em exercícios de teatro, cuja letra é um “emaranhado” de sílabas: “Toc patoc Patoc tac Tiquequê Tiquequê Tum Ba Tum Ba…”. A partir dessa brincadeira, montamos o nosso primeiro número, que originou o nome do grupo e também do primeiro espetáculo que montamos, o “Toc Patoc”.
 
Da esquerda para direita, Diana Tatit, Wem, Isabel Tatit e Angelo Mundy, do Tiquequê
Como funciona a pesquisa do repertório de vocês, dos shows?
Wem. A escolha do repertório é um dos pontos principais do nosso trabalho. Nosso objetivo é apresentar um repertório diferente. Por exemplo, sempre selecionamos algumas cantigas populares, mas, preferencialmente, não as mais conhecidas pelas crianças. Depois, escolhemos canções autorais que nos agradam, não necessariamente infantis, mas que consideramos que são comunicativas para esse público. Vale lembrar que, quando éramos pequenos, não havia tanta produção de música especificamente para criança e costumávamos gostar de canções “adultas”, que nossos pais apreciavam.
Muitas vezes, buscamos justamente essas canções que gostávamos quando éramos crianças, como é o caso de “O homem mau”, do Roberto Carlos, que apresentamos no “Canta Outra”, nosso último espetáculo, ou de “Andorinha Preta”, gravado pela Nara Leão, que interpretamos no “Tu toca o quê?”. Além disso, também temos nos dedicado cada vez mais a compor nossas próprias canções.
Qual o filtro ou critério que vocês usam para selecionar o repertório do grupo?
Wem. Depois que selecionamos as canções que gostamos e que achamos que têm potencial para compor o repertório do show, passamos para a difícil etapa de criar a proposta cênica para cada uma delas. Nesse momento, pode acontecer que uma ou outra seja descartada, pois o maior critério é que sejam números completos, tanto do ponto de vista musical quanto do cênico.
Qual foi o maior aprendizado da banda ao começar a trabalhar com obras infantis?
Ângelo Mundy. Foi, através da experimentação e de acertos e erros, perceber o que “funciona” e o que “não funciona” para o público infantil. Algumas vezes, escolhíamos uma música, montávamos uma coreografia, sempre superdetalhada, cheia de marcações, ensaiávamos bastante e, quando estreávamos aquele número no show, percebíamos que não comunicava, não funcionava.
Como foi a experiência de, após dez anos de estrada, vocês conseguirem gravar o primeiro DVD do Grupo, o Tu toca o quê?
Isabel Tatit. É realmente a realização de um sonho cultivado durante muito tempo. Nós queríamos gravar um DVD, já que grande parte do nosso trabalho é visual e seria perdido se gravássemos um CD. Fizemos várias tentativas anteriores, com leis de incentivo, com produção independente, com apoio de conhecidos, mas foram frustradas. Ver esse projeto se concretizar depois de tudo isso é uma grande satisfação.
Quais as suas maiores influências na música e no teatro?
Diana Tatit. Temos uma grande influência da Palavra Cantada, sobretudo no que se refere à música de qualidade para criança. Ainda no universo infantil, nos inspiramos no Duo Rodapião, de Belo Horizonte. O Arnaldo Antunes é também uma grande referência; bem como o trabalho dos Barbatuques. Temos ainda influência do extinto Grupo Rumo e de sonoridades diversas, como da cantora Camille, entre outras. No teatro, apreciamos muito o trabalho da Cia Le Plat Du Jour. Para a montagem do “Canta Outra” também buscamos a referência do espetáculo “Momentari”, da Cia. catalã Nats Nus. Nas coreografias, buscamos muitos elementos das danças brasileiras e das brincadeiras infantis.
O grupo é essencialmente teatral nas letras (diálogos), nas músicas, na entonação dos vocalistas, na apresentação no palco. Como foi pensada a estética desse trabalho?
Isabel Tatit. Essa estética nasceu junto com o Tiquequê. Desde o início, queríamos um show musical e teatral. Isso vem muito do nosso gosto pelas duas áreas e pelo desafio que essa união propicia nas montagens dos espetáculos.
Essa influência teatral, com a cena, veio principalmente das primas, Isabel e Diana Tatit, por conta do histórico familiar (serem sobrinhas do Paulo Tatit, integrante do grupo Palavra Cantada) e de paralelamente trabalharem como educadores?
Ângelo Mundy. Antes do Tiquequê, a Isabel e a Diana já tinham experimentado essa união entre música e teatro, por terem participado dos shows “Canções de Ninar” e “Canções Curiosas”, da Palavra Cantada. Com o Tiquequê, puderam ampliar e aprofundar essa pesquisa. O trabalho como educador propicia, sobretudo, um contato frequente com as crianças e uma intimidade que possibilita uma aproximação bastante natural e espontânea quando nos comunicamos com esse público.
Quais os planos do grupo para os próximos anos?
Wem. Já estamos planejando a gravação de um CD com as nossas canções autorais, possivelmente já para o ano que vem. Em seguida, queremos produzir DVDs dos nossos outros dois espetáculos.
Poderia deixar uma mensagem para o público de vocês?
Diana Tatit. Obrigado pelo reconhecimento e pelo carinho ao longo desses 10 anos. Esperamos que gostem de assistir novamente (e quantas vezes quiserem!) ao show “Tu toca o quê?”, agora em DVD!
 
 
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