Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 21.06.2011 21.06.2011

O que fizeram com os nossos heróis?

Por André Bernardo

Se você é daqueles que, há muito tempo, não lê uma história em quadrinhos, prepare-se: da próxima vez que comprar um gibi, pode levar um susto daqueles. Afinal, para quem ainda não sabe, Mônica e Cebolinha estão namorando, a turma da Luluzinha cresceu, o Tocha-Humana morreu e o Homem-Aranha trocou de uniforme. Bem, essas são apenas algumas das muitas estratégias criadas pelas editoras de HQs para atrair novos leitores, reconquistar antigos fãs e, principalmente, alavancar a venda dos gibis. Algumas vezes, tais jogadas de marketing dão certo. Outras vezes, não.

No caso de Turma da Mônica Jovem, da Panini, Maurício de Sousa não tem do que se queixar. Desde que lançou a versão “teen” de seus personagens, em agosto de 2008, as vendas atingiram tiragens nunca antes vistas. A mais recente, a que mostra o tão esperado beijo na boca entre Mônica e Cebolinha, por exemplo, saiu com 500 mil exemplares. “O namorico entre os dois nasceu de uma reivindicação dos fãs. Em 2008, eles já tinham dado uma bicotinha, mas o pessoal achou que não podia ficar só naquilo. Já estava na hora de eles começarem a namorar”, brinca Maurício.

Nos tempos da internet

O sucesso de Turma da Mônica Jovem encorajou a Ediouro a lançar, em junho de 2009, a revista Luluzinha Teen e Sua Turma. Nela, a personagem criada por Marjorie “Marge” Henderson, em 1935, troca o famoso diário por um moderno blog, que tem registrado 30 mil visitas mensais. Além disso, o Twitter de Lulu, Bola & Cia., já totaliza 12 mil seguidores. “Em um mundo cada vez mais digital, onde as crianças crescem tendo pouco contato com a leitura de livros e revistas, é bom que elas encontrem uma HQ com a qual se identifiquem”, avalia o editor da Ediouro, Daniel Stycer.
 
Diretor de redação da Abril, responsável pelos quadrinhos da Disney no Brasil, Sérgio Figueiredo admite que tais estratégias renovam o interesse do público, sim, mas ressalva que, “geralmente, não sustentam as vendas por muito tempo”. Segundo ele, o mais perto que a Disney chegou do chamado “realismo da continuidade” foi proposta por Don Rosa em A Saga do Tio Patinhas. “Ali, o personagem nasce, vive sua juventude, enfrenta o frio do Klondike como mineiro, enriquece, apaixona-se, enfim, vive uma trajetória. Mas é uma trajetória passada, não futura”, pondera Sérgio.

A Saga do Tio Patinhas: o mais perto que a Disney chegou do chamado “realismo da continuidade”

“Tiro no pé”

Das táticas usadas para atrair leitores e turbinar as vendas, nenhuma é tão drástica quanto matar um personagem. Duas das maiores editoras norte-americanas, a Marvel e a DC já usaram o recurso algumas vezes. Nem todas com sucesso. “Às vezes, tais ações podem ser um tremendo tiro no pé e afugentar muitos leitores. Quando isso acontece, as editoras tendem a reverter as mudanças”, afirma Levi Trindade, editor da DC no Brasil. Coincidência ou não, o número de super-heróis que morreu e, depois, ressuscitou é grande e inclui até Super-Homem e Capitão América. O mais novo nome da lista é Johnny Storm, o Tocha-Humana. Com a morte dele, o Homem-Aranha é convidado a ocupar a sua vaga no Quarteto Fantástico. De quebra, ainda ganha figurino novo: em branco e preto.
 
A estratégia das editoras de provocar reviravoltas mirabolantes no universo dos quadrinhos divide a opinião de especialistas. Para Manoel de Souza, editor da revista Mundo dos Super-Heróis, da Europa, nenhuma estratégia, em si, é garantia de sucesso. “O que me interessa sempre é a qualidade da história. Por melhor que seja um desenho, ele não salva uma história ruim. Já um bom roteiro, mesmo mal desenhado, pode deixar a leitura prazerosa”, defende Manoel, que gostou bastante do resultado de A Morte do Capitão América. “Já A Morte do Superman”, opina, “deixou a desejar”.


Superman

Crise de criatividade?

Autor de A Guerra dos Gibis, da Companhia das Letras, Gonçalo Júnior afirma que tais jogadas de marketing atestam uma “crise de criatividade sem precedentes” das HQs, provocada pelo fenômeno das graphic novels norte-americanas e agravada pela concorrência dos mangás japoneses. “Essas grandes reviravoltas, quase sempre trágicas, desgastaram muito o gênero”, lamenta Gonçalo. Para ele, o único recurso que (ainda!) funciona é o romance, o namoro e, em alguns poucos casos, o casamento, que humaniza os personagens das HQs e os aproxima do mundo real dos leitores.

De fato, desde que Kit Walker, o Fantasma, e Diana Palmer subiram ao altar, em 1978, outros super-heróis tomaram coragem para fazer o mesmo. Casos de Clark Kent e Lois Lane, Mandrake e Narda, Peter Parker e Mary Jane… Mas, e Mônica e Cebolinha? Será que, um dia, vão viver felizes para sempre? “Mas eles mal começaram a namorar”, espanta-se Maurício. “Os dois ainda têm muito pela frente”, desconversa. Se Mônica e Cebolinha vão casar, Álvaro de Moya, não sabe. O que o maior especialista de gibis do Brasil sabe é que as HQs de Maurício de Souza têm coerência e profundidade. “Em tese, o público é ávido por novidades. Mesmo assim, ele sabe distinguir quando a novidade é ideia do próprio autor ou invencionice de editor”, garante Álvaro.

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