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O que é que a Baiana tem

Por Daniela Guedes
 
Como tornar inédito algo que já existe? Como exportar para o mundo o som produzido pela guitarra baiana? Essas perguntas são respondidas pela banda soteropolitana Baiana System, capitaneada por Robertinho Barreto (guitarra), Russo Passapusso (vocal), Marcelo Seco (baixo), Wilton Batata (percussão) e o DJ João Meirelles (bases e mixdubs). Além deles, Filipe Cartaxo, que assina toda a concepção visual do grupo, traz como referência as manifestações populares da Bahia.
A proposta da banda é mostrar as novas possibilidades sonoras do instrumento – neste caso, a guitarra baiana –, mas sem essa ideia de resgate, muito pelo contrário. A ideia é justamente amplificar a voz do instrumento para dialogar com as culturas africana, brasileira e jamaicana.
Aí cabem várias experimentações que desembocam em uma mistura que não deixa ninguém parado. Música urbana de primeira qualidade que ganha o mundo, porém sem o rótulo de tipo exportação. No cenário musical há dois anos, a Baiana System já passou por várias cidades no Brasil e alguns países como China, França, Dinamarca e até Rússia.
A cada apresentação, aumenta a sintonia entre sua música e o público. Em seu CD de estreia, intitulado apenas Baiana System (Garimpo Música), há participações de Lucas Santtana, Roberto Mendes, Letieres Leite, Gerônimo e BNegão, além de homenagens ao guitarrista paraense Pio Lobato e à banda de rock instrumental Retrofoguetes.
O SaraivaConteúdo foi atrás da novidade e entrevistou Robertinho Barreto, amante da guitarrinha e idealizador da banda. Acompanhe!
A partir de que momento vocês se deram conta de que dava para mesclar a guitarra baiana com o Dub (estilo musical caracterizado por ser uma versão de músicas existentes, tipicamente enfatizada pelas batidas da bateria e as linhas arrojadas de baixo)?
Robertinho Barreto. A própria estética do reggae, do dub, vem sendo uma tônica nas composições atuais, e eu achava que a guitarra baiana se encaixava muito bem nessas linguagens, principalmente do dub, que acaba sendo muito mais estética do que gênero, a forma de utilizar os delays, as colagens… Então começamos a experimentar isto. Pensando na guitarra como uma voz que dialoga junto com o vocalista, veio daí também a ideia de que poderíamos utilizá-la com o dub.
Foi daí que também surgiu a ideia de incluírem outras vertentes musicais, como a africana e jamaicana, e ainda juntar as mixagens do Chico Correa e João Meirelles?
Robertinho. Sim, a partir da ideia do Sound System (sound systems são sistemas sonoros potentes comandados por DJs, que se revezam tocando uma seleção de músicas e, muitas vezes, improvisando sobre elas) que vinha aparecendo no Brasil, e, na Bahia, pensamos no próprio trio elétrico, daí a gente transpôs essa ideia do sistema de som pra gente ter essas bases, essas coisas usadas, manipuladas ao vivo como instrumento, que é a ideia principal do sound system. E a primeira pessoa que entendeu a gente e de fato deu essa formatação foi o Chico Correa. Muito do entendimento do som da Baiana veio dessa parceria. Agora a gente segue com o João, que já tem mais influências de música eletrônica do que do dub necessariamente.
 
A banda durante apresentação
Em algum momento vocês já encontraram alguma resistência ao som de vocês?
Robertinho. Eu acredito que existam pessoas que gostam e outras que não gostam, como tudo na vida. Alguns podem gostar mais, outros gostarem de algumas coisas e ter outras considerações, mas isso não chega necessariamente a se traduzir em resistência ao som. De certa forma, o Baiana tem circulado, viajado ao exterior de forma bem mais rápida e dinâmica do que a gente imaginava.
Hoje, qual o maior desafio da Baiana System em termos musicais?
Robertinho. O desafio de que as mixagens realmente funcionem interagindo com a percussão, que é algo que inicialmente não tínhamos – a gente tocava ao vivo, sem percussão. E também achar a linguagem da gente, reforçar esta identidade do sistema de som e da percussão.
Como é o processo de criação das composições, já que na maioria das vezes elas são improvisações?
Robertinho. Partimos de alguns temas e, a partir do momento que a gente começa a tocar, vai virando outras músicas, Russo já vem com outras ideias de melodias, letras, falas… Eu já puxo outras ideias de guitarra, e uma coisa vai retroalimentando a outra. Tem muito da coisa do ao vivo, do improviso, que vai se incorporando à música e acaba ficando bom. É tudo muito livre e colaborativo.
A inspiração principal do som do grupo parece clara: Armandinho Macêdo, difusor da guitarra baiana, e, eventualmente, aqueles que inventaram o instrumento, os músicos Dodô e Osmar. Mas, além deles, em quem vocês se inspiram para fazerem esse som?
Robertinho. Armandinho foi e é sem dúvida uma inspiração pra mim, no meu modo de tocar, no gosto pelo instrumento, mas não seria totalmente uma inspiração no som da banda, que vem um pouco do que cada um ouve – que é, por sinal, muita coisa. A sonoridade africana, jamaicana… Talvez Armandinho esteja representado no símbolo da guitarra baiana, mas a maneira do vocal toaster (espécie de orador), a ideia de o grave ser muito mais presente no som, são influências mais claras na banda.
Como funciona a pesquisa do repertório dos shows?
Robertinho. É bem livre a nossa criação, às vezes a gente utiliza a nossa própria música. Vem muito da pesquisa de repertórios de carnavais mais antigos e do que essas músicas representavam. Daí a gente traz para a banda, enfim… a gente vai trazendo referências de músicas que têm a ver com a nossa proposta. A pesquisa é intensa, porque nós pesquisamos muito.
Como são trabalhados os arranjos das músicas conhecidas?
Robertinho. Pego algumas músicas que acho bacanas, começo a tocar, daí o Marcelo Seco vem com as ideias de baixo, a gente começa a pensar em uma base, qual seria a levada que iria traduzir o que estávamos pensando… ou às vezes, o contrário, uma base que a gente está experimentando me sugere uma ideia de música conhecida, aí eu toco e aquilo fica bacana, daí a gente vai brincando com aquilo. É o caso de “Selva Branca”, por exemplo, uma música de Carlinhos Brown e Vevé Calasans. Era de outro jeito, e quando ouvi essa canção na forma de Cúmbia (estilo de música tradicional da Colômbia e Panamá), pensei que ficaria muito bonita com esta roupagem. Tocamos ela junto com a Márcia Castro no Bahia de Som Salvador, evento de música baiana, em São Paulo, neste ano.
Soube que tem novidades vindo por aí, como o lançamento do compacto com duas músicas inéditas e a realização de ensaios em Salvador. Você poderia falar mais sobre elas?
Robertinho. A gente já tem algumas músicas prontas. Como a gente achou que iríamos gravar o disco este ano, mas acabou não acontecendo, tivemos a ideia de lançar um compacto com duas músicas que têm mais a ver com o verão. Já gravamos e quem está mixando é o Dudu Marote, produtor paulista que entendeu muito bem a nossa proposta musical. Lançaremos esse compacto no final de novembro e começaremos os ensaios no verão, mais como um laboratório mesmo, daquilo que a gente faz no estúdio, só que agora ao vivo, [com a intenção de] convidar pessoas, experimentar. Serão dois ensaios em dezembro, dois em janeiro e um em fevereiro.
Com dois anos de estrada, já dá pra fazer uma análise da evolução musical da Baiana System desde o inicio da carreira até agora?
Robertinho. Acho que a evolução vem do entendimento de como a gente toca, da percepção das divisões mais claras do sound system, da percussão. Essa evolução é mais nítida e é o que eu considero mais importante no som da Baiana, que é não ficar tão amarrada como formato de banda, da gente ter que tocar as músicas com introdução, meio e fim. Essa liberdade de tocar, de se permitir improvisar, se permitir dialogar de uma maneira mais livre, agora mais consciente e seguro de como a gente toca junto.
Como você insere o disco e o trabalho da banda na música feita na Bahia?
Robertinho. Como um trabalho que dialoga com outras estéticas, mas que o público consegue identificar a cultura local, seja pela guitarra baiana, seja pelo vocal do Russo, seja pela parte gráfica. Eu insiro o trabalho da banda como uma música da Bahia feita pra for a, sem aquela coisa folclórica tipo exportação.
E sobre as parcerias? Como elas acontecem?
Robertinho. Vai muito das pessoas que admiramos, que nos identificamos, que a gente acha que têm a ver com o nosso trabalho. Artistas como Roberto Mendes, Lorimbau, Gerônimo, Lazzo, BNegão, Lucas Santtana, são algumas das nossas parcerias que acabam acontecendo naturalmente. Por afinidade mesmo. Tanto daqueles que vêm nos buscar quanto daqueles que buscamos para as parcerias.
E com relação à parceria com o músico BNegão, quando e por que começou?
Robertinho. BNegão tem uma coisa muito especial com o Baiana. Ele foi o cara que fez a gente acreditar mais ainda na gente desde o início. A gente já gostava muito dele desde os tempos do Planet Hemp, com o Seletores de Frequência e o próprio trabalho de letrista, cantor. Eu brinco com ele chamando-o de Mestre dos Magos. Quando estamos confusos com alguma coisa, eu ligo ou mando e-mail e ele sempre tem uma maneira muito clara de passar as coisas pra gente. É uma pessoa especial, e por isso essa parceria vai existir pra sempre.
 
A arte de Filippe Cartaxo também compõe o trabalho da banda
De onde vem o nome Baiana System?
Robertinho. O Baiana faz referência à Bahia e o System vem do sound system. Quando pensei no nome, eu procurei sintetizar essa coisa da guitarra baiana dialogando com o sound system e com as bases.
E sobre a concepção visual da banda – com aqueles grafismos que acabam dando um aspecto muito próprio e diferenciado na marca da banda –, vocês também participam das criações?
Robertinho. Uma pessoa bem importante nisso tudo é o Filipe Cartaxo, porque ele traduz pra gente o que a gente toca. Muitas vezes ele faz com que a gente entenda nosso próprio som através das imagens que ele cria. E isso foi se juntando à ideia da Baiana System, uma coisa muito própria, que hoje a gente pensa o som junto com a imagem. Então, a concepção visual pra gente é uma coisa muito intrínseca. Tanto é assim que a gente não viaja sem Filipe.
O que você espera que os ouvintes sintam ao escutar o som do grupo?
Robertinho. Que eles consigam identificar a nossa identidade, perceber que usamos elementos que nos influenciaram, que trouxemos como referência para o projeto, mas que de certa forma a gente está tentando achar uma linguagem, uma maneira de a gente compor, tocar. Então, acho que se as pessoas conseguirem escutar isso e perceber a sonoridade do Baiana System em meio a tantas misturas, já me deixaria bem feliz.
 
 
 
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