Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.10.2012 18.10.2012

O que é amar?

Por Rafael Roncato
 
Defina o verbo “amar”. Chegar a um consenso ao tratar do significado de tal palavra é tarefa quase impossível. Cada indivíduo possui uma interpretação, uma visão única, como também uma vaga ideia do que é amar – ou o amor. Por meio da produção literária brasileira de cinco séculos, a poeta e tradutora Celina Portocarrero decidiu se aventurar ao tentar dar uma cara a esse verbo em Amar, Verbo Atemporal (Editora Rocco).
Celina decidiu reunir, ao todo, 100 poemas: 50 de autores clássicos, nascidos entre os anos de 1623 e 1897, e mais outros 50, inéditos, de autores nascidos entre 1932 e 1989. Com essa reunião de interpretações líricas sobre o amor, somos levados aos mais variados cantos do país e apresentados aos mais variados escritores.
Poemas de uma nova geração formada por Alice Sant’Anna, Bruna Beber, Flávio Morgado e Ramon Mello estão entrelaçados aos de autores renomados, como Machado de Assis, Gregório de Mattos, Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu.
A estranheza em ver tantos nomes e idades em um único livro é facilmente explicada pela própria organizadora. Segundo Celina, seja o barroco ou o moderno, do mais ingênuo ao mais atiçado pelo fogo descontrolado, o amor não tem tempo. As formas de amar não envelhecem.
Leia a seguir a entrevista da autora para o SaraivaConteúdo:
Quando surgiu a ideia de fazer essa antologia sobre o amor?
Celina Portocarrero. A ideia de organizar uma antologia poética surgiu no final de 2011, numa conversa com a Vivian Wyler, diretora da Editora Rocco, a respeito de planos de trabalho conjunto e do interesse da editora em publicar poesia. Por que o amor? Por nos ter parecido ser o tema ideal para interessar mais leitores pela poesia. Afinal, de uma maneira ou de outra, estamos todos sempre às voltas com o amor.
O que torna um poema de amor especial ou interessante para a publicação?
Celina Portocarrero. Poemas de amor, de modo geral, falam de momentos que conhecemos ou gostaríamos de conhecer. Imagino que a maioria das pessoas, ao ler um poema de amor, espere dele, além do simples prazer da boa leitura, uma identificação com os sentimentos que vive, viveu ou espera viver um dia.
Você tem ideia de quantos poemas leu para poder fazer essa organização?
Celina Portocarrero. Leio poesia desde menina, por isso seria muito difícil dizer quantos poemas li para escolher os cem que compõem a antologia. Centenas? Milhares? Dos autores vivos, mais de uma centena; dos antigos, muitas mais.
Para os poemas inéditos selecionados, como foi o processo de convidar esses jovens autores?
Celina Portocarrero. Todos os poemas de autores vivos são inéditos, sejam eles muito jovens ou nem tanto. O processo foi o mesmo para todos: enviei um e-mail convidando-os a participar da antologia e explicando em que condições se daria essa participação. Aos que responderam concordando, pedi que me enviassem alguns poemas inéditos em livro. O critério foi, digamos, a "qualidade" da poesia já publicada por esses autores, tanto em livros impressos quanto na internet.
Nos autores mais contemporâneos – dos 50 poemas inéditos –, qual seria a principal diferença no tratamento do amor em comparação com os textos mais antigos?
Celina Portocarrero. Deixo aos leitores a missão de encontrar as diferenças. Qualquer comentário feito por mim os privaria do prazer da descoberta.
Por mais que passem os anos e mudem os modos de se viver e conviver, o amor, além de atemporal, seria imutável – até mesmo inexplicável?
Celina Portocarrero. O maior encanto do amor talvez resida exatamente no fato de, muitas vezes, nos parecer inexplicável. Sabemos se e quando amamos, mas nem sempre sabemos explicar por que amamos.
O amor pode ter os mais variados significados: afeição, paixão, bem-querer, compaixão, libido. De que forma você pensou nesse sentimento para compor a antologia?
Celina Portocarrero. Para escolher os poemas de Amar, verbo atemporal, concentrei-me no amor romântico, no afeto despertado por uma pessoa em outra. Quanto aos diversos aspectos do sentimento amoroso, deixo as explicações para os profissionais que lidam com as variações da mente e dos sentimentos humanos. Longe de mim qualquer pretensão de interpretar ou classificar amores.
 
Capa do livro
Como a senhora vê o amor – ou o tratamento dispensado a ele – hoje?
Celina Portocarrero. Não sou especialista em amor, não sou perita em literatura. Passo também estas respostas aos peritos dessas áreas, muito mais capacitados do que eu para responder. Posso apenas repetir aqui uma antiga historinha literária. Disse o poeta russo Pushkin, ao responder a Gogol, então um escritor iniciante, que lhe perguntava como escrever um livro que se tornasse universal: "Escreva sobre a sua aldeia". O amor é uma "aldeia" comum a todos, em todos os tempos. Quem a visitou não a esqueceu, quem não a conhece anseia por ela. Por isso talvez seja, para todos, um tema, além de atemporal, inesgotável.
A senhora sempre esteve ligada aos poemas – além de tradutora, é poeta –, mas foi publicada tardiamente. Qual o motivo dessa espera toda até a publicação de 2007? Faltou segurança e confiança com seus poemas ou somente um empurrão de alguém para mostrá-los?
Celina Portocarrero. Olha, sinceramente, acredito que tudo acontece no tempo em que deve ser, então não chamaria de “tardia” a publicação dos meus poemas. Publiquei-os quando estavam prontos. Antes, mais do que segurança ou confiança, faltavam poemas. Mas é claro que o incentivo de poetas consagrados, como Antonio Carlos Secchin, Affonso Romano de Sant’Anna e Reynaldo Valinho Alvarez foi decisivo e fundamental para essa publicação.
Há diferença entre traduzir, interpretar, ler um texto alheio e fazer o seu próprio texto?
Celina Portocarrero. As atividades que você cita são todas diferentes, embora estejamos sempre lidando com literatura e criação. O prazer de encontrar a solução adequada para trazer ao português um texto em outro idioma é bastante equivalente ao de encontrar a forma desejada para o nosso próprio texto. Pela minha experiência, uma maior convivência com a literatura, em todos os idiomas que conseguimos dominar, seja lendo, traduzindo ou escrevendo, só vem somar qualidade à prática de todas essas atividades. Não vejo, então, dificuldade de qualquer espécie, exceto, talvez, a de se conseguir tempo para exercê-las simultaneamente.
Quais escritores/poetas nacionais da atualidade a senhora destacaria?
Celina Portocarrero. Não destacaria porque estaria sendo injusta com os que não fossem citados.
 
Para finalizar, o que é amar?
Celina Portocarrero. Amar é encontrar sentido.
Leia um dos poemas que faz parte da coletânea:
Terraço
 
aqui te apresento
à vista mais bonita da cidade
 
os relógios da rua alternam
hora e temperatura
meus olhos flutuando
com a estranha certeza
de que você dobra a esquina
 
nunca se deve confiar
em quem nunca, nunca
se deve confiar em quem nunca
escreveu uma carta de amor
 
(Alice Sant'anna)
 
 
Recomendamos para você