Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 19.11.2010 19.11.2010

O projeto estético de Luiz Eduardo Soares

Por Felipe Pontes

Fotos de divulgação

O apartamento em São Conrado,bairro de classe alta do Rio de Janeiro, não fica virado para o mar, mas defundos, com vista privilegiada para a favela da Rocinha. Solícito, Luiz Eduardo Soaresatende em casa. Emendou uma entrevista atrás da outra. De uma sobre assuntosgerais, em especial o futebol, dada a um colega blogueiro da Polícia Federal,embarcou praticamente sem interrupção na conversa com o SaraivaConteúdo, dessavez sobre a sua trajetória política e literária. Pioneiro no estudo daspolíticas de segurança pública no Brasil, o antropólogo escreveu seis livros,entre eles o best-seller Elite da Tropa (Nova Fronteira) e, o mais recente, Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira) – ambos como co-autor.

Desde 1974, a ocupação principalde Soares é a pesquisa e o ensino em ciências sociais. Lecionou antropologia naUnicamp no início dos anos 1980 e durante 15 anos foi professor de ciênciapolítica no respeitado Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro(Iuperj). Hoje coordenada a especialização em segurança pública da UniversidadeEstácio de Sá e dá aulas na pós-graduação em direitos humanos e ciênciassociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mas na sala de estarforrada de livros, há quase nada de bibliografia teórica. A grande maioria dostítulos é de ficção, um vasto acervo de literatura nacional e estrangeira.

Uma das prateleiras, inclusive, édedicada aos romances gráficos, as histórias contadas em quadrinhos. “Oprimeiro artigo que eu publiquei nos anos setenta foi sobre a linguagem emquadrinhos – na época isso estava ligado a poema-processo, aos concretos, haviaum interesse na valorização de novas linguagens”, diz ele, que teve suaprimeira formação na área de letras e prepara para o início de 2011 o próximolivro, uma não-ficção sobre a trajetória de um famoso traficante internacionalde drogas, cujo respectivo graphic novel,desenhado pelo artista gráfico Marcus Wagner, será lançado no segundo semestredo ano que vem.

O segundo artigo publicado porSoares, ainda em 1974, foi sobre a criação de Asdrúbal trouxe o trombone, importante grupo de teatro de vanguardado qual fez parte. Fica evidente assim um traço característico de suacompetência como intelectual: ao mesmo tempo em que procura se envolver nalinha de frente de um pensamento prático-político realmente efetivo, se empenhacom a mesma desenvoltura no campo da cultura e da arte. 

Já comprovada por crítica epúblico a capacidade dos discursos tanto do livro (Elite da Tropa) quanto dofilme (Tropa de Elite) em despertar discussões para além do mero entretenimento,Soares nos expõe um projeto consciente de militância em um plano simbólico, deintenção artística e política. Desde o início ele se dispôs a construir umatetralogia da violência urbana, dedicada a matizar os estereótipos dosdiferentes personagens envolvidos nesse cenário através detestemunhos numa linguagem narrativa, a qual um público vasto fosse capaz de compreender,e vivenciar uma empatia com os dramas humanos descritos ali. “Veja que curioso,do ponto de vista de vários filósofos, psicólogos e estudiosos do fenômeno daética, o que constitui a moralidade como campo é a capacidade de deslocamentoimaginário para a posição do outro”, ensina Soares. Essa estratégia discursiva é oprincipal ponto de contato entre as obras audiovisual e escrita, já que emtermos de conteúdo, apesar de o Capitão Nascimento (Wagner Moura) ilustrar acapa do livro, os dois trazem tramas independentes.

Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira)tem como narrador um ex-delegado da Delegacia de Combate ao Crime Organizado daPolícia Civil, a Draco. Condenado por um acidente a permanecer em uma cadeirade rodas, ele encontra alívio para sua imobilização em escrever os casos deviolência operados pela milícia no Rio de Janeiro. Engana-se quem se precipitaem classificar o livro apenas como uma espécie pulp fiction de ação. Por meio atéde uma perfil no Twitter, o narrador denuncia o lado podre das polícias, talvez umareferência de Soares ao romance epistolar A Nova Heloisa (Unicamp), deRousseau, o qual ele fez questão de citar em nossa conversa como fundamental para o surgimento do que hojecompreendemos como direitos humanos.

Funcionando como um catalisador,Soares mobilizou uma série de personalidades um tanto diferentes em prol darealização de seu projeto estético-político. Começou em 2005 com Cabeça dePorco (Objetiva), escrito em co-autoria com MV Bill e Celso de Athayde, cujasvisitas a comunidades pobres de diferentes metrópoles brasileiras,entrevistando jovens cooptados pela vida criminosa, resultaram também no chocantedocumentário Falcão – meninos do tráfico (disponível na íntegra no YouTube). Partiu então para explorar o ponto devista do policial, lançando em 2006, ao lado dos policiais militares AndréBatista e Rodrigo Pimentel, o primeiro Elite da Tropa (Nova Fronteira). A seguir, explorou ouniverso do judiciário em Espírito Santo (Objetiva), escrito em parceria com ojuiz e ex-secretário de segurança capixaba Rodney Rocha Miranda em 2009. E saiu agora a pouco o Elite da Tropa 2, em que retoma a perspectiva dos agentes desegurança em situações ficcionais largamente inspiradas em acontecimentosverdadeiros.

Do “imperativo da militânciapolítica para a juventude consciente” durante a ditadura militar e da experiênciacomo ex-comunista, Soares herdou a gana de transformar o conhecimento adquiridonos laboratórios de ciências sociais em conseqüências éticas. Quando osgovernos de esquerda que sucederam o período autoritário se predispuseram aacolher ideias inovadoras, o antropólogo, que já desenvolvia um trabalho noNúcleo de Estudos da Violência do Instituto Social de Estudos da Religião e naONG Viva Rio, acabou convidado a redigir o plano de segurança pública dacampanha de Anthony Garotinho, candidato da coalizão de esquerda eleitogovernador do Rio de Janeiro em 1998. Considerado um dos responsáveis pelavitória, Soares foi nomeado Secretário de Segurança e teve a oportunidade depor em prática as ideias propostas no projeto, como o programa Delegacia Legal,uma tentativa de controlar a anarquia institucional vigente, e o Mutirão PelaPaz, predecessor das atuais UPP´s. Foi demitido do cargo em menos de dois anossob o pretexto banal de haver defendido o cineasta João Moreira Salles no casoda suposta mesada ao traficante Marcinho VP. Logo depois o ex-deputado estadualÁlvaro Lins foi nomeado chefe da Polícia Civil, abrindo espaço para a chamada“banda podre”. Em agosto deste ano, Lins e Garotinho foram condenados pelaJustiça Federal por formação de quadrilha e corrupção passiva.

No mesmo dia de sua demissão,Luiz Eduardo Soares foi acolhido pelo programa de estudos internacionais daFundação Ford e se exilou voluntariamente nos Estados Unidos como professorconvidado da Columbia University. Lá, escreveu Meu casaco de general (Companhiadas Letras), livro que inaugura sua trajetória literária focada na violência,uma avaliação em primeira pessoa sobre os acertos, dificuldades e alternativaspara a ainda necessária reforma policial. O próprio antropólogo considera olivro um dos primeiros no Brasil exclusivamente dedicado a discutir não uma espéciede sociologia da violência, mas a expressão “política de segurança pública”como um tema em si.

Quando um chamado ‘bonde’ detraficantes fortemente armados, que retornavam de uma festa no Vidigal para aRocinha, acabou se confrontando com a polícia nas ruas de São Conrado em plenamanhã de sábado de 21 de agosto deste ano, resultando na invasão do hotelIntercontinental, Luiz Eduardo Soares foi o homem que relatou o que acontecia, praticamenteem frente ao condomínio onde mora, no calor da hora, ao vivo pela rádio CBN. Oepisódio serve para ilustrar a posição de referência do antropólogo quando sefala em violência urbana. Nos trechos da entrevista ao SaraivaConteúdo transcritos abaixo ele conta sobre o surgimento dos dois Elite da Tropa e nosdá uma aula sobre as verdadeiras intenções de sua obra literária.

 

Como você acabou se dedicandomais a literatura?

Luiz Eduardo Soares. Eu souprofessor universitário há 35 anos na área de antropologia e ciência política.Mas eu me formei em literatura na graduação, então sempre mantive um interessegrande e uma proximidade com amigos dessa área, com a produção, e sempreacompanhei a crítica literária. Isso sempre esteve presente. Em 1996 eu escrevium romance, chamado Experimento de Avelar (Relume Dumara). Depois, nos anos 2000, eu comecei a ter a oportunidade deexperimentar a combinação da minha formação acadêmica com esse interesse poroutras linguagens, e acho que isso que foi importante para mim.  Eu me aproximei do tema segurança pública eviolência nos anos oitenta, porque era já um tema muito importante no Rio ehavia não muita gente envolvida nisso. Isso como pesquisador, estudioso,escrevendo sobre o assunto e etc., o que acabou me levando para o governo,primeiro como consultor, depois até assumindo responsabilidade de gestão. Umcaminho mais ou menos natural.

Quandoeu tive a oportunidade de mergulhar na prática da gestão e atuar por dentro dosbastidores, e como tive a vida inteira o olhar de pesquisador, de observador,assim como o interesse em escrever usando outras linguagens além da acadêmica,houve essa confluência. Eu tomei a minha experiência nos governos, assim comotomava antes as pesquisas, como base para a elaboração de trabalhos e aícomeçam esses textos que me aproximam de outras linguagens.

Como você conheceu os colaboradores de Eliteda Tropa 2?

Soares. Os primeiros que eu conheci foramo Rodrigo Pimentel e o Cláudio Ferraz. Quando eu estava no governo em 1999,convidei o Cláudio para dirigir a reforma da perícia e nos tornamos ali amigos.O Pimentel se tornou um personagem público através do documentário Notícias de uma guerra particular (JoãoMoreira Salles, 1999). Ele se destacava ali e o que ele disse deu nome ao filmee abriu perspectiva de um certo tipo de entendimento. Ele é um sujeito muitointeligente e muito corajoso. E depois que falou com o João, nunca parou defalar e colecionava punições. Ele não queria ir muito longe na carreira porquenão estava disposto a negociar sua liberdade e não aceitava a censura. Porisso, volta e meia era preso. Quando fui para o governo em 1999 ele deu umaentrevista de página inteira ao Jornal do Brasil me criticando e criticando apolítica de segurança pública. Quando eu li, pensei “puxa, esse rapaz ésensacional”. Porque o problema não é concordar ou discordar. O problema édiscutir com inteligência, mostrar interesse por aquilo e ser capaz dedialogar. Isso é extraordinário. Se todos os policiais fizessem esse esforço dereflexão e crítica, estaríamos num outro mundo. Isso á maravilhoso. Ele foipreso. Naquela mesma noite falei com o comandante geral da PM que eu queria queele não só fosse libertado como viesse trabalhar comigo, eu ia convidá-lo.Entre a cela e coordenadoria, ele topou e nos tornamos amigos.

Como surgiu a ideia de escrever oElite da Tropa?

Soares. Surgiu em 2002, no projeto da tetralogia.O primeiro seria fazer o mergulho com Celso [de Athayde] e [MV] Bill, o Cabeçade Porco (Nova Fronteira), e o segundo no universo da polícia, do BOPE e tal.Lançamos o Cabeça em 2005 e tive que começar logo o outro. Liguei para oPimentel e falei “vamos fazer?”, e ele sugeriu o Batista também. Eu conhecia oBatista de fato desde 2002. Ele já era do BOPE e trabalhava na segurança pessoaldo secretário [de segurança]. O encontrei várias vezes, uma pessoa simpática,tinha ótimas informações e tive uma boa impressão sobre ele. E o Pimentel falou“chama o Batista também, porque está querendo nos ajudar no filme que o Padilhaestá querendo fazer, não um documentário como pensou de início, mas uma ficçãocom base documental sobre a policia. O Padilha está chamando o Batista tambémporque ele tem uma história pessoal incrível”, e tal. Fomos almoçar com o Zé[Padilha] e ele já estava trabalhando na primeira versão do roteiro e já tinha onome Tropa de Elite, aí eu falei do meu projeto e disse “bom, vamos fazer, asfontes podem ser as mesmas, isso pode ficar interessante e o nome vai ser Eliteda Tropa, vamos citar, vamos fazer dessa maneira, mas com autonomia”. O projetoque eu apresentei à editora Objetiva em 2002 previa justamente isso, outrolivro comigo e mais duas pessoas, envolvidas no universo em questão, comoautores. Então nasceu assim, desse projeto de 2002 e dessa relação antiga com oPimentel, como contei.

E como se deu esse processo decriação coletivo?

Soares. Em nenhum caso eu analisaria osoutros dois, ou agiria como um intelectual que estuda o relato dos outros dois,não seria essa a relação. No Cabeça de Porco, por exemplo, cada um de nósassina seus próprios capítulos e eu não analiso nenhum deles, nós dialogamos,trocamos ideias mesmo, é um livro composto, um mosaico. No Elite da Tropa, amesma coisa, eu escreveria todo o livro, mas faríamos esse mergulho numaperspectiva narrativa e as histórias viriam de nós três, de fato as nossasvivências. E ali é muito claro, as vivências, depoimentos, coleta dedepoimentos dos dois [Batista e Pimentel] estão lá na primeira parte. A minhahistória, o meu depoimento ficcionalizado, está na segunda parte, mesmo que euescrevesse todo o livro, porque ali a metodologia teve que ser diferente.

Então desde sempre a ideia foifazer livros de ficção?

Soares. Não, nossa ideia era contar averdade, a realidade daquilo que havíamos vivido, porque nós achávamos que a populaçãode uma forma geral não tem a menor ideia do que acontece realmente. E nisso aarte cumpre papel crucial. Segundo o filósofo já falecido Richard Rorty, meumestre no pós-doutorado que fiz nos Estados Unidos e dono da citação na epígrafede Elite da Tropa 2, nós  precisamos hojenão mais de tratados filosóficos, como no século XVIII, para demonstrar asuperioridade da paz em relação à guerra. Nós precisamos de jornalismo,reportagem, etnografia, romance, literatura, cinema e documentário, precisamos,em suma, das narrativas. Porque é preciso relatar experiências de tal modo quea empatia possa ser vivenciada. Isso é muito mais forte do ponto de vista daefetividade do que o puro esforço reflexivo racional. Se você der a alguém umtratado filosófico kantiano mostrando a superioridade da paz perpétua, vocêpode eventualmente persuadir dois ou três. Da persuasão à emoção, que conduz àprática, há intervalos e brechas e hesitações, e dificilmente você irá além douniverso dos filósofos, das pessoas capazes de decodificar aquela linguagemparticular. Mas se você apresentar uma narrativa tendo um indivíduo comoreferência – seja lá qual for o tema, um tsunami, a peste bubônica, a pena demorte –, a capacidade que o texto terá de chegar à prática do outro, passandopela sua persuasão e suas emoções, conduzindo-o a uma nova ética, uma novaação, serão muito maiores, as chances serão muito maiores de você ser muitomais efetivo.

Se você contauma história de vida individual, gerando condições, pela narrativa, de trazer oleitor para as emoções vivenciadas pelo locutor, pelo narrador, pelopersonagem, aí você abre uma outra ponte existencial, psicológica, simbólicaextraordinariamente mais forte. Eu acredito nisso. Não falo isso parasubestimar o trabalho acadêmico, que é insubstituível, evidentemente, mas parajustificar a necessidade de uma abordagem que amplie, que crie, que trabalhecom outras linguagens e perspectivas. 

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