Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.05.2012 23.05.2012

O prazer da leitura: como ler pode ajudar no autoconhecimento

Por Luma Pereira
 
“O que as criaturas querem é encorajamento”, leu o paciente, em Pollyanna, de Eleanor H. Porter. Em seguida, ficou pensativo e sorriu. Além de nos ensinar e divertir, a leitura tem outra função: pode ser coadjuvante no tratamento de doenças físicas e psicológicas.

É a biblioterapia, tratamento realizado por meio dos livros. “O método ajuda no processo de cura física e mental em qualquer faixa etária”, explica Geyse de Carvalho, que escreveu um trabalho sobre o assunto.

 
Pollyanna já ajudou muito um dos pacientes da biblioterapeuta Eva Seitz. Ela conta que o jovem ficou internado na UTI por 16 dias e, em seguida, foi transferido para uma clínica de adultos.
 
Ele ficou deprimido por estar longe dos amigos e da família e, então, Eva pediu para que ele lesse o livro de Porter. E foi ótimo: cada trecho tinha algo a dizer ao garoto, que se sentiu melhor quando chegou à última página.
 
“Após a leitura, nos sentamos para conversar e juntos nós fizemos o ‘Jogo do Contente’ [ver o lado bom de tudo que acontece], o centro a história”, diz a biblioterapeuta.
 
Quando o rapaz recebeu alta, Eva conta que ele a procurou para agradecer e disse: “O ‘Jogo do Contente’ foi o que me ajudou a me manter aqui menos ansioso e triste, e vou levar isso para sempre comigo”, recorda-se ela.
 
Mas esse tipo de tratamento não é novidade. Há relatos de que existe desde a Antiguidade. No início, as pessoas liam histórias que entretinham a todos, para ocupar o tempo ocioso. “Até que um dia esse uso foi identificado como instrumento terapêutico”, afirma Geyse.
 
No antigo Egito, as bibliotecas eram chamadas de “Remédios para a alma”, e, na Grécia, de “Medicina da alma”. A partir do século XX, a técnica passou a ser desenvolvida nos Estados Unidos, chegando ao Brasil na década de 1970.
 
A Universidade Federal do Ceará foi a primeira a disponibilizar, no curso de Biblioteconomia, o ensino da terapia por meio dos livros. “Hoje a biblioterapia possui vários campos de aplicação: hospitais, escolas, presídios, asilos, etc”, diz Eva.

 
Doses de leitura
 
A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, é outro clássico da literatura infantojuvenil utilizado no tratamento biblioterapêutico, para ajudar pacientes e acompanhantes a deixar os problemas em casa.
 
É a história de uma garota que entra em conflito com os amigos e com a família por reprimir três de seus desejos, que ela guarda na bolsa amarela: a vontade de crescer logo, de ser garoto e de se tornar escritora.
 
“Pedimos que os pacientes coloquem seus problemas na ‘bolsa amarela’ – em algumas situações, confeccionamos pequenas bolsas e entregamos a eles”, conta Eva. Afinal, quem não tem alguma questão para colocar ali?
 
A técnica pode ser aplicada de forma coletiva ou individual. Pacientes com dificuldades semelhantes são colocados em grupo e é traçado um perfil – idade, escolaridade, estado civil. Em seguida, ocorre a seleção do conto ou fábula que será utilizado.
“O encontro individual ocorre, em especial, quando o paciente não pode sair do leito”, afirma a biblioterapeuta.
“É bom frisar que a biblioterapia não significa apenas ler/contar/dramatizar histórias. Ela implica no diálogo posterior à leitura, uma conversa informal alavancada pela narrativa”, garante Clarice Fortkamp, autora de Biblioterapia: Um Cuidado com o Ser.
 
“Na conversa biblioterapêutica, o texto dá condições para os comentários e interpretações, que permitem a existência da alteridade e da criação de novos sentidos”, explica Geyse.
 
Outra obra literária bastante utilizada nesse tipo de tratamento é O Cavaleiro Preso na Armadura, de Robert Fischer. “A fábula mostra a importância da busca do autoconhecimento”, diz Eva.
 
 
E completa: “Nossos sofrimentos são consequências das ‘armaduras’ que colocamos em determinado ponto de nossas vidas e acreditamos que fazem parte de nós”.
 
Outra paciente dela, com leucemia, também recebeu o tratamento biblioterápico e obteve sucesso. “Os momentos que passei lendo e conversando sobre a leitura me ajudaram a permanecer aqui e lutar pela minha vida”, recorda-se Eva do depoimento.
 
Uma situação especial que viveu foi de uma acompanhante que estava com o pai em fase terminal e, após ouvir a fábula Tudo Passa – que diz que tudo na vida é passageiro –, a abraçou e falou: “Obrigada, isso era tudo de que eu precisava”, descreve ela.
 
Palavras de cura
 
Qualquer pessoa pode aplicar a biblioterapia, desde que goste de ler e ajudar o próximo. É diferente da técnica utilizada por psicólogos, que criam ou escolhem histórias de acordo com as necessidades de cada paciente – o atendimento é personalizado.
 
Para Geyse, existem vários paradoxos em relação a isso. “O ideal é que se tenha o apoio de profissionais capacitados. Algumas vezes, é preciso a participação de psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, médicos e enfermeiros”, afirma ela.
 
Qualquer pessoa pode receber o tratamento biblioterápico, principalmente presidiários, adolescentes, crianças e idosos. “Alguns dos objetivos da Biblioterapia com os idosos é o reajustamento ocupacional da velhice, socialização e remotivação”, explica Eva.
 
O tratamento ajuda cada indivíduo em particular. “É necessário ter clareza de que a técnica não cura a doença, ela auxilia o paciente a entender e aceitar a sua doença. Se você está emocionalmente bem, sua imunidade melhora”, comenta a biblioterapeuta.
 
“A experiência tem mostrado que a biblioterapia funciona, pois em todos os locais que a executamos, somos exortados a voltar”, diz Clarice, que também é professora do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Santa Catarina.
 
É como leu, certa vez, um paciente de Eva: “O que as criaturas querem é encorajamento”. E parte disso conseguem por meio da leitura, da terapia que vem dos livros.
 
 
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