Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.03.2011 16.03.2011

O papo definitivo com Millôr Fernandes

Por Bruno Dorigatti
Foto de Ivan Pinheiro Machado


Millôr Fernandes dispensa apresentações, mas nunca é demais lembrar que ojornalista, cartunista, filósofo, poeta e tradutor é autor de mais de 30livros, 20 peças de teatro, tradutor de outras 56 peças (de nomes comoShakespeare, Molière, Brecht e Tchecov, Pirandello e Arthur Miller), além de tersido um dos criadores do frescobol.

No jornalismo, começou na revista OCruzeiro, onde criou o Pif Paf,primeiro como uma página na publicação, depois como publicação independente,que durou apenas oito números. Escreveu também no Correio da Manhã, VejaO Pasquim, IstoÉJornal do BrasilO DiaFolha de São Paulo, entreoutras publicações da chamada grande imprensa.

Em fevereiro, Millôr foi internado na Clínica São Vicente, na Gávea, zonaSul do Rio de Janeiro, mas já deixou a UTI. A família não autorizou a clínica ase pronunciar sobre seu estado de saúde. No mesmo mês, a L&PM lançou A entrevista,fruto de uma longa conversa com ele, realizada nos anos 1980 pelos então jovenseditores da revista Oitenta (publicada na época pela L&PMem formato de livro, e que teve nove números), Ivan Pinheiro Machado, JoséAntonio Pinheiro Machado, José Onofre e Paulo Lima. Nas sete horas de papo,Millôr falou sobre sua trajetória, imprensa, religião, o ofício do escritor, literatura, política, entreoutros assuntos. Na abertura do livro, um recado de Millôr, também de fevereiro desteano: “Antigamente,e parece que foi antes de ontem, não era entrevista. Era papo. Conversa entreamigos. Conversa entre gaúchos. Sim, eu também era um pouco gaúcho, de tanto ira Porto Alegre. E não vou provar isso em palavras. Provo em imagem que, como ládiz o outro, vale mil palavras. vê aí”. E então se segue a foto do carioca do Méiertrajado de bombacha e toda a indumentária gauchesca.

Na apresentação, Ivan Pinheiro Machado recorda: “Millôrestava numa noite de confissões. Favorecido pelo clima fraternal que reinava nopequeno, mas confortável apartamento próximo à praça da Matriz, no centro históricode Porto Alegre, ele falou sobre sua infância, sua paixão pela profissão, sobre ditadura, psicanálise, mulheres, amigos, ética e muitos outros assuntos. Passaram-sequase 30 anos e Millôr confirma a impressão que tínhamos – de que foi uma dasmelhores entre as milhares de entrevistas que ele deu.”

Ultimamente, o autor vinha se esquivando de conceder entrevistas, sempre que possível. Recusava-se dizendo que já havia dito tudo que pudessedizer, no mais que procurassem na sua vasta obra. E com razão. Atender a gentemal, pouco ou nada preparada realmente tira a paciência de qualquer um. Por isso,o papo, como preferia Millôr começa assim: “Eu quero fazer um pequeno introito a estaentrevista absolutamente sincero: não gostaria de estar dando esta entrevista.Estou porque gosto muito fraternalmente – como não posso dizer fraternalmente porcausa da idade, eu costumo dizer fra-paternalmente – do Lima e do Ivan. Porosmose comecei a gostar dos outros. Eu só não digo que estou começando a ficargaúcho porque não tenho rebolado gaúcho. Agora – nada, na minha estrutura, soi disant intelectual, com todas asaspas, me conduz a dar uma entrevista a sério, sobretudo a pessoas altamente respeitáveiscomo vocês. Quero que fique gravado nesta entrevista: realmente, eu não me levoa sério. Mas na proporção em que o tempo passa, a idade avança, as pessoas vãote levando insuportavelmente a sério, e você acaba assumindo um mínimo disso”.

E é incrível – ou, talvez, nem tanto – como certostemas ou assuntos estão longe de serem datados. Sobre a imprensa, por exemplo: “Aimprensa brasileira sempre foi canalha. Se fosse um pouco melhor poderia teruma influência maravilhosa sobre o país”; ou sobre a necessidade que um paístem de seus heróis: “E chega de heróis. O homem tem que se convencer de que omais importante de tudo é o dia-a-dia”. Por estes e outro momentos, é leituraindispensável para entender o Brasil do século passado, quando ainda vivíamossob o jugo de uma ditadura decadente, porém ainda ditadura. E para conhecer um pouco mais profundamente um dos poucos e verdadeiros gênios (palavra gasta, de tanto que vem sendo utilizada ultimamente) que este país produziu. 

> Leia o trecho inicial do livro

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