Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 28.10.2011 28.10.2011

O Palhaço retrata, no meio circense, questões universais da vida

Por Luma Pereira
 
“Eu faço o povo rir, mas quem é que vai me fazer rir?”. Esse questionamento ilustra o dilema de Benjamin, interpretado por Selton Mello em O Palhaço. Por trás da maquiagem característica e alegre – o rosto branco, os detalhes em preto debaixo dos olhos e o nariz vermelho – há uma personagem melancólica.
 
Benjamin e Valdemar, vivido por Paulo José, são os palhaços Pangaré e Puro Sangue, donos da trupe do “Circo Esperança”. Aquela vida itinerante, porém, perde a graça para o protagonista, que parte em busca de novas aventuras.
 
É o segundo longa dirigido por Selton Mello, depois de Feliz Natal, e o tema principal é a busca pela identidade. “Esse dilema é caro a todo mundo, por isso a história tem chegado ao público”, ele explica.
 
 
 
Selton escolheu o universo circense para representar isso, pois era “mais cinematográfico”. “Além disso, era mais lúdico, colocava em discussão no terreno da imaginação, no terreno da fantasia”, completa.
 
E o palhaço o que é?
 
A preparação para viver Pangaré e Puro Sangue foi longa. Alessandra Brantes, pesquisadora do tema, indicou livros e profissionais da área com os quais Selton deveria ter contato. “Depois o desafio foi deixar isso de lado para criar algo próprio”, conta.
 
O diretor queria que o público gostasse da produção e também que as pessoas do universo circense notassem o cuidadoso trabalho de pesquisa realizado. “O objetivo era: quem não é de circo, curtir, e quem é desse meio, pensar ‘legal, pesquisaram mesmo’”, diz.
 
Selton também teve o auxílio do palhaço Kuxixo – o “personal palhacetor”, no termo utilizado pelo elenco – considerado um dos maiores palhaços do Brasil, que forneceu a ele técnicas sobre como ser clown, permitindo ao ator construir e viver o protagonista Pangaré.
 
Entretanto, o ator afirma que não tem talento para a profissão de Benjamin. “Sou um palhaço que funciona no cinema, onde tem a montagem e o texto. É dificílimo ser palhaço, é uma arte nobre”, esclarece.
 
Selton Mello atrás das câmeras nas filmagens de O Palhaço
 
Para realizar o longa, Selton não se lembrou apenas de produções clássicas do cinema, como os filmes de Fellini e de Chaplin. Também se inspirou numa personagem de humor brasileira: o Didi Mocó, interpretado por Renato Aragão, em Os Trapalhões, que costumava assistir na infância. “É um humor direto no coração, sem firulas”, comenta.
 
“O filme causa um encantamento e uma elevação do espírito de quem vê. A sensação que eu tenho é que estava faltando um filme assim no cenário brasileiro”, afirma. Com o intuito de sair dos temas recorrentes nas produções brasileiras – violência, dureza e cinismo – o diretor quis mostrar o sonho e a delicadeza.
 
“Para mim, a base do cinema é essa capacidade de fazer sonhar”, conta. Selton afirma que desejava fazer um filme “popular e refinado cinematograficamente”. “Tudo o que acontece no filme é subentendido e todo mundo entende”, diz. E completa: “Quero que o longa seja bastante visto e quebre o paradigma do que é cinema popular”.
 
Marcelo Hesse, crítico de cinema, afirma que o longa foi bem realizado dentro dos limites que ele propõe. “Selton faz um filme popular, com uma narrativa que estimula o espectador a entender e preencher as lacunas da história”, diz.
 
Respeitável elenco
 
A maior parte das filmagens foi realizada em Paulínia, no interior de São Paulo, e as partes em que aparecia o picadeiro foram feitas dentro do estúdio. As paisagens paulistas, porém, não agradaram o diretor, que preferiu rodar o filme em Minas Gerais. “Foi lá que eu encontrei vales, geografias mais ricas”, comenta.
 
Outro objetivo das gravações era não datar a época em que se passa a história, “não dizer que tempo é esse”. Os valores em dinheiro não são classificados como “cruzeiro” ou “real”. Tudo isso para enfatizar a universalidade do tema: “o que está passando no coração dessa personagem não tem época para acontecer”, afirma.
 
O elenco conta com atores como Paulo José, Erom Cordeiros, Danton Mello, Luiz Alves Pereira Neto, o “Ferrugem”, e Giselle Motta. No papel de Lola, a atriz, dançarina e formada pelo circo pôde mostrar um pouco de seu trabalho no universo do cinema. “Você acredita que aquela trupe existe”, comenta o diretor.
 
Selton e o ator Paulo José em cena do filme
 
“Antes de ir para o set, tivemos um treinamento de números circenses. A minha personagem, especificamente, precisava ser desafiadora e destemida, então tive ensaios com a espada”, relata Giselle.
 
Selton define o filme como uma “onda boa”, que começou desde a ideia até a escalação do elenco e da equipe. “As pessoas que atuaram nesse filme amaram ter feito esse longa, foi uma coisa muito afetuosa, uma grande homenagem à profissão”, enfatiza.
 
Além disso, a produção contou com a atuação de Moacyr Franco, cuja marcante participação no filme lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante no Paulínia Festival de Cinema, em julho deste ano. Selton Mello também saiu vitorioso como melhor diretor.
 
Outra personagem importante para a produção é Guilhermina, interpretada por Larissa Manoela, atriz de 10 anos de idade. “Ela é a testemunha ocular da história – sabe tudo, vê tudo, está acompanhando tudo”, comenta.
 
A personagem representa a ingenuidade e a pureza da infância, e é através dos olhos dela que os espectadores percebem a atmosfera de magia e lirismo que há em O Palhaço, em Benjamin e no “Circo Esperança”, criado por de Selton Mello.
 
Confira o trailer do filme:
 
 
 
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