Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 05.02.2013 05.02.2013

O nascimento do samba e do carnaval na cidade de São Paulo

Por Felipe Candido
 
O Brasil é o país do samba. Porém, alguns estados ou cidades acabam se destacando no ritmo, em detrimento de outros. Rio de Janeiro e Bahia, por exemplo, sempre lutaram pela alcunha de “berço do samba”. No meio dessa disputa, São Paulo acabou ficando de fora das principais referências quando o assunto é o ritmo mais tradicional do país. Porém, por terras paulistanas, sempre existiu samba, e da melhor qualidade!
 
Durante três anos, o geógrafo Alessandro Dozena pesquisou como nasceu e se desenvolveu o ritmo na capital paulista. O resultado dessa pesquisa é o livro A Geografia do Samba na Cidade de São Paulo. Nesta entrevista, Alessandro conta como o samba ultrapassa os limites da festa e se torna fator social no desenvolvimento da cidade de São Paulo.
 
Como surgiu a ideia de escrever o livro?
 
Alessandro Dozena. A ideia surgiu a partir da constatação de que, principalmente após a década de 1990, a cidade de São Paulo tem passado por uma “onda revitalizadora”, configurada por movimentos de samba que buscam resgatar as “raízes” do gênero e propiciar um reencontro com os sambistas do passado, que deixaram sua contribuição em músicas muitas vezes ainda desconhecidas pelos próprios sambistas atuais.
 
Como foi o processo de pesquisa?
 
Alessandro. A pesquisa se baseou no levantamento bibliográfico e documental acumulado ao longo de três anos, no trabalho de campo e nas entrevistas. 
 
Busquei primeiramente examinar o conjunto dos aspectos gerais do samba na cidade de São Paulo, bem como algumas opiniões e interesses existentes na população frequentadora do “mundo do samba”. Ao mesmo tempo, procurei agrupar os entrevistados em segmentos de acordo com termos que eles mesmos empregam.
 
O que era o Largo da Banana, e que importância ele teve na história do samba em São Paulo?
 
Alessandro. O Largo da Banana existiu na Barra Funda, nas adjacências de onde hoje se situa o Memorial da América Latina. Com o advento do “progresso”, o Largo da Banana foi ocupado pelo Viaduto Pacaembu.
 
Ainda que o Largo da Banana não mais exista, é palco de manifestações associadas ao samba. É ali um dos locais onde se realiza o desfile dos blocos carnavalescos afiliados à Associação das Bandas, Blocos e Cordões Carnavalescos do Município de São Paulo. 
 
O autor Alessandro Dozena
 
Como se desenvolveu o carnaval em São Paulo?
 
Alessandro. As escolas de samba foram instituídas a partir da incorporação da organização europeia dos desfiles carnavalescos, representados notadamente pelos corsos. Junto com esta adaptação negociada, deu-se a amplificação do reconhecimento social do samba.
 
O samba permeou historicamente muitas relações sociais, tendo sido, da mesma forma, por elas moldado. Assim, as escolas de samba surgiram contendo uma função social voltada à expressão das tradições musicais afro-brasileiras, em uma sociedade que não possibilitava grandes oportunidades aos negros.
 
No caso do carnaval paulistano, até as primeiras décadas do séc. XX, encontrava-se abalizado no modelo de corsos. Vale lembrar que os negros e os brancos pobres apenas assistiam aos desfiles à distância. Foi nesse contexto de incerteza e de dificuldade de inserção social que surgiram as primeiras escolas de samba, assim como se configuraram as religiões da umbanda e do candomblé.
 
Vale lembrar que essas manifestações culturais contribuíram para a legitimação da prática cultural dos negros junto à sociedade brasileira. 
 
Como se deu a divisão territorial do samba na cidade de São Paulo? 
 
Alessandro. O crescimento acelerado da cidade de São Paulo, ocorrido principalmente a partir da década de 1950, foi acompanhado por um processo de urbanização caótica em sua periferia, como também pela dispersão do samba para as áreas distantes do centro antigo. 
 
Em primeiro período, abrangeu os distritos que inicialmente apresentaram a presença do samba na cidade de São Paulo: Barra Funda, Bela Vista, Brás, Cambuci, Lapa, Liberdade e Santa Cecília.
 
Em um segundo período, o samba se irradiou para os distritos situados além do Rio Tietê: Casa Verde, Freguesia do Ó, Santana e Vila Maria. 
 
                                                                                                                            Crédito/Alessandro Dozena
 "A cidade de São Paulo tem passado por uma “onda revitalizadora”, configurada por movimentos de samba que buscam resgatar as 'raízes' do gênero" conta Alessandro
 
Por que você acha que Vinícius de Moraes afirmou que São Paulo é o túmulo do samba?
 
Alessandro. A alcunha chistosa de “túmulo do samba” dada a São Paulo, imputada a Vinícius de Moraes apontava ironicamente a vocação da cidade para o trabalho, em oposição à realidade dionisíaca do Rio de Janeiro, que seria o “berço do samba nacional”. 
 
A afirmação sobre São Paulo ser o “túmulo do samba” e a “terra do trabalho” tornou-se popularizada pelo senso comum, fazendo com que vários compositores buscassem resgatar a importância do carnaval e do samba aqui realizados.
 
Resta dizer que a circulação de sambistas e carnavalescos entre São Paulo e Rio de Janeiro sempre foi intensa, gerando muitas parcerias musicais e influências recíprocas. 
 
SERVIÇO
 
Lançamento do livro O nascimento do samba e do carnaval na cidade de São Paulo
Quando: 06/02, quarta-feira, 19h30
Onde: Loja Saraiva do Shopping Ibirapuera, São Paulo
 
 
 
 
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