Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 27.04.2010 27.04.2010

O mundo infinito de Hermeto Pascoal

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Ra
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> Assista à entrevista exclusiva de Hermeto Pascoal ao SaraivaConteúdo 

De Alagoas para mundo, Hermeto Pascoal rodou um bocado,entre Recife e Caruaru, Rio de Janeiro e São Paulo, Estados Unidos e Suíça,Bangu e Curitiba, onde mora atualmente. “Eu considero todos esses lugares aminha terra, né? Onde eu estou, estou bem. Estou feliz com todo mundo. Minhapreferência é onde estou. Posso voltar para onde estava, que também estou bem.Tudo são conseqüências da vida.” 

O bruxo multiinstrumentista, que toca flauta, piano e saxcom a mesma versatilidade com que tira sons de chaleiras, brinquedos, brocas dedentista e da própria barba, já compôs mais de 4 mil músicas. Nascido em 1936, em Olho d’Água, e criado em Lagoada Canoa, na época município de Arapiraca, no interior alagoano, Hermeto desdemoleque já demonstrava o fascínio pela música, a sua linguagem de contato com omundo. Reza a lenda que ainda criança fazia pífanos com cano de mamona dejerimum (conhecida no Sul e Sudeste como abóbora) e tocava para ospassarinhos. Na lagoa, passava horas tocando com a água. Com o material quesobrava do trabalho de ferreiro de seu avô, tirava sons ao pendurá-los novaral. 

O improviso é o mote de Hermeto Pascoal, que tocou comalguns dos nossos grandes instrumentistas, como o flautista Copinha, além daturma com quem formou o Quarteto Novo, em meados dos anos 1960, Heraldo do Monte, Théo deBarros e Airto Moreira.

NosEstados Unidos, levado por Airto Moreira para gravar, em 1969, conheceu egravou com Miles Davis. Tornou-se conhecido ao redor do planeta depois da histórica apresentação no Festival de Montreux, em 1979. E no ano seguintegravou um de seus principais trabalhos, CérebroMagnético, entre as dezenas de registros que têm, seja participando emtrabalhos de outros músicos, no começo da carreira, com as várias formações quejá o acompanharam, sozinho, como em 1999, quando lançou Eu e eles, e em duo, pela primeira vez, com a nova companheira,Aline Morena, com quem gravou Chimarrãocom rapadura em 2006, que resultou em seu primeiro DVD

Omúsico, que mora atualmente em Curitiba, esteve no Rio de Janeiro em meados deabril, para uma apresentação no Copacabana Palace, dentro do CopaFest, eventoque reuniu em um fim de semana músicos instrumentais como Marcos Valle e CesarCamargo Mariano. Hermeto (pronuncia-se Herméto, com o acento agudo no segundo“e”, e não “Hermêto”, como costuma ser chamado no Sul-Sudeste, ensinou certavez Tom Zé, em um festival em que ambos participaram, em Itajaí, no final doséculo passado) apresentou-se no primeiro dia, e pouco antes de subir ao palcoconcedeu esta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.“Deus fez a cabeça da gente como um mundo infinito. E, através daenergia, que não fica na cabeça, mas paira em volta, faz funcionar todas aspartes do aparelho, pois nós somos aparelhos”, acredita. Há os que dizem que opapo acima é de um religioso, como já afirmaram ao próprio músico. “Não, eu soumúsico. E, através da música, tenho todas estas percepções. Sou um músico muitointuitivo. Respeito demais a minha intuição, que vem em primeiro lugar. Nãoponho o saber, mas o sentir na frente de todas as coisas que faço na vida”,afirma. 

Para ele, o bom é evitar o máximo de premeditação, bolar ascoisas. Escritas, Hermeto tem mais de 4 mil músicas, o que poderia sercontraditório ao seu discurso. “Não rapaz, eu tenho inspiração e escrevo. Eunão bolei aquela música para escrever. Não faço uma coisa antes, um esquemapara compor. Posso compor aqui, onde eu estiver posso fazer uma composição. Olindo disso tudo é ver que estou sempre preparado para o não-esperado.” Sepreparar, para o bruxo, é tocar bem um instrumento, para, quando tiver umaidéia, conseguir executá-la. “É como a pintura – me meto a pintar também –, vaivindo uma idéia, e outra idéia e outra. E elas vão acontecendo, como na música.Só que tenho que saber mexer com o instrumento, assim como tenho que sabermexer com a pena. O negócio é não se complicar”, resume, parecendo até simplescompor com o refinamento com que compõe. 

Inegável que Hermeto tenha um ouvido privilegiado. Mas asintervenções do cotidiano, esse ouvir demais pode chegar a ser perturbador, porexemplo? “É o contrário, eu consigo me integrar com isso. Por exemplo, estou noônibus, aí tenho a idéia de uma música. Se não tenho papel e caneta, voucantando aquela música, escutando aqueles sons que acontecem, da rua, do carro,e aquilo ali já vai fazendo parte da minha vida. Nada me atrapalha, a não sermúsica ruim.” Para ilustrar, Hermeto Pascoal fala da empreitada que seria lunáticapara muitos – mas não para ele –, que resultou no livro Calendáriodo som (Senac-SP/Itaú Cultural, 2000), quando compôs uma música pordia, durante um ano. “Me lembro que estava escrevendo um dia, e tinha umareforma lá perto de casa, os caras batendo com o martelo, ainda naquela fase dequebrar as paredes. Se não tivesse essa experiência [de incorporar o cotidianoem suas criações], ia parar de escrever, por conta do barulho lá, dandocacetada. Só que aquele barulho, para mim, foi primordial para fazer acomposição, já que eu não bolo nada. Veja bem, se eu tivesse bolado um jeito decompor e tudo, aí ia me atrapalhar. Como eu não bolo…” 

Hermeto compara com as entrevistas que dá e as fotos quetira. Ele não gosta de ser dirigido em uma foto, “vira o rosto, senta aqui,olha pra lá”… “Isso é como você fazer música preso”, diz ele. Tem que ficar avontade e tirar a foto, afirma ele, assim como para fazer a música. “O queparece uma coisa irresponsável, mas não é. É liberdade. Uma liberdade que, nósmúsicos, conquistamos, para poder passar para o público. A razão da vida dagente é o público.” Segundo ele, dar esta entrevista não é diferente de estartocando no palco ou viajando no ônibus. Tudo é uma coisa só, tem uma mesmafinalidade: a música. E tudo motiva Hermeto a fazê-la. “Tudo”, ele faz questãode reforçar. “Não gosto de generalizar, mas nesse caso acho que não tem…”, einterrompe a frase para novamente exemplificar com outro momento da época dascomposições diárias. 

“Quando minha mãe faleceu, fui para o enterro. O que é umaalegria. Porque a pessoa morreu, é ruim, mas ela vai voltar para a sua casa. Acasa da gente é lá, espiritual. Aí fui para o enterro, todo mundo chorou, eutambém dei a minha chorada. Não com tristeza, é com saudade. Falo em saudade. Eeu estava fazendo esse livro, era uma coisa que eu sentia, espiritual, tinhaque fazer uma música todo dia, não tinha papo. E como não gosto de premeditar,esperava aquela hora em que não estava preparado para fazer. Sempre me pegavade susto.” Os familiares então perguntaram como ele iria fazer a música daqueledia. No que ele respondeu: “Mamãe está dizendo para eu ir correndo fazer a música.Mamãe está feliz, nós é que estamos chorando. Ela se desprendeu com 80 anos,esse corpo aí pesado, que não podia ficar mais aí. Ela está feliz da vida,sorrindo”. 

Músico totalmente intuitivo, Hermeto conhece profundamente teoriamusical, mas só foi aprendê-la, com uns 40 e poucos anos. “Comecei a aprenderdeduzindo. Sei essas coisas todas, mas eu uso, coloco sempre o sentir”, fazquestão de reforçar. Computadores não estão entre os interesses de Hermeto paracriar. Ele prefere um pé de uma máquina, uma pedra, brinquedos infantis,chaleiras, a própria barba, porcos. “Eu gosto mais da magia, da criatividade,algo natural. Não quer dizer que não use um teclado para fazer os acordes.Inclusive componho muito sem instrumento, tenho composto 80% sem instrumento.Porque não sei onde vou estar, e não posso carregar sempre os instrumentoscomigo”, revela. O primeiro piano veio só depois do 35 anos. O que foi ótimo,segundo ele, pois teve que desenvolver a cabeça. “Se quero uma sinfônica, eutenho na minha cabeça, se quero um piano, também. O que quero, tenho aquidentro da cabeça. Por isso não procuro computador, essas coisas. Quem precisade mim são eles, para registrar o que faço”, fala sem ponta alguma dearrogância. 

Como já mencionado, foi a partir da apresentação em Montreux,em 1979, que o mundo dedicou a devida atenção que Hermeto Pascoal merece. Oshow foi histórico e, na seara de lendas que o cercam, uma delas fala datentativa de Hermeto embarcar com porcos para se apresentar no afamado festivalde jazz. “Alguém me viu no aeroporto, cheio de instrumentos. Quando chego lá,recebo um telefone da Ilza, minha patroa na época, perguntando se eu tinhalevado 12 leitõezinhos”, relembra. OGlobo, equivocadamente, havia publicadoque Hermeto tinha sido proibido de entrar na Inglaterra com a dúzia deleitõezinhos. Ele respondeu a então mulher: “Olha, diga para eles que aqui temporquinho bonitinho da minha cor, branquinho como eu. Não tenho nada contra,mas nunca iria trazer do Brasil, gastar um dinheiro desses se já tem porcoaqui. Quer dizer, eles fazem um sensacionalismo que nem acho legal. Mas é paranão esquecerem que o Hermeto é louco – eles acham que eu sou louco, né? Olha sóse eu seria inteligente se me desse ao trabalho de levar porco para qualquerlugar do mundo, se em todo canto tem porco. Qual é o país que não tem porco?Nem falo isso criticando, falo porque as pessoas são inteligentes, e quem leuno jornal não acreditou. Como eu ia ter o trabalho de levar 12 porquinhos? Sóque eu ri… Imagina eu fazendo isso? Mesmo que não faça, me imagino fazendo,seria engraçado mesmo chegar com um monte de porco. Aí, sim, eles iam me torrarjunto, hehehe”. 

De tão improvável que é, Hermeto Pascoal e sua músicasuscitam estórias como essa. Não duvidem nada, portanto, até porque anos antes porquinhosestiveram no estúdio com ele. O bruxo gravou um disco nos Estados Unidos em1976, Slaves Mass, no Texas, maisprecisamente. Um casal de crianças levou dois porquinhos, eram seus bichinhosde estimação.

> Confira o site oficial de Hermeto Pascoal

> Conheça o livro Calendário do som (Senac-SP/Itaú Cultural, 2000)

> Hermeto Pascoal na Saraiva.com.br 


> Assista trechos da apresentação de Hermeto Pascoa no CopaFest, no Rio de Janeiro

 

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