Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.10.2010 15.10.2010

O mundo cômico de Gilbert Shelton

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

Gilbert Shelton sempre alega que se alguém tentasse repetir a quantidade de drogas consumidas por seus Freak Brothers estaria morto há um bom tempo. Ele inclusive. Mas, como seus chapados personagens não deixam de demonstrar a cada página, os alucinógenos como peiote/mescalina, cogumelos e LSD, sem falar na maconha e mesmo na cocaína e heroína, abundaram nos loucos e intensos anos 1960. E, mesmo com muito abuso, ondas erradas e bad trips, as drogas ocuparam um papel central na contracultura surgida em San Francisco, Califórnia no final daquela década, junto com os hippies e o flower power, a psicodelia e o rock n´ roll e os quadrinhos underground. É aí que entra Mr. Shelton, que mergulhou fundo na maconha e no peiote ainda no Texas, quando este último não era ilegal. Como meio mundo, também se mudou para a Califórnia, fundou a editora Rip Off Press, publicou todos os comix daquela turma, os bons e os ruins, e ajudou a retratar e a moldar, de forma crítica e autoirônica, a juventude que pedia paz e amor, criticava a guerra – na época era o Vietnã – e se entupia de entorpecentes. 

Shelton esteve no Brasil em agosto, onde participou da Flip ao lado de seu amigo e colega de pena, Robert Crumb, com quem dividiu a mesa pessimamente mediada, além de passeios ocasionais pelas pedras irregulares de Paraty. Gentil e atencioso, sua fala é pausada, lenta, e suscita no interlocutor dúvidas sobre a quantidade de drogas que ingeriu ao longo daqueles loucos anos. No breve papo, Shelton, recordou como tudo aquilo começou, falou sobre a importância dos quadrinhos underground, que pela primeira vez abordou de forma clara e direta temas até então tabus nas HQs norte-americanas, e falou sobre o longa-metragem em stop motion que está sendo realizado com Phineas, Freewheelin Franklin e Fat Freedy, além do gato de Fat Freddy, talvez o mais mordaz e irônico de todos os Freak Brothers, que por aqui ganharam duas belas coletâneas, editadas pela Conrad.
 

De Dick Tracy ao peiote

Gilbert Shelton. Nos Estados Unidos, tínhamos as tiras de humor nos jornais, e eu imitava Dick Tracy quando criança. Ele foi o meu favorito por muito tempo, no início porque eu levava a sério e, mais tarde, porque era tão bizarro que era engraçado. 

Estudei na Universidade do Texas, havia o movimento pelos direitos civis, e havia maconha e peiote no Texas – e isso antes do peiote ser considerado ilegal. Era uma droga psicoativa que podíamos usar, muito semelhante ao LSD. Todos os meus amigos da faculdade comeram peiote e tiveram alucinações e experiências psicodélicas. 
 

O começo dos Freak Brothers

Shelton. Na época, alguns jornais semanais lançaram semanários esquerdistas focados na contracultura, e eu concordava com eles de maneira geral, apesar de serem muito tediosos. Eu pensava que ninguém iria querer lê-los, a não ser que tivessem tiras de humor, como os demais jornais têm. Portanto, comecei desenhando os Freak Brothers como uma tira de humor para ser publicada no jornal local da Universidade do Texas chamado The Rag. Depois de um tempo comecei a publicá-las eu mesmo em livros. 
 

Quadrinhos underground

Shelton. Por algum motivo, muitos cartunistas se mudaram para São Francisco no fim dos anos 1960 e a cidade se tornou o centro dos quadrinhos underground. Eu e alguns amigos lançamos uma editora chamada Rip Off Press, onde publicamos Robert Crumb, eu e todos os outros, a maioria dos cartunistas underground. Isso quebrou o monopólio das grandes editoras e acho que essa foi a contribuição mais importante. 

Na época, a grande mídia não lidava com a política de esquerda, sexo, drogas ou qualquer assunto do tipo. Hoje ela lida. Não sobraram muitos exemplos desse tipo de jornalismo, até onde eu saiba. Agora moro na França, por isso estou um pouco por fora do que acontece nos Estados Unidos. Na França, há uma esquerda organizada politicamente, o que não acontece nos EUA, há apenas centro-direita ou extrema-direita. 

As histórias dos Freak Brothers eram mais sobre drogas e a vida cotidiana. Crumb que tinha as grandes fantasias sexuais. Mas eu ganhei crédito por algumas das coisas que ele fez, muita gente nos confunde. Por mim tudo bem, sou um grande fã de Crumb. 
 

Freak Brothers em stop motion

Shelton. Há uma produtora de Bristol, Inglaterra, a Bolex Brothers, eles fizeram alguns filmes. Eles estão tentando levantar dinheiro para produzir o longa-metragem dos Freak Brothers. Bristol é o centro dessa tecnologia obsoleta chamada animação em stop motion porque o estúdio da Aardman fica lá. A Aardman fez Wallace & Gromit, A fuga das galinhas. O filme dos Freak Brothers usa modelos maiores e os cenários são tão realistas que não dá pra perceber que são miniaturas. Eles são um tipo tradicional de personagens de quadrinhos, não são personagens fantásticos ou de ficção científica, mas da vida cotidiana. Acho que as pessoas conseguem se identificar com eles, apesar de os personagens serem absurdos. Se alguém tentasse viver como os Freak Brothers estaria morto em pouco tempo. 
 

HQ hoje

Shelton. Leio sobretudo quadrinhos franceses, principalmente para praticar meu francês. Conheço todos os cartunistas franceses da geração passada, não conheço bem os mais jovens. Meus cartunistas franceses preferidos são Philippe Vuillemin, Frank Margerin… Esses caras são mais velhos. Os caras que considero novos, entre os americanos, são Daniel Clowes e Peter Bagge, e eles já têm uns 50 anos hoje em dia! [risos]

 Tenho muitas coisas que ainda não foram publicadas e algumas histórias engraçadas, então talvez eu edite um scrap book (caderno de rascunhos), sobretudo para ter algo novo para publicar. Não estou mais fazendo muitas histórias em quadrinhos. Estou ficando velho, meus olhos estão ficando ruins, minha mão está ficando instável…

> Assista à entrevista exclusiva de Gilbert Shelton ao SaraivaConteúdo e confir ao trailer da animação em stop motion com os Freak Brothers

 

 

 

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