Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 05.04.2013 05.04.2013

“O meu Hendrix da literatura é o Hemingway”, diz Tony Bellotto, que lança seu 8º livro

Por Maria Fernanda Moraes 
 
No começo da carreira como músico, Tony Bellotto declarou que queria ser Jimi Hendrix. Com o lançamento do seu oitavo livro, a frase do guitarrista do Titãs foi revisitada: “O meu Hendrix da literatura é o Hemingway, só para ficar nos que começam com H (risos)”, disse em entrevista ao SaraivaConteúdo.
 
O novo romance do escritor é Machu Picchu (Companhia das Letras), que ele mesmo define como uma comédia de costumes, uma crônica com viés irônico sobre a família nos dias hoje. Na história, os personagens Chica e Zé Roberto estão presos num imenso congestionamento no Rio de Janeiro, no dia em que o casal comemora 18 anos de casamento.
 
Diante da impossibilidade de sair do lugar, eles pensam na vida que têm levado: ele mantém um caso virtual com uma menina pelo Facebook e ela tem um amante no trabalho. Além dessas duas vozes narrativas, há ainda o filho do casal, Rodrigo, que passa a se envolver com drogas.
 
No embalo desse momento especial de lançamento do seu oitavo livro, Tony contou ao SaraivaConteúdo que os próximos anos também trarão boas surpresas. “Estou escrevendo um novo volume da série Bellini, que deve sair em 2014 junto com uma adaptação do personagem para HQ (Bellini e o corvo). Em 2015, completam-se 20 anos que Bellini e a esfinge foi publicado pela primeira vez, e estamos vendo (eu e a editora) se conseguimos comemorar essa data com alguma edição especial, algo assim”.
 
Longe da faceta de rockstar eternizada pelos Titãs, Tony revelou detalhes sobre seu processo criativo, suas influências literárias e suas manias de leitor. Acompanhe a conversa:
 
De onde surgiu a ideia para o livro?
Tony Bellotto: Já há algum tempo que eu queria falar sobre a família, é um assunto que sempre me interessa. Toda família vista de perto é absolutamente estranha e única, e por isso são parecidas entre si. Tem umas maluquices que me fascinam de certa forma… eu fico vendo esses programas na televisão de casais que frequentam casas de swing, leio a [psicanalista] Regina Navarro Lins, que fala do casamento do futuro, e acho um tema interessante, porque da mesma forma que se fala muita coisa, tudo ainda permanece bem parecido com o que sempre foi. Mas a fagulha inicial da ideia do romance apareceu quando eu fui ao lançamento de um livro da Martha Medeiros, vi aquela fila imensa e pensei que tinha que fazer um livro assim, que fosse interessante às pessoas. Aí eu comecei a pensar que a Martha escreve sobre mulheres. E a ideia inicial do livro era ter apenas uma voz feminina, da mulher que está traindo o marido. Mas aí entraram mais vozes e o romance foi tomando outra forma.
 
Como foi a experiência de escrever essa voz feminina? Você buscou referências, inspirações?
Tony Bellotto: Como escritor, sempre me fascinou essa ideia de um homem poder escrever como mulher e uma mulher poder escrever como homem. Eu sou amigo da escritora Patrícia Melo, e quando ela escreveu O Matador, um livro narrado todo em primeira pessoa por um homem, fiquei encantado com aquilo! No meu livro BR 163, eu já tinha usado esse artifício num dos capítulos, mas agora, com a Chica de Machu Picchu, eu extrapolei… Escrevi cenas de sexo, ela contando das transas dela com o marido, com o amante. Foi muito legal, muito divertido!
 
O livro traz várias referências artísticas – Dead Kennedys, Erik Satie, Rimbaud, James Joyce e Henry Miller. Um dos citados, o Henry Miller, faz um trabalho de autobiografia com ficção. Você acha que tem isso também na sua escrita?
Tony Bellotto: Eu sinto que é tendência na literatura atual. No meu caso não acontece muito. É claro que às vezes você coloca num personagem ou outro alguma coisa que você pensa, que você acha. Mas no caso do Machu Picchu, não tem nenhum personagem com quem eu me identifique a ponto de achar que tem alguma referência da minha própria vida. Tem alguns outros personagens, como o Bellini, por exemplo, que eu acho que têm mais a ver comigo.
 
Os seus livros misturam bastante cultura pop e literatura. É uma forma de atrair jovens leitores?
Tony Bellotto: Eu não faço exatamente com esse objetivo, mas acho que pode ser sim uma leitura divertida, em que o cara encontra referências do próprio universo. Eu, quando era garoto, gostava muito. Na minha adolescência, quando descobri escritores como Charles Bukowski, Rubem Fonseca, eu gostava de sentir que ali tinha uma “pegada” mais pesada, menos oficial, menos com cara de escola. Acho que todas as formas de você conseguir fazer com que as pessoas leiam são válidas e importantes.
 
Como é seu processo criativo? Você consegue escrever em meio às turnês do Titãs?
Tony Bellotto: Eu prefiro escrever no meu computador, na tranquilidade do meu escritório. Nos dias em que não estou fazendo show, geralmente no começo da semana, eu passo umas duas horas pela manhã, duas horas pela tarde escrevendo, trabalhando no texto sozinho, em silêncio. Qualquer coisa me distrai, não posso ouvir música, nada. Quando viajo no final de semana para fazer show, eu imprimo esse material e vou relendo, corrigindo, revisando no hotel, em aeroporto.
 
O que está lendo atualmente e como você escolhe suas leituras?
Tony Bellotto: Sou um leitor bastante compulsivo, estou sempre lendo, às vezes mais de um livro ao mesmo tempo. Não tenho uma predileção especial, eu compro muitos livros, eles vão ficando amontoados na minha mesa de cabeceira e eu vou lendo. Às vezes, quando eu encontro algum autor que me “chapa” muito, como aconteceu há pouco com o Roberto Bolaño, eu leio tudo o que tem publicado dele, vira meio que uma obsessão.  Atualmente eu estou lendo Desde que o Samba é Samba, do Paulo Lins, e estou adorando. Terminei de ler o Utz, do Bruce Chatwin, nunca tinha lido nada dele. Outro autor de quem li toda a obra recentemente é o Philip Roth, que eu acho sensacional.
 
Machu Picchu é o 8º livro da carreira de Bellotto
 
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