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O longo caminho dos Violados

Por Andréia Silva

No cenário musical, a onda criativa que desce de Pernambuco para todo o país não é coisa de agora, nem do manguebeat e de Chico Science.

 
O começo desse fenômeno que, hoje, faz de Recife um dos polos mais criativos e irreverentes da música popular brasileira data lá de meados dos anos 70, quando um grupo de garotos decidiu pegar as violas, a flauta e a percussão para mostrar por meio de suas pesquisas o que a música do nordeste tinha de mais rico, e que ela poderia, sim, ser moderna.
Nessas quatro décadas, o Quinteto Violado virou referência na música popular. Não à toa, foram chamados por Luiz Gonzaga, o Gonzagão, de “sustança”, de “tutano do corredor do boi”. Para contar toda essa história, o grupo lança o DVD ao vivo dos 40 anos e um livro, Lá Vem os Violados.
 
O DVD faz um resgate de diferentes momentos da carreira do Quinteto, de canções próximas às manifestações populares a composições próprias.
 
Estão no repertório “Vaquejada”, “Três Três”, “Baião de Quinji”, “Canto e Zelação”, “Algodão”, (de Luís Gonzaga), “Forró de Dominguinhos” (Dominguinhos), “Frevo na Primavera”, “Chorando de Manhã”, entre outras.
Em 1971, ano em que despontou na cena musical, o Quinteto Violado teve uma ascensão meteórica. Naquele momento, ainda contava com a sua formação original, com Marcelo Melo, Toinho Alves (canto e baixo acústico), Fernando Filizola (viola e sanfona) Luciano Pimentel (bateria percussão) e Sando Johnson (flauta).
 
Atualmente, tem na sua escalação Marcelo Melo, Ciano Alves (flauta), Dudu Alves (teclado), Roberto Medeiros (voz e percussão) e Sandro Lins (baixo).
 
O nome do grupo tem uma história curiosa. Quem os batizou foram umas crianças que assistiam à apresentação do Quinteto no teatro Nova Jerusalém, como conta Marcelo Melo (voz, viola e violão), integrante que está no grupo desde o início.
 
“Quando viram a gente, foram logo falando ‘lá vêm os violados’, então eu e Toinho não pensamos duas vezes”, relembra Melo.
Toinho Alves era seu parceiro, ao lado de quem a história dos Violados começou. “A gente trabalha com uma determinada linguagem, e Toinho era mestre em harmonizar os arranjos, fazia isso como ninguém, o que deu uma característica ao som do Quinteto”, diz ele ao lembrar-se do amigo.
 O Quinteto Violado em foto de 1975
Foi justamente o capricho dos arranjos que renderam Gonzagão. A versão do grupo para “Asa Branca” é tida pelo rei do baião como a mais bonita, e sua gravação, em 1972, no primeiro disco dos Violados, lançou o grupo ao sucesso.
 
Privilégio foi não só receber elogios, mas conviver com o mestre. “Me lembro de Gonzaga muito entrosado com a gente. Sempre digo que a obra dele definiu nossa sonoridade, agregando valor aos arranjos”, diz.
Quinteto Violado toca “Asa Branca”:
 
O início exigiu, além de muito trabalho, habilidades no volante por parte dos integrantes do grupo. “Nos primeiros 15 anos, nós chegamos a percorrer 2 milhões de quilômetros de estrada”, relembra Melo, que, na época, meados dos anos 80, dividia o volante com os demais Violados e até Dominguinhos. Essa é uma das histórias contadas por Teles no livro.
O grupo também conquistou Gilberto Gil, que chamou o som feito pelos Violados de “free nordestino”. Além dos gêneros ligados ao forró, o grupo gravou ritmos como cavalo-marinho, maracatu, ciranda, caboclinho e frevo, entre outros.
Melo relembra que, quando o grupo despontou, o país vivia a ressaca da Bossa Nova, ainda digeria a Tropicália e estava em pleno Regime Militar, “para quem qualquer obra que buscasse a valorização da identidade brasileira era vista como ameaça”.
 
Ao lado do DVD e do livro, escrito pelo jornalista José Teles, o grupo viajou por algumas capitais brasileiras, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília e São Paulo, levando a exposição que celebra as quatro décadas de vida do grupo. Melo diz que foi gratificante ver como o Quinteto mexeu com as pessoas ao longo dos anos.
Gerações posteriores também reconhecem o papel do grupo na música nordestina. O crítico de música Sergio Cabral já disse que existe a música da região antes e depois dos Violados. O cantor Lenine já se declarou ao Quinteto, dizendo que eles são parte de seu DNA.
 
Capa do livro Lá Vem os Violados, escrito pelo jornalista José Teles
Melo vê com bons olhos esse despontar da música do Nordeste, principalmente a pernambucana.
 
E não poderia ser diferente, se considerarmos que houve tempos em que, para fazer sucesso, só estando no eixo Rio-São Paulo. Coisa que os Violados nunca precisaram fazer.
“Pernambuco vive um momento fértil em todos os aspectos. Recife sempre foi um celeiro cultural. A gente nunca saiu daqui para ser reconhecido. Mostramos a beleza que existia nas expressões musicais da região e que eram desconhecidas, porque a indústria cultural sempre foi muito voltada para o eixo Rio-SP”, diz Melo.
 
Os próximos capítulos da história desse grupo podem trazer um encontro entre baião e África, em uma possível parceria com músicos do Senegal, relembrando um momento lá do início da carreira do grupo, quando Melo fez suas incursões com artistas de Cabo Verde. Enquanto isso, a banda segue celebrando as conquistas de quatro décadas.
 
“Nós fizemos sucesso porque trouxemos uma expressão mais simples e espontânea do povo brasileiro. O que sempre quisemos foi valorizar o homem pela sua cultura. E, até hoje, fomos fiéis a isso”.
 
 
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