Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 31.01.2011 31.01.2011

O lixo que produzimos, a arte que consumimos

   Por Bruno Dorigatti
    Fotos de divulgação


Depois de oitos anos sem ter um filme nacional concorrendoao Oscar, e sem nunca ter concorrido na categoria de melhor documentário, ocinema nacional volta a figurar na mais famosa premiação da indústria docinema. O filme Lixo extraordinário,uma coprodução Brasil-Inglaterra, dirigida por Lucy Walker, João Jardim, eKaren Harley, vem conquistando platéias e prêmios mundo afora. Até agora, odocumentário ganhou 23 prêmios em mostras e festivais, seja do júri ou dopúblico, incluindo o de Sundance e Berlim, todos este ano.

O pano de fundo da história é do aterro sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, uma área aproximada de 1,3 milhões de metros quadrados. Ele recebe quase a totalidade do lixo produzido na cidade do Rio de Janeiro, cerca de 8.800, e é lá que milhares de famílias tiram o seu sustento, chegando a recolher 200 toneladas diárias de material reciclável e tudo o mais que puder ser reaproveitado. 
O local está com seus dias contados, por conta dos riscos deinfiltração na Baía de Guanabara e deve fechar em 2012.  Em 2004, foicriada a Associação dos Catadores do Jardim Gramacho (ACAMJG), com o objetivode lutar pelos direitos dos trabalhadores nas negociações sobre as açõesreparadoras quando do fechamento, e é justamente Sebastião Carlos do Santos, oTião, 32 anos e presidente da Associação de Catadores, o personagem principalde Lixoextraordinário.

Na verdade, o filme parte da experiência do artista brasileiro VikMuniz em Gramacho, quando este decide fazer, em parceria com catadores, fotosmontadas a partir do lixo recolhido por lá. Muniz, nascido em São Paulo, viveem Nova York desde a juventude, depois que, ao tentar separar um briga na rua,foi baleado e recebeu dinheiro do atirador para que não o denunciasse. Foi essabala que deu a oportunidade de ser quem é hoje, “o artista brasileiro que maisvende, talvez a pessoa mais em voga no exterior”. Frase que afirma nodocumentário a Tião, quando chega a Gramacho e começa a explicar o que pretendepor lá.

Muniz realiza trabalhos em diversas técnicas e materiais, que incluem geleia, manteiga de amendoim, açúcar, fios, poeira, usados para reproduzir imagens clássicas, seja pinturas, como a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, ou fotografias, como a de Seu Jorge. Recentemente, pôde ser visto na abertura da novela Passione, da Rede Globo. Outra grande sacada são as obras com açúcar feitas a partir de retratos de crianças em São Cristóvão e Nevis, uma ilha caribenha onde seus pais são explorados nas plantações de cana. Outro interessante e curioso trabalho foi feito a partir da poeira acumulada no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA (na sigla em inglês). Já em Versos, Muniz retrata os fundos de telas famosas de Picasso e Van Gogh, algo que transita entre a originalidade e a picaretagem. 

Se o filme começa com certo didatismo, com uma breve apresentação dequem é o artista e como ele conseguiu vingar nos Estados Unidos, com narração esituações que claramente parecem ter sido encenadas, o longa ganha ritmo ao seaproximar do lixão e entrar na vida dos personagens, que têm a oportunidade derealizar um trabalho artístico. O documentário focaliza as histórias sofridas edifíceis das pessoas que optam por essa vida, muitos de classe médiaempobrecida por conta de alguma fatalidade, como doença, morte, demissão,alguma tragédia que os levou até o lixão. Há os que gostam, há os que odeiam,há os que não se importam muito. E Vik Muniz chega para quebrar essa rotina,oferecer a oportunidade de fazer arte com aquilo. 

Tião foi um dos personagens que posaram como modelo para que a suafoto fosse reconstruída em larga escala com objetos catados em Gramacho. Foifotografado como Marat no famoso quadro na banheira, apunhalado – imageminclusive escolhida para ilustrar o cartaz do filme. Ele acompanha Vik a umleilão em Londres, onde vende a obra por 28 mil libras (R$ 74 mil). Tião nãofoi o único a ganhar dinheiro com este trabalho. Todos os que participaram dodocumentário montando as obras ganharam R$ 75 por dia, mesmo valor que conseguemtrabalhando no lixão. Aqueles que tiveram seus retratos montados ganharam R$ 10mil.

Curiosamente, o filme teve três diretores. Começou com a britânicaLucy Walker, passou às mãos do brasileiro João Jardim e foi finalizado pelatambém brasileira Karen Harley. Talvez por isso o resultado da montagem seja umtanto irregular. E se o documentário começa um tanto condescendente, como quempassa a mão na cabeça destes menos privilegiados, o resultado final ésatisfatório, ao apresentar reflexões, ainda que iniciais, sobre o lixo queproduzimos e a arte que consumimos. Resta saber se a Academia também se dobra aesta reflexão.

 

> Confira o trailer de Lixo extraordinário

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