Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.06.2013 14.06.2013

O letrista predileto de Elis Regina tem sua vida passada a limpo em biografia

Por André Bernardo
 
No dia 25 de dezembro de 1977, João Bosco resolveu passar o Natal em casa, na cidade de Ponte Nova (MG), onde nasceu. Pela TV, ficou emocionado ao saber da morte de Charles Chaplin, a quem aprendera a admirar vendo muitos de seus filmes, como Em Busca do Ouro, Luzes da Cidade e O Grande Ditador. Mais que depressa, João Bosco pegou o violão e compôs uma música, onde citava trechos de “Smile”, canção composta em 1936, pelo próprio Chaplin, para o filme Tempos Modernos.
Quando ouviu a melodia, Aldir Blanc não titubeou: transformou o samba em homenagem a Carlitos em “um hino aos outsiders”, como gosta de frisar. Nele, incluiu os exilados políticos, como o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, citado na letra como “o irmão do Henfil”. Foi assim que surgiu a música “O Bêbado e o Equilibrista”, gravada por Elis Regina no álbum Elis, Essa Mulher, de 1979. “O que veio depois, da maneira mais espontânea possível, foi belíssimo!”, recorda Aldir, sem conseguir disfarçar a nostalgia.
A história de como nasceu “O Bêbado e o Equilibrista” está contada no livro Aldir Blanc – Resposta ao Tempo, escrito pelo jornalista Luiz Fernando Vianna. Desde 1974, quando trocou a profissão de psiquiatra pela de compositor, esse carioca do Estácio, zona norte da cidade, já compôs mais de 600 canções, 120 delas em parceria com o amigo João Bosco. “Somos dois caras que se conhecem profundamente e que respeitam muito a capacidade de criação um do outro”, explica Aldir, que já compôs também com Guinga, Ivan Lins e Edu Lobo, entre outros.
A paixão pela música só não é maior do que o fascínio pelos livros. Em seu apartamento na Muda, Aldir Blanc contabiliza quase 12 mil títulos, para desespero de sua mulher, a professora Mary Lúcia de Sá Freire, com quem está casado há 25 anos. “Meu quarto está intransitável”, justifica o também cronista, que publicou, em 2006, a antologia Rua dos Artistas e Transversais, que reúne dois de seus títulos, Rua dos Artistas e Arredores, de 1978, e Porta de Tinturaria, de 1981, além de 14 crônicas escritas para a revista “Bundas” e para o “Jornal do Brasil”.
Escrever biografia no Brasil virou motivo de controvérsia. Qual é a sensação de ter, aos 66 anos, sua vida transformada em livro pelas mãos do jornalista Luiz Fernando Vianna?
Aldir. Bom, sou suspeito para falar sobre isso porque o Luiz é como um filho para mim. Só concordei com a biografia por causa disso. Eu sabia que ele seria fiel ao que eu dissesse, sem maldades ou armações.
O livro Aldir Blanc – Resposta ao Tempo reúne 450 letras, 100 inéditas. O que caracterizasua poesia?
Aldir. É o amor pelo tipo popular, o homem das ruas, não só o carioca, mas o brasileiro. Sempre tento – mas nem sempre consigo – escrever com humor e irreverência. Geralmente, são essas as letras de que eu mais gosto.
 
Aldir e João Bosco, amigo e parceiro em 120 canções

Você se arriscaria a eleger um parceiro ideal entre os muitos com quem já teve a oportunidade de compor?

Aldir. Até por uma questão histórica, gosto muito de compor com o João (Bosco). No caso dele, a maior parte das letras foi colocada numa melodia já existente. Mesmo assim, quando mando uma letra, ela é tratada com a atenção que merece e musicada pelo João na mosca. Mas o método de composição varia muito. O Guinga, por exemplo, não coloca música em letra de jeito nenhum. Há quem diga que as letras que fiz para o Guinga são prolixas. Não concordo. Todas têm o tamanho que a melodia exigiu. Nota por nota. Já o Edu Lobo eu considero acima do bem e do mal. É um absurdo que não tenhamos sua obra completa disponível em CD.
A música “O Mestre-sala dos Mares”, antes intitulada “O Almirante Negro”, foi uma das muitas censuradas pela ditadura. Que truques você usava para fugir da perseguição do regime militar?
Aldir. Essa música é uma homenagem ao marinheiro João Cândido, que liderou a Revolta da Chibata e ganhou o apelido de “Almirante Negro”. O principal truque era manter o conteúdo da letra e fazer uma alteração drástica no título. Além disso, eu incluía versos, como “glória às baleias”, só para despistar os censores.
Você tem fama de recluso e antissociável. A que atribui isso?
Aldir. Sou um tipo fechado, caladão e caseiro. Saio pouco porque sofri um acidente em 1991. Tenho uma placa de platina e 13 parafusos, do joelho à raiz da coxa, na perna esquerda. Além disso, também andei bebendo muito, depois da morte de um amigo-irmão, o Marco Aurélio, em 1999.
Em relação ao pagamento dos direitos autorais, como você analisa o cenário atual? Que medidas podem ser tomadas para assegurar uma arrecadação mais justa para músicos e letristas?
Aldir. Estamos em um beco sem saída. Talvez a classe mais roubada do mundo seja a dos compositores. A internet está nos matando fraudulentamente. E há quem ainda defenda isso. Para os donos de rádio e TV, somos um cartel. Bem, só se for o cartel mais miserável do mundo. Uma grande editora transnacional acaba de pagar meu trimestre: recebi 200 e poucos reais, cerca de 70 reais por mês. Daí, pergunto: que diabo de cartel é esse?
Você se diz um cara “obcecado por leitura”. Quais foram os escritores que ajudaram em sua formação?
Aldir. Ah, foram muitos: Lima Barreto, Sérgio Porto, Ivan Lessa, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Marques Rebelo… Leio o dia inteiro. Se bobear, vou pela madrugada adentro. Não saberia viver sem livros. Se a diabetes, um dia, resolver me deixar cego, eu prefiro morrer.

Biografia de Luiz Fernando Vianna reúne 450 letras, 100 delas inéditas
 
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