Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 19.03.2010 19.03.2010

O joio e o trigo de “”Um sonho possível””

É uma tarefa e tanto separar o joio do trigo em “Um sonho possível”, que estréia hoje. Entenda-se aí por joio toda a ode ao assistencialismo pregada no livro de Michael Lewis e nessa adaptação para o cinema concebida por John Lee Hancock; e por trigo, a premiada atuação de Sandra Bullock. Mas vamos lá:

Baseado em uma história real, o filme como mostra a vida da socialite Leigh Anne Tuohy (Sandra), casada com um ex-atleta milionário, muda, quando ela conhece Big Mike (ou Michael Oher, vivido por Quinton Aaron), um adolescente negro imenso, calado, que consegue uma bolsa numa escola religiosa da classe alta por conta de suas habilidades com o futebol americano.

Mera “perua”, Leigh Anne se torna uma engajada defensora dos fracos e oprimidos ao ser confrontada com a realidade amarga de Mike que, por sua vez,  só cresce à medida que é acolhido e aceito pela família de sua protetora.

Asséptico até mesmo visualmente, o filme reforça os clichês de comercial de margarina e do sonho americano na relação excessivamente harmônica da família Tuohy. Ok, trata-se de uma história real, mas realmente era assim? Difícil acreditar.

Outro problema é a defesa do assistencialismo impregnada em cada fotograma. Protegido, Michael parece ter pouca ou nenhuma soberania sobre sua própria vida. A bondade alheia – cristã, parece ressaltar o filme – é a única saída da miséria e da violência para pessoas como ele, um sem-teto, filho de uma viciada em drogas, mãe de um monte de filhos.

E mais: o personagem Big Mike, que na escola revela ser dono de um grande instinto protetor, é uma alma boa, quase um exemplo do homem selvagem não conspurcado pelo coletivo, como pensava Rousseau. Faltaram nuanças na construção desse personagem.

E são nuanças que podem salvar o filme do abismo, ao menos no que se refere à atuação de Sandra Bullock. A atriz tem uma interpretação cuidadosa, sutil, expressa a cada de um de seus “choques de realidade”. Nas comparações que emergem a cada pergunta sobre o passado e origens de Mike, isso vem à tona. Seu ar ora mescla piedade e descrença – na linha “existe vida assim tão ruim e diferente da minha?” -, ora revolta e ou um caráter assertivo. Uma atuação bem diferente das que já vimos nas heroínas românticas ou de ação da atriz.

Veja abaixo um trailer legendado do filme:

Recomendamos para você