Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 26.10.2012 26.10.2012

O intrincado caminho trilhado pelos fãs, da tela para os quadrinhos

Por Marcelo Rafael
 
Supeman – O Homem de Aço, Homem de Ferro III, Thor – The Dark World, Capitão América – The Winter Soldier, Vingadores II, Liga da Justiça… A leva de filmes de super-heróis, carregando a telona de superpoderes e turbulentos efeitos visuais, vai crescer nos próximos anos. E no rastro deixado pela adrenalina de ver os heróis em carne e osso em plena ação, vem toda uma nova legião de fãs que migra do cinema para os gibis.
Essa migração não é de hoje. Lá nos idos de 1980, 1990, crianças e adolescentes fizeram o mesmo, passando dos cinemas e da televisão para as livrarias e bancas de revistas atrás de seus heróis. Hoje, já adultos, surpreendem-se com o que veem nas telas.
“As editoras ficam muito de olho nisso. Tanto que, sempre que vai entrar um filme novo, como Os Vingadores, a editora pega e coloca em circulação uma nova série”, comenta Bruno Zago, coautor de dois almanaques que contam a trajetória dos principais heróis adaptados para o cinema, Quadrinhos no Cinema e Quadrinhos no Cinema 2.
O segundo volume, lançado pelos editores do site Pipoca e Nanquim, na última Bienal do Livro de São Paulo, em agosto, atualiza informações e traz novas curiosidades sobre Vingadores, Homem-Aranha, Batman e Juiz Dredd.
DA TELINHA PARA O GIBI
Zago conta que começou a ler X-Men em função do desenho animado que ia ao ar pela TV Globo em 1994. “Eu fui pra banca uma vez e vi o Wolverine na capa de uma revista, e comecei a ler por causa disso”, diz.
Mas ele reconhece a dificuldade de entrar em uma história que teve início nos anos 1960. “A pessoa pega lá o número 73. Ela vai pegar uma história que vem de uma continuação e que ainda vai ser continuada. Então, o público fica meio sem entender.”
Foi o que aconteceu com Sokrates Papageorgiou, fã de quadrinhos e que lê super-heróis até hoje. Ele também migrou da TV para as livrarias. “Eu demorei pra entender o que estava acontecendo. O conteúdo da HQ era bem mais adulto”.
Ele conta que começou a ler X-Men e Homem-Aranha, por volta de 7, 8 anos, por causa da série animada que passava na TV Globo, na década de 90. “Eu achava o máximo a série. Gravava em fita. Como eu já lia muito Turma da Mônica, quando começou a sair o desenho [animado na TV], minha mãe começou a comprar o gibi dos X-Men também”.
Entusiasmado pela chance de ver seus heróis em novas aventuras, tomou um susto ao ver as divergências nos quadrinhos. “Estava na Era do Apocalipse. ‘X-Men’ tinha várias segmentações: tinham os X-Men, X-Force, X-não-sei-quê, X-não-sei-quê-lá… O Homem-Aranha tinha umas duas revistas também”, lembra Sokrates.
Não só as equipes eram diferentes, como os personagens eram totalmente novos. “Tinha a Psylocke, que eles nunca liberaram para as animações – a não ser para as mais novas, mas na mais velha ela não aparecia. Conheci ela num jogo de videogame e ela estava nos quadrinhos, e a história dos quadrinhos não tinha nada a ver com o que estava acontecendo na televisão. Os personagens eram meio diferentes, as personalidades… Aí você fica meio ‘Pô, peraí, tá uma zona isso aqui’”, brinca.
 
X-Men: da enorme quantidade de heróis que passaram pela equipe, apenas alguns deram o ar da graça nos filmes
Mesmo assim, ele afirma que não só gostava da “bagunça” que encontrou nas páginas, como até preferia as HQs ao que via na televisão. “Eles eram muito mais emocionantes [nos quadrinhos], tinha uma carga dramática maior. Era mais divertido”.
No embalo, começou a ler Spawn, personagem da Image Comics que estava sendo lançado na época. Mais tarde, começou a acompanhar Batman, da DC Comics. Antes disso, seu contato com o Homem-Morcego também era via desenho – o dos Superamigos, da década de 80.
DO GIBI PARA A TELONA
Quando, na virada dos anos 90 para os 2000, começou a sair uma nova leva de filmes de super-heróis, Sokrates, agora acostumado com o enredo dos quadrinhos, chocou-se com o que viu no cinema.
As diferenças de personagens e equipes nos X-Men não o surpreenderam tanto. “Eu já estava acostumado com essa maçaroca toda de ser um personagem no desenho, outro nos quadrinhos… aí, depois, nos cinemas, mudou tudo: a Vampira virou a Jubileu…”, comenta, referindo-se ao fato de Vampira ser uma adolescente (ver quadro abaixo). 
Para ele, a mudança de personalidade de Peter Parker foi a maior diferença. “Eu gostava da personalidade ‘sarrista’ dele, de estar o tempo inteiro tirando sarro de si. E aí vai pro cinema um cara sem personalidade. A graça, o humor no meio da batalha, você não tinha”, conclui.
O editor da Marvel no Brasil, Fernando Lopes, acredita que mudanças radicais como a idade da Vampira ou o fato de Tempestade passar de líder de equipe, nos quadrinhos, a coadjuvante, no filme, fazem mais diferença para aqueles que começaram a acompanhar esses personagens em seus auges. “Eu acho que essas mudanças (no cinema) são válidas se forem para ajudar a história. Se for simplesmente mudar por mudar, não tem muito sentido”.
Manoel de Souza, editor da revista Mundo dos Super-Heróis, acrescenta que essas liberdades criativas tendem a confundir justamente os fãs mais antigos, que podem ter parado no tempo, parado de ler os quadrinhos. “Tem muitos que reclamam que o Nick Fury do filme dos Vingadores é negro, já que o criado nos anos 60 é branco. Mas depois de uma série que foi lançada nos anos 2000, Os Supremos – que é uma versão mais moderna dos Vingadores –, o Nick Fury apareceu como negro. Quem não leu, não vai entender o filme”, completa.
Mas nem tudo são críticas. Apesar de ser um filme de baixo orçamento, Sokrates aprova a adaptação de Spawn (1997) para a telona, com John Leguizamo no papel do vilão Violador.
A última trilogia de Batman é aclamada não só por ele, como pelos fãs de Bruce Wayne em geral. “Foi a melhor adaptação de um personagem mainstream para o cinema. Principalmente porque eles indicavam as referências muito claramente. Então, você conseguia pegar aquilo e linkar com a HQ”, comenta Sokrates.
Em julho, fãs norte-americanos chegaram a ameaçar críticos e jornalistas que postaram críticas a Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge no site Rotten Tomatoes.
Agora, os novos fãs do Homem-Morcego e dos outros heróis da DC que forem para as lojas terão a chance de ver os personagens em um novo recomeço, com a campanha Os Novos 52, que conta novas origens e reinicia os números das revistinhas a partir do zero. E assim, o ciclo de fãs pulando de mídia para mídia se perpetua.
 
Algumas diferenças entre os quadrinhos e o cinema:
 
Quadrinhos Cinema
Vampira não só é adulta nos quadrinhos, como mantém um caso com o personagem Gambit, apesar de não poder tocá-lo devido aos poderes letais da mutante. Ela sempre teve cabelos brancos e voava graças aos poderes que absorveu da Miss Marvel. Na trilogia, a heroína virou uma adolescente apaixonada pelo Homem de Gelo. Sendo mais nova e próxima a Wolverine, ela ocupou o lugar que era de outras X-Men jovenzinhas parceiras de Wolverine nas HQs, como Lince Negra e Jubileu. Seus cabelos ficaram brancos ao sugar a energia de Magneto.
Homem de Gelo começou como jovem fundador dos X-Men, recrutado pelo professor Xavier. Hoje é adulto e já foi noivo de uma repórter de TV. É adolescente e tem um caso amoroso com a jovem Vampira.
Gwen Stacy, a inocente namorada de Peter Parker, é capturada pelo Duende Verde e morre após ser jogada de uma ponte. Tempos depois, Mary Jane aparece na vida do Homem-Aranha e os dois se casam. As histórias de Mary Jane e Gwen Stacy se mesclam na trilogia original. Mary Jane é quem é capturada, mas não morre: continua viva e namorando o Aranha.
Peter Parker é mordido pela aranha e ganha poderes para escalar paredes, além do “sentido aranha” que o alerta sobre perigos. Mas ele nunca soltou teias. Em vez disso, inventou um mecanismo para sair se enganchando nos prédios de Nova York. Após ser picado, Peter desenvolve os poderes e também a capacidade de soltar teias. Mas, ao contrário das aranhas normais, que soltam a substância viscosa pelo traseiro, ele desenvolve o poder nos pulsos.
Edwin Jarvis é o personagem de mais longa duração da equipe dos Vingadores. O mordomo está na equipe desde sua criação. Nos filmes do Homem de Ferro, Jarvis virou uma inteligência artificial que conversa com Tony Stark. 
Quem for para os quadrinhos hoje, vai se deparar com o vilão Loki como uma criança. E ele já foi mulher. O deus da trapaça havia tomado o corpo da deusa Sif antes de reaparecer na forma infantil atual. Tanto em Thor quanto em Os Vingadores, Loki tem a aparência de um homem adulto, não tendo sofrido as transformações.
O Lanterna Verde Hal Jordan enlouquece e acaba tentando destruir todos os super-heróis, além do universo como um todo. Ele se torna o vilão Parallax. No filme de 2011, Hal Jordan enfrenta um vilão chamado Parallax.
Bane é um cara comum, que acaba tendo uma trajetória infeliz até se tornar o monstrengo que quebra a coluna de Batman, deixando-o aleijado e abrindo espaço para que Jean-Paul Valley assuma o manto do Morcego. Em Batman Eternamente (1995), o vilão não passa de um guarda-costas bobalhão de Hera Venenosa. Na nova trilogia (de Nolan), ele também quebra a coluna de Batman, mas o herói logo volta a andar.
O primeiro Robin teve seus pais, trapezistas de circo, assassinados por um gângster chamado Anthony Zucco. Em Batman Eternamente, os trapezistas foram assassinados pelo vilão Duas Caras.
 
 
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