Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.05.2014 23.05.2014

O interesse do público adulto em livros infanto-juvenis

Por Fernanda Oliveira
 
É fato que sagas literárias de grande sucesso nos últimos anos como Jogos Vorazes, Crepúsculo, Harry Potter e Senhor dos Anéis (esta última publicada na década de 1950, mas resgatada recentemente por adaptações cinematográficas de grande repercussão) são compostas por obras voltadas ao público infanto-juvenil. Mas também é indiscutível que elas se tornaram muito populares e ampliaram seu número de leitores despertando o interesse dos adultos.
 
Apesar de parecer um fenômeno novo devido à grande quantidade de best-sellers atuais destinados aos adolescentes, segundo Benedito Antunes, professor de Literatura Brasileira da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), é algo bastante antigo. "Na verdade, uma literatura específica para o público infantil e jovem surgiu no século 18. No Brasil, começou a aparecer no final do século 19. Antes, lia-se literatura e ponto."
 
A partir daí, passou-se a ter uma diferenciação. Com isso, foram estabelecidas particularidades bem claras para as obras infantis. Porém, no caso dos títulos juvenis, as diferenças entre eles e aqueles voltados para os mais velhos é mais tênue. "É normal que o adulto venha a se interessar por livros dessa natureza [juvenis] no processo de escolha de suas leituras", ressalta o docente.
 
Afinal, não se trata de uma restrição ao perfil do leitor que deveria ler um determinado título, mas de uma adequação de diferentes aspectos, como temas abordados e linguagem adotada. Mesmo porque para Antunes, o jovem circula entre obras juvenis e adultas. Para exemplificar isso, ele cita O Apanhador no Campo de Centeio (1951), do norte-americano J. D. Salinger.
 
"Hoje é um clássico, sem adjetivos, lido tanto por adultos como por jovens. Mas parece que, na origem, era destinado aos adultos, tendo caído no gosto dos jovens por causa da personagem e da temática adolescente. Por isso, atualmente, é difícil dizer que se trata de um livro juvenil procurado por adultos, ou vice-versa", explica o professor.
 
Ele também usa O Pequeno Príncipe (1943), do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, como exemplo. "No caso dele, parece ter ocorrido o contrário [do que aconteceu com O Apanhador no Campo de Centeio]. Pensado para crianças, é lido por todos os públicos, talvez por causa de sua temática existencial, filosófica, com passagens poéticas. E ninguém se sente infantil por gostar do livro."
 
"É normal que o adulto venha a se interessar por livros dessa natureza [juvenis] no processo de escolha de suas leituras"
 
ASPECTOS ATRATIVOS
 
De acordo com Antunes, um dos aspectos desses livros que atrai os adultos é a trama. "Geralmente, são histórias dinâmicas, cheias de aventuras, de mistérios, com personagens heroicas. São, como diz, histórias bem tramadas, que despertam o interesse de todos. Afinal, temos uma propensão para a fábula, temos necessidade de ficção que alimente nosso imaginário."
 
Ele acrescenta que temáticas universais também tendem a deixá-los interessantes para o público mais maduro. Afinal, elas costumam ser desenvolvidas por meio de narrativas arquetípicas, que tendem a atrair variados perfis de leitores.
 
A leitura desse tipo de texto é recomendada para qualquer pessoa. Como diz o professor, "ler é sempre benéfico, não importa o que se lê". Na verdade, o que muda é o intuito de cada um: passatempo, diversão, aprimoramento cultural etc.
 
Junto às sagas atuais de grande sucesso, Antunes diz que é possível agregar inúmeros outros  títulos destinados aos adolescentes que fazem sucesso entre os mais velhos, por exemplo, O Maravilhoso Mágico de Oz (1900), do norte-americano L. Frank Bum; Os Meninos da Rua Paulo (1907), do húngaro Ferenc Molnár; e As Crônicas de Nárnia (1949-1954), do britânico C. S. Lewis.
 
Entre os livros brasileiros, ele cita O Meu Pé de Laranja Lima (1968), de José Mauro de Vasconcelos; e toda a obra de Monteiro Lobato e de Lygia Bojunga Nunes. "Todos podem ser lidos com grande proveito por crianças, jovens e adultos, pois, além de acessíveis, proporcionam prazer estético e enriquecimento humano", finaliza o docente.
 
"Geralmente, são histórias dinâmicas, cheias de aventuras, de mistérios, com personagens heroicas"
 
 
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