Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 04.11.2009 04.11.2009

O Gênesis de Robert Crumb

Por Bruno Dorigatti
Ilustrações de Robert Crumb

O aviso está na quarta capa, na guarda que reúne adjetivos usados por algumas das principais publicações do planeta, como The New York Times (“Visionário”) e The Guardian (“Gênio”): “Este livro contém descrições de cenas de nudez e violência conforme o texto original no qual é baseado”. As ressalvas e avisos também aparecem na introdução do próprio autor, que mimetiza/ironiza textos que tratam do sagrado: “Eu, R. Crumb, ilustrador deste livro, no melhor da minha habilidade, reproduzi fielmente cada palavra do texto original, que tirei de várias fontes, incluindo a Bíblia do Rei James, mas sobretudo a recente tradução de Robert Alter (The five books of Moses, 2004). Em alguns raros trechos me aventurei em pequenas interpretações próprias, quando considerei que as palavras poderiam ser ditas de maneira mais clara. Mas me abstive de ser indulgente nessa ‘criatividade’ e, por vezes, mantive sua intricada vagueza em vez de balburdiar um texto tão venerável”. 

O cuidado não é à toa. Afinal, trata-se do livro fundador da cultura ocidental tal qual a conhecemos hoje. E ilustrada por Robert Crumb, papa [sem trocadilho infame] dos quadrinhos underground, revolucionário na temática e na abordagem daquele louco final dos anos 1960, que modificou o mundo, com a pílula anticoncepcional, os hippies e o psicodelismo. Crumb, ateu convicto, não quis caçoar o livro sagrado, tampouco usou a ilustração do Gênesis para provar algo que seja sobre a fé dos judeus e cristãos. Para ele, a Bíblia carrega “um texto poderoso, com camadas de significados que mergulham fundo em nossa consciência coletiva, ou consciência histórica”. Porém, é a palavra dos homens, e não de Deus, um empreendimento coletivo que veio sendo escrito e reescrito, condensado e modificado por várias gerações, até ser consolidado durante o exílio na Babilônia, aproximadamente em 600 a.C. O fundamento, “a fonte escrita do poder religioso e político” de um povo escolhido por Deus. Portanto, ao envolver poder, religião e política, é praticamente impossível que não tenha sido alterado para finalidades mais prementes, práticas e mundanas. 

O criador de personagens como Fritz, the Cat e Mr. Natural, além de suas famosas mulheres, corpulentas, lascivas, recheadas de carne, digamos assim, levou a sério seu trabalho, que lhe tomou mais de quatro anos. O resultado é o melhor possível. Em nenhum momento Gênesis por Robert Crumb (Conrad) – com lançamento simultâneo em 12 países, e traduções em francês, holandês, português, alemão, italiano e finlandês – resvala para a dubiedade ou trata com desrespeito o livro sagrado de judeus, ele próprio um deles, e cristãos. Mas também não deixa de observar e ilustrar com o seu traço detalhista e perspicaz, os assassinatos, as traições, as perfídias, a mesquinhez, os incestos, as relações carnais entre senhores e escravos, que perpassam o texto, aliás, machista e misógino, cujo papel foi determinante para afirmação do patriarcado sobre o antigo e quase esquecido matriarcado. 

Considerado por alguns como o maior artista vivo no Ocidente – o que parece, mesmo para os maiores admiradores de seu trabalho, um exagero – Robert Crumb alcança o sublime, em se tratando de história em quadrinhos. Um trabalho de fôlego, com 224 páginas, que nasce clássico e valerá por todas as adaptações que o texto já ganhou, sejam ilustradas ou não. Se há algo a criticar aqui, é justamente algumas passagens do texto original, que enumera clãs e famílias em um curtíssimo espaço, o que pode confundir os menos familiarizados com a Bíblia, caso deste escriba. O Deus de Crumb também surge padronizado, com barba branca e aquela túnica que nos dá a sensação de já termos visto antes. 


Adão e Eva no Paraíso, no traço de Crumb

O cuidado com as roupas, a geografia, as comidas, os ambientes, as cidades, vilas e lugarejos, as práticas diárias vieram de um detalhado estudo realizado pelo autor nestes anos de trabalho, a partir da iconografia e fotografia disponíveis e resultam primorosos. Os personagens históricos de Adão e Eva, Caim e Abel, Noé, Abraão, Sara, Ismael, Isaac, Rebeca, Raquel, Esaú e Jacó, José e a multidão de descendentes ganham fisionomias que remetem a outros personagens mundanos criados pelo traço de Crumb, rechonchudos, de pernas, quadris e seios fartos, por vezes, desproporcionais. Demasiado humano, enfim. Como a Bíblia é.

 

 > Leia o trecho inicial do Gênesis por Robert Crumb  

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