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O Fole Roncou resgata personagens que fizeram a história do forró

Por Andréia Silva
 
O fole de Luiz Gonzaga tocou cedo, ainda moleque, contrariando Dona Santana, que não via no filho essa coisa de músico bom não. “Ô dona Santana, ele tá tocando até bonzinho. A senhora empresta o Luiz porque o tocador não chegou. Quando o tocador chegar, a gente manda ele de volta”.
O pedido de um empresário abriria o caminho para Gonzaga – que passaria dez anos, de 1920 a 1930, acompanhando o pai em apresentações – reconhecer que seu lugar era na música, ensinando como se dançava o baião, como era chamado o “baile da roça”.
 
A primeira canção a marcar o gênero foi justamente “Baião”, de 1946, de Gonzaga e Humberto Teixeira, uma espécie de Lennon e McCartney do forró. Como os dois se conheceram e o que aconteceu com o gênero a partir dessa gravação é o que conta o livro O Fole Roncou – Uma História do Forró, dos jornalistas Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues.
Em um ano em que Gonzaga vem sendo muito falado por conta do seu centenário, a obra resgata nomes conhecidos e alguns esquecidos, mas que foram vitais para dar vida ao baião, reunindo histórias curiosas de nomes como Jackson do Pandeiro, Marinês, Dominguinhos, Anastácia, Antônio Barros, Genival Lacerda, Elino Julião, entre outros.
 
“O migrante nordestino que, com inspiração e perseverança, protagonizou — por meio da música — uma pungente história de superação”, diz Carlos, ao comentar que são os próprios habitantes do Nordeste os protagonistas da trajetória do baião.
Já Rosualdo coloca “Gonzaga como a espinha dorsal” dessa saga, mas reconhece que ele “não conseguiria levá-la tão longe sozinho”. “Foram os compositores a quem ele se juntou e os muitos intérpretes a quem ele deu força que o elevaram ao posto de rei. Não existe um rei sem súditos”.
 
Gonzaga e o amigo compositor Onildo Almeida, um dos personagens do livro
O cantor Luiz Gonzaga
 
 
Onildo Almeida é um desses. Natural de Caruaru, em Pernambuco, Onildo deu mais de 20 composições a Gonzaga, entre elas “A Feira de Caruaru”. Quando achou a música do amigo, Gonzaga logo lhe cobrou: “Como é que você tem um negócio desse e não me mostra?”. O rei do baião gravou, e o resto é história. O livro apresenta os originais dessa canção e de algumas outras, cedidos pelo próprio Onildo, hoje com 83 anos.
“Histórias de compositores como o paraibano João Gonçalves, autor da letra de ‘Severina Xique-Xique’, e do pernambucano João Silva, que escreveu ‘Danado de Bom’ e é o autor com maior número de músicas gravadas por Luiz Gonzaga, são pouco conhecidas pelo grande público. A fantástica trajetória do sanfoneiro e produtor Abdias, do sertão da Paraíba para a direção de uma grande gravadora (CBS) no Rio, também é um capítulo à parte e que não havia sido registrado em um livro”, diz Carlos.
 
Com todos esses personagens, o título refaz a trajetória do forró desde meados dos anos 20 – dos primeiro grupos e composições à queda de prestígio com a chegada da Jovem Guarda – até os dias de hoje, com a ascensão do forró universitário e eletrônico.
“Como todo gênero musical, o forró foi atingido pelo tempo, pelas mudanças de costumes, pelas inovações tecnológicas, mas, ao mesmo tempo em que surgem novas tendências e misturas, ele continua sendo produzido de uma forma mais aproximada do original”, comenta Rosualdo.
 
OS PORNOFÔNICOS
 
Além de apresentar personagens e lembranças dos bastidores do baião, o livro revela um detalhe curioso e desconhecido por muita gente: a censura que cantores e compositores do gênero também sofreram nos anos 70, durante a ditadura militar. O motivo eram as letras de duplo sentido.
 
Parte dessa história, que permanecia inédita, é contada em um dos capítulos, com o sugestivo título “Ô lapa de tesoura!”, com base nos documentos da Polícia Federal consultados pelos autores no Arquivo Nacional, em Brasília.
 
Um dos perseguidos foi João Gonçalves, autor de “Severina Xique-Xique”, por causa do refrão de duplo sentido “O bode comendo acaba” na música “Meu Cariri É Assim”. O álbum foi proibido e 3,6 mil discos foram queimados.
 
Também caíram nas mãos dos censores canções como “Munguzá de Coco”, de Genival Lacerda, “Vendedora de Rapé”, de Messias Holanda, “Pescaria em Boqueirão”, de João Gonçalves, entre outras.
 
LIGAÇÃO AFETIVA
 
Assim como boa parte dos personagens da obra, Carlos e Rosualdo são nordestinos e mantêm há tempos uma ligação próxima com o forró.
“O forró é parte de minhas primeiras referências musicais. Eu vivi até os 13 anos no interior da Paraíba, nas cidades de Malta e Patos, onde esse gênero era algo natural ao ambiente, principalmente nos períodos juninos”, conta Rosualdo.
 
Já Carlos, nascido em João Pessoa, cresceu na década de 1970 escutando Genival Lacerda, Gilberto Gil, Elba Ramalho e Alceu Valença no rádio. Depois, mudou-se para Brasília, onde diz ter descoberto o rock. Se no livro Renato Russo — O Filho da Revolução, de sua autoria, ele diz ter resgatado lembranças da sua juventude brasiliense, “em O Fole Roncou resgatei muitas reminiscências da infância, como as festas juninas em fazendas paraibanas e pernambucanas, sempre movidas a músicas como ‘Procurando Tu’ e ‘É proibido cochilar’”, relembra.
 
O livro 'O Fole Roncou', conta a história do forró
Talvez tenha sido essa ligação afetiva com o gênero o motivo pelo qual a dupla percebeu que entre tantos trabalhos sobre rock nacional e bossa nova, ainda havia uma lacuna a ser preenchida: contar a história do forró e do baião. Embora tenham sido publicadas biografias de Luiz Gonzaga (A Saga do Viajante, de Dominique Dreyfuss) e de Jackson do Pandeiro (O Rei do Ritmo, de Fernando Moura e Antônio Vicente), nenhum livro se debruçou sobre a trajetória desses gêneros.
 
“Acho que essa ausência é reflexo de uma visão limitada do forró, como se este fosse um gênero ‘menor’. Visões assim perdem de vista importantes aspectos, como o fato de os principais compositores do forró — Humberto Teixeira, Zé Dantas, Antonio Barros, João Silva — terem conseguido retratar, com singeleza e precisão, a vida e os sonhos da região mais pobre do país. São cronistas que mereciam ser mais reconhecidos por esse trabalho de dar voz a milhões de anônimos”, diz Carlos.
Bem disse Tom Jobim: “Se eu fosse editor, ia buscar coisas no Nordeste: as coisas mais geniais do mundo estão lá”.
 
As 5 músicas que contam a história do forró, por Carlos e Rosualdo:
 
“Baião” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira): música de 1946, uma declaração de amor ao baião e um dos muitos sucessos da dupla Gonzaga/Teixeira. 
 
“Peba na Pimenta” (João do Vale): um dos hits do baião, escrita pelo compositor maranhense, que é autor também de “Carcará”, música famosa na voz de Maria Bethânia.
 
“Procurando Tu” (Antonio Barros): a canção foi o primeiro sucesso de Barros entre 1971 e 1972, gravada pelo Trio Nordestino. Entre as mais de 100 versões da música estão as regravações de Genival Lacerda e Jackson do Pandeiro. 
 
“Severina Xique-xique” (João Gonçalves): a composição foi um grande sucesso na voz de Genival Lacerda. Gonçalves era conhecido como o "rei do duplo sentido". Foi apelidado de rei do minhocão devido ao refrão da música "Pescaria em Boqueirão": “Ô lapa de minhoca/ Eita que minhocão/ Com uma minhoca dessas/ Se pega até tubarão”.
 
“Eu Só Quero um Xodó” (Dominguinhos e Anastácia): uma das músicas mais famosas do forró e carro-chefe do sanfoneiro, ao lado de Anastácia. Segundo Carlos e Rosualdo, a cantora mora em São Paulo há 50 anos e não perdeu um antigo costume nordestino: receber visitas com café e bolo. 
 
 
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