Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 11.11.2011 11.11.2011

O filósofo Vilém Flusser e as relações humanas na era digital

Por Bia Carrasco
 
Ele não presenciou os avanços da tecnologia de hoje, mas enxergou à frente e discutiu as profundas mudanças que isso causaria no comportamento e na vida das pessoas. Em outubro, completou-se 20 anos desde que o filósofo Vilém Flusser sofreu um acidente de carro que lhe custou a vida. Décadas depois, na era digital que se consolida, sua obra é novamente discutida e refletida por diversos intelectuais.
Com ascendência judaica e diante da invasão nazista, em 1939 Flusser deixou o seu país natal, a República Tcheca, e mudou-se para a Inglaterra. No ano seguinte, ainda fugindo do nazismo, veio para o Brasil, onde morou durante quase toda a sua vida. Considerado um dos mais importantes intelectuais na área de comunicação, em 1970 iniciou a sua cruzada para demonstrar como a tecnologia modificaria a relação entre as pessoas.
O ensaio como reflexão
Conhecimento, bagagem cultural ou hierarquia não eram importantes nas discussões de Flusser. Para ele, o interlocutor deve ser valorizado, pois as diferenças e contradições fazem parte da existência humana e ajudam a gerar mais conhecimento. "Ler e discutir Flusser se tornou uma forma de reconhecer e respeitar a possibilidade do 'outro' para se tornar 'eu mesmo', ou seja, essencial para os dias de hoje", observa Murilo Jardelino da Costa, tradutor de A Escrita: Há Futuro para a Escrita?, do filósofo, e de outra edição que acaba de ser lançada e traduzida em parceria com Clélia Barqueta, Pensar entre Línguas: a Teoria da Tradução de Vilém Flusser, de Rainer Guldin.
Flusser não era jornalista e nem escrevia tratados científicos. Ao usar o formato do ensaio para expor seus pensamentos, o filósofo renuncia a um ponto de vista hegemônico. Segundo José Eugênio Menezes, professor do Programa de Mestrado em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, ao preferir esse gênero de escrita, "o autor incita os interlocutores a refletirem e a escreverem complementos. Flusser não fez discursos sobre a comunicação, ele provocou diálogos nos quais continuamos envolvidos".
 
Da falta de pátria, a pluralidade
Os diversos exílios de Flusser foram encarados por ele como problemas de tradução e retradução. Ele se considerava um bodenlos, palavra alemã que pode ser traduzida como “sem pátria”, “sem fundamento”, “sem chão”, e que foi escolhida como título de sua obra Bodenlos – Uma Autobiografia Filosófica. "Escrevendo em quatro línguas (alemão, português, inglês e francês), Flusser traduzia e retraduzia seus próprios textos e, a partir dessa prática, refletia também sobre a tradução", pontua Murilo.
 
Para o filósofo, essa apatricidade não significava a falta dolorosa de uma pátria única, mas a sobreposição libertadora de muitas pátrias diferentes. "Uma solução para transcender essa apatricidade foi a prática de tradução e de retradução como construção de pontes de entendimento, um ir e vir precário, porém esclarecedor, entre ilhas de línguas e margens estranhas. Trata-se de uma escrita plural, que retrata esse projeto existencial", observou Rainer Guldin.
 
O código digital como alfabeto
Os símbolos rupestres nas cavernas, os hieróglifos egípcios e o alfabeto que conhecemos hoje são algumas formas que, ao longo da história, diferentes sociedades encontraram para se comunicarem. Com os avanços tecnológicos, a imagem surge como um nova (e importante) forma de interação. Por meio da televisão, do computador, da fotografia, do cinema e até mesmo dos celulares e tablets, o homem se vê diante de um momento histórico em que as imagens produzidas por aparelhos invadem a sua vida como um todo.
 
Em A Escrita: Há Futuro para a Escrita?, Flusser aborda como a escrita produzida por meio de máquinas (como os textos reproduzidos na tela do computador, anúncios ou legendas de filmes) é diferente daquela colocada no papel. "O que o filósofo explica é que, no novo contexto, em vez de escritores, há programadores; em vez do código alfabético, o código binário [junção da escrita e da imagem]; em vez de textos que se dirigem ao leitor, prescrições para as máquinas e, em vez de obras, programas de computador. Poderíamos, então, a partir do que ele diz, pensar que temos e teremos dois tipos de escrita?", indaga Murilo.
 
Segundo José Eugênio, o filósofo contribui para uma reflexão sobre o nosso cotidiano, que é marcado pelo uso de tecnologias. "Ele questiona a nossa liberdade e criatividade no uso de tantos equipamentos", comenta o comunicador, ao acrescentar que Flusser lançou uma investigação sobre a relação entre o nosso “ser offline” [em que há contato direto com outras pessoas] e o nosso “existir online” [em que o contato é mediado por aparelhos tecnológicos], conforme disse Siegried Zielinski, atual diretor do Arquivo Flusser, em Berlim.
Em sua obra, Flusser ainda discute o desaparecimento total do alfabeto que utilizamos hoje, assim como o de todas as máquinas que o utilizam. "O prognóstico dele para o futuro chega a parecer ficção científica", comenta Murilo ao pontuar que o filósofo, por outro lado, defende que somos todos filhos da escrita, por isso seria difícil apagar toda a bagagem cultural acumulada. "Se assim for, o que desaparecerá será somente a escrita que necessita do suporte do papel?", questiona o tradutor.
 
Amante da literatura e da escrita, Flusser temia o fim dos livros, da leitura crítica e dos leitores. Mas ele não se manteve paralisado. Ele convida o leitor a caminhar junto a ele para compreender o futuro que já era anunciado quando escreveu os seus ensaios. "O filósofo põe a nu o ato de escrever e o de receber o escrito, preparando-nos para adentrar com mais consciência no universo das novas tecnologias, avaliando o que perderemos e o que se modificará", diz Murilo.
 
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