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O fenômeno brasileiro do ‘one hit wonder’

Por André Bernardo
 
A cena já se tornou um tanto comum nos shows de Markinhos Moura. No espetáculo “Eternamente Elis”, em que presta homenagem a uma de suas cantoras favoritas, o cantor interpreta sucessos como “Casa no Campo”, “Upa Neguinho” e “Como Nossos Pais”.
 
A certa altura, um fã, mais indignado, grita da plateia: “Canta ‘Meu Mel’!”. Entre irônico e paciente, Markinhos explica que Elis nunca gravou “Meu Mel” e dá continuidade ao show.
 
“No camarim, sempre aparece alguém para protestar. Daí, explico que não dá para misturar os repertórios. O público precisa evoluir com o artista”, argumenta Marcus Antônio Sampaio Moura, que ficou conhecido em todo o Brasil em 1987, após gravar “Meu Mel”, versão de “Music”, do cantor francês F.R. David.
 
“O curioso é que “Meu Mel” ficou de fora do LP porque a versão demorou a ser liberada. Depois disso, gravei umas fitas cassete e as distribuí nas rádios. Logo, a gravadora resolveu lançar um compacto simples com a música”, recorda o cantor, que acabou de lançar Mulheres e Canções, com a participação de Zezé Motta, Amelinha e Jane Duboc, entre outras.
 
Para não passar pelos mesmos apuros que Markinhos Moura, Byafra tomou uma decisão estratégica: já abre os shows com “Sonho de Ícaro”.
 
Segundo ele, a explicação para o sucesso dessa canção, composta por Piska e Cláudio Rabello, é quase psicanalítica.
 
“’Sonho de Ícaro’ faz sucesso até hoje porque fala de um arquétipo universal. Tenho outras músicas que, por terem refrão fácil, deveriam ter feito até mais sucesso e não fizeram”, reconhece Maurício Pinheiro Reis.
 
Sob o nome artístico de Byafra, ele lançou 12 álbuns de estúdio e cinco coletâneas. Das músicas gravadas, oito delas, como “Helena”, “Vinho Antigo” e “Seu Nome”, foram parar em trilhas de novelas.
 
Mesmo assim, quase 30 anos depois, ainda tem a imagem associada a “Sonho de Ícaro”. “Por pouco, o LP Existe uma Ideia não foi lançado sem ‘Sonho de Ícaro’. O álbum já estava praticamente fechado, mas o diretor artístico Mazzola disse que ainda faltava uma música de impacto nele. Foi quando o Piska me mostrou uma melodia que tinha acabado de compor”, lembra Byafra, que lança, em breve, seu primeiro CD ao vivo.
 
 Maravilhas de um sucesso só
 
No Brasil, Markinhos Moura e Byafra podem ser considerados representantes do fenômeno “One Hit Wonder”. Ou “Maravilhas de Um Sucesso Só”, em livre tradução.
 
É assim que são conhecidos, nos países de língua inglesa, artistas que alcançam um sucesso inimaginável com uma canção e nunca mais conseguem repetir tal proeza.
 
Por aqui, há casos irrefutáveis como o do cantor Maurício Alberto Kaisermann, mais conhecido como Morris Albert, que até hoje é associado à música “Feelings”.
 
Lançada em 1975, chegou a ser gravada por Johnny Mathis, Elvis Presley e Frank Sinatra. Ou Hermes Aquino, responsável pelo sucesso “Nuvem Passageira”, de 1976. Ou ainda Rosana, intérprete do hit “O Amor e o Poder”, de 1987, aquele do refrão: “Como uma deusa / você me mantém / e as coisas que você me diz / me levam além”. 
Markinhos Moura
 
 
Explicar o sucesso de canções como “Feelings”, “Nuvem Passageira” e “O Amor e o Poder” não é tarefa das mais simples. “Não existem fórmulas para o sucesso. Se existissem, todos os compositores do mundo seriam milionários e bem-sucedidos”, raciocina Ritchie.
 
Tavito concorda. Mas se arrisca a tentar explicar o sucesso de sua canção mais famosa: “Rua Ramalhete”, de 1979.
 
Composta em parceria com Ney Azambuja, a música faz referência à ruazinha de um quarteirão só em Belo Horizonte, onde a família de Luís Otávio de Melo Carvalho, o Tavito, morava quando ele ainda era adolescente.
 
Era lá que os alunos do tradicional Colégio Sacré Coeur de Marie, citado na letra da música, costumavam passear à tarde depois das aulas. “Costumo dizer que nós, seres humanos, somos egoístas por definição: consumimos sempre a peça de arte na qual nos enxergamos e nos reconhecemos”, filosofa Tavito.
 
“O sucesso de uma canção acontece quando ela aborda temas onde o maior número possível de pessoas se enxerga e se reconhece”, conclui o ex-integrante do grupo Som Imaginário.
 
Como não poderia deixar de ser, “Rua Ramalhete” é uma das 14 faixas do mais recente álbum do cantor, Tudo, o sexto de sua carreira solo.
 
O segredo do sucesso
 
Ritchie
Com 40 anos de carreira e 10 álbuns no currículo, Richard David Court, o Ritchie, já compôs inúmeros sucessos, como “A Vida tem Dessas Coisas”, “Pelo Interfone” e “Casanova”.
 
Mas nenhum deles repetiu a façanha de “Menina Veneno”. Em fevereiro de 1983, um compacto simples com a música vendeu 500 mil cópias.
 
Apenas quatro meses depois, Voo de Coração bateu a casa de 1,2 milhão de cópias vendidas. Detalhe: entre as 10 faixas do LP, lá estava, mais uma vez, a infalível e onipresente “Menina Veneno”. Na ocasião, ninguém da gravadora levou muita fé na música composta por Ritchie em parceria com o poeta Bernardo Vilhena.
 
 “Os executivos duvidavam que um estrangeiro pudesse fazer sucesso no Brasil cantando em português”, relembra o cantor e compositor britânico, que acabou de lançar 60, seu mais novo álbum, só de covers em inglês. 
 
Mas até quando Ritchie pretende continuar cantando “Menina Veneno”? Será que ele nunca pensou em deletá-la de seu set list? “Nunca fiz e jamais faria isso. Seria a mesma coisa que o Paul McCartney deixar de cantar ‘Yesterday’”, compara.
 
A cantora sul-mato-grossense Tetê Espíndola dá razão a Ritchie. Com a canção “Escrito nas Estrelas”, composta por Carlos Rennó em parceria com Arnaldo Black, Tetê ganhou o “Festival dos Festivais”, promovido pela TV Globo em 1985.
 
Até hoje, a música, que rendeu à cantora um disco de ouro, tem lugar cativo nos shows que ela faz por todo o país.
 
“O público sempre espera que eu cante essa música. E eu jamais vou decepcioná-lo”, tranquiliza a cantora, que nasceu Teresinha Maria Miranda Espíndola. V
 
inícius Cantuária reforça o coro. Ele se diverte ao lembrar que em todo o lugar onde se apresenta, seja na Europa, seja nos Estados Unidos, tem sempre algum brasileiro na plateia que, em alto e bom som, pede sua canção mais famosa: “Só Você”, gravada em 1983. “
 
Quando compus ‘Só Você’, não imaginei que ela pudesse fazer tanto sucesso, e muito menos que fosse durar tanto tempo. Ainda hoje, encontro pessoas que vêm falar comigo sobre como essa música foi marcante na vida delas. Eu só posso ficar feliz e agradecido com esse reconhecimento”, emociona-se Vinícius.
Tetê Espíndola
 
 
 
 
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