Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 26.07.2012 26.07.2012

O fantástico mundo de Liniers

Por Rafael Roncato
"Estou cansado, mas realmente feliz", diz Liniers ao entrarmos no taxi. Ele acaba de autografar mais de 200, 300, 400, sabe-se lá quantos livros, durante quatro horas seguidas. E eu o esperava por todo esse tempo, hora olhando a alegria das pessoas por encontrar o quadrinista argentino, vendo a simpatia dele ao fazer um desenho especial para cada um.
 
Livros, sorrisos e um arranhar de portunhol preenchiam a sala do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, naquela noite do dia 11 de junho. Um dia antes, Liniers estava no Rio de Janeiro para a abertura da exposição 'Macanudismo: quadrinhos, desenhos e pinturas por Liniers', na CAIXA Cultural.
"Você está parecendo um popstar aqui no Brasil", brinquei durante meu autógrafo. Liniers riu, e sem tirar os olhos do papel, emendou: "Isso só me traz alegria".
 
Antes mesmo de nossa conversa no taxi rumo ao hotel, tive a chance de saber ainda mais sobre ele durante o evento de lançamento de Macanudo #5.  Enquanto ele assinava uma montanha de livros, o MIS passava duas sessões do documentário Liniers, el trazo Simple de las Cosas, de Franca González.
Franca e Liniers se conheceram quando moraram juntos em Montreal, no Canadá, por conta de uma bolsa de estudos. A condição da viagem era que os dois argentinos dividissem o mesmo teto.
 
E lá, o tempo fez da convivência uma amizade. Aquele jovem maluco – como ele próprio se declara – e seus desenhos despertaram o interesse da documentarista. Aproveitando uma série de gravações de Liniers durante o período no exterior, Franca  decidiu fazer de seu amigo um personagem a ser estudado.
 
Cena do documentário Liniers, el trazo simple de las cosas, de Franca González
"Se visse a minha vida, veria que ela é tão pouco interessante." Na tela, o autor tenta desencorajar o interesse por ele, talvez por uma timidez ou afim de proteger-se de Franca e sua câmera. No entanto o que todos na sala veem em mais de uma hora de filme é uma verdade parcial. Não que a vida de Liniers seja desinteressante e monótona, mas é todo o conjunto que nos deixa intrigados.
 
Há um mundo todo por trás de Ricardo Liniers Siri e suas tiras. Um mundo à parte, onde o autor se desenha como um coelho, de traço e humor simples, às vezes bobo e alegre, às vezes sem sentido e melancólico. As pessoas ficam vidradas em saber mais.
Liniers começou com o humor de Macanudo há dez anos, quando ainda era esse jovem maluco de 27 anos, tendo espaço na última página do jornal argentino "La Nación". De lá para cá seu traço e suas sacadas repletas de delicadezas conquistaram a admiração das pessoas.
 
 
Hoje, personagens como a pequena Enriqueta, o gato Fellini, o amigo imaginário Olga, o Misterioso Homem de Negro, entre duendes e pinguins, estampam de tudo: camisetas, canecas, cadernos e, claro, livros.
 
Na verdade, muitos livros: Macanudo 1 a 8 com as tiras do jornal, a compilação de Bonjour, o infantil  Lo que hay antes de que haya algo, como também suas viagens em Conejo de Viaje e seus rabiscos de cadernos de desenhos em Cuadernos, claro.
No taxi, aproveitando o curto tempo da entrevista sobre rodas, busco tirar todas as dúvidas que o filme não saciou. Os fios brancos no cabelo e na barba de Liniers já mostram que ele não é mais tão novo assim, estranho por não condizer com o humor praticamente infantil e singelo que vemos no papel. É exatamente essa a questão, qual o tipo de humor que há nele?
 
"Tento não descrevê-lo porque seria como fechá-lo a uma definição. Tem um humor às vezes absurdo, às vezes terno, às vezes de observação, às vezes até humor negro." Na sequência, uma série de tiras de Macanudo passa pela minha cabeça, relembrando exatamente cada um desses estilos; e antes mesmo de uma nova pergunta, ele solta:  "O que gosto do humor, para que ele seja interessante, é que tenha um pouco de surpresa. Então Macanudo nunca se sabe o que vai ser e acontecer."
Uma das evidentes armas do argentino para um humor intrigante é  exatamente pegar o leitor pela imprevisibilidade. As sacadas de uma piada podem vir de um filme, um seriado ou até mesmo de um ícone da cultura pop.
 
Tudo é referência para Liniers. "Todas essas coisas me influenciam no desenho como autor. Então, minha maneira de agradecer isso tudo é colocar referências de todos os artistas em minhas histórias, de gente que me comoveu".  De repente para de falar. Olha pela janela como se estive buscando alguma palavra perdida, ou algo que pudesse definir ainda mais seus quadrinhos. Sem virar o rosto, fala com a voz serena: "Muitas vezes tento gerar o mesmo tipo de emoção que eles criaram em mim".
 
Já que entramos no assunto Macanudo, lembro que a série completa 10 anos e pergunto o quanto ela é importante para ele. "É  uma tira muito de autor. Algo muito pessoal, muito sobre mim e sobre meu mundo. É como sempre me faço perguntas, e acabo me transformando nesses desenhos". E como foi essa transformação durante os anos? "Macanudo se transformou como eu me transformo. Não sei como é agora, nem como era antes, mas sei que algo mudou", reflete. "Não gosto que Macanudo seja sempre o mesmo."
De fato as tiras nunca são as mesmas. De um quadro inteiro, de simplicidade quase invejável, no qual a pequena Enriqueta observa as estrelas ao lado do gato Fellini, dizendo "Quando algo é belo não precisa de marketing", até uma série de quadros interconectados mostrando a interação e a maluquice dos duendes; nada é igual.
 
Essa falta de um personagem icônico, que pudesse deixá-lo ainda mais famoso, marcando sua presença nos quadrinhos, me deixava intrigado. Por quê não se fixar em apenas um? A resposta está na ponta da língua: "Para experimentar vários tipos de humor"; faz sentido.
 
Por exemplo, com Enriqueta é uma tirinha clássica estilo Mafalda ou Charlie Brown, personagens com uma filosofia infantil, mas afiada. Quando o quadrinista quer falar de coisas absurdas, aparecem os duendes, ou até mesmo o Misterioso Homem de Negro. "Quero investigar todas as formas de humor. E mesmo depois de dez anos, continuo me divertindo."
Certa vez o argentino disse que os desenhos funcionam como um diário pessoal. Seria realmente através dos desenhos a melhor forma de expressão? "É uma maneira muito linda e muito rica de me expressar", conta entusiasmado. Liniers aproveita o assunto e leva à discussão a recente liberdade dos quadrinistas em se fazer arte sem amarras. O que antes era feito para vender, produzindo humor ou histórias de super-heróis, hoje o mercado permite que as narrativas transitem livremente, apoiadas na escolha do autor e na densidade além do "permitido".
 
"Recentemente me parece que os quadrinhos possuem a mesma liberdade que Virginia Wolf ou Saramago tinham para escrever", explica o argentino com uma visível euforia do atual período. "É maravilhoso ter essa liberdade. Nunca se imaginou alguém desenhando sobre o holocausto, e Art Spielgelman fez isso… Creio que o mercado abriu e se separou desse passado."
 
Quando nos damos conta, o taxi já encosta na porta do hotel. Mesmo de semblante cansado, mas sempre com o sorriso no rosto, Liniers convida para continuar a entrevista. Penso que seria abusar do cansaço de alguém tão macanudo* depois de uma noite toda desenhando para os fãs. Então agradeço a ótima entrevista. Nos cumprimentamos. Ele entra no hotel e eu sigo com uma dúvida: "Quem seria o Misterioso Homem de Negro?" Bom, deixa para lá, nem tudo tem explicação nessa vida. Nem mesmo as tiras de Liniers.
*Em espanhol, macanudo significa extraordinário, bacana ou supimpa

Macanudismo, quadrinhos, desenhos e pinturas de Liniers
Onde: Caixa Cultural Rio de Janeiro – Galeria 2 – Av. Almirante Barroso, 25, Centro (Metrô: Estação Carioca) Rio de Janeiro – RJ
Quando: 10/07 a 09/09 – de terça a domingo, das 10h às 21h.
Mais informações: (21) 3980-3815
 
Assista ao video promocional da exposição:
 
 
 
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