Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 21.05.2009 21.05.2009

O falso Éden

Por Cavi Borges
Fotos de divulgação

O diretor grego Constantin Costa-Gravas esteve no Brasil no mês de abril para uma pré-estréia nacional de seu novo filme Éden à l’Ouest, durante o popular Festival CinePE, em Pernambuco, que aproveitou para fazer uma retrospectiva da obra desse instigante diretor. Aos 76 anos, Costa-Gavras já ganhou uma Palma de Ouro em Cannes por Missing (1982) e também levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim com o thriller Muito mais que um crime (1989). Porém, seu filme mais importante, sem sombra de dúvidas, foi Z (1969), que trata da violenta ditadura instituída na Grécia, nos anos 1960, que lhe valeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1970. Este filme acabou de completar 40 anos e teve uma sessão especial apresentada pelo próprio diretor dentro da programação do CinePE.

Atualmente, o diretor grego dirige a Cinemateca Francesa, em Paris, uma das instituições mais respeitadas do mundo no que diz respeito à preservação de filmes. Costa-Gravas chegou à França exilado nos anos 1960 e lá desenvolveu seu cinema descrito como político, construído em cima de uma estética direta e voraz. Na verdade, seus filmes tiveram uma grande relevância na época em que foram feitos, captando uma revolta contra um estado de coisas num período revolucionário em inúmeros aspectos, focando muitas vezes a repressão de regimes políticos contra o cidadão comum, que lutava sob a violência pelo direito de expressão e democracia.

Os principais filmes de Gavras no período entre 1960 e 1970 – Z, Estado de Sítio e Sessão Especial de Justiça – foram perseguidos pela censura no Brasil durante a ditadura militar, todos cortados ou simplesmente proibidos para a exibição, aspecto que apenas aumentou a voltagem e o interesse pelos mesmos. Mesmo assim, marcaram época em seus respectivos lançamentos tardios já na chamada abertura, no final dos anos 1970. Não deixa de ser curioso que, com a chegada dos anos 1980, os filmes de Costa-Gavras tenham se voltado para dramas internos e individuais, com personagens que entram em choque com erros do passado e, mais recentemente, com a sociedade aberta como um todo. Foi também nessa época que passou a firmar parcerias com Hollywood.

No último Festival de Berlim, o diretor apresentou Eden à l’Ouest, que trata do imigrante ilegal, um dos assuntos mais debatidos na Europa atualmente. É inegável a relação de Eden à l’Ouest a temas atuais que ganham os noticiários do mundo, como a exploração sexual e o subemprego a que têm que se submeter os san papiers (sem papel), como são chamados os imigrantes ilegais na França. O filme aborda o grande tema do cinema europeu já há alguns anos: o choque entre ricos e pobres, numa história narrada pela trajetória de um clandestino pobre, Elias, interpretado pelo italiano Riccardo Scamarcio, oriundo do leste europeu rumo à Europa rica, representada aqui por Paris. Em entrevista coletiva no CinePE, Costa-Gravas falou de seu último filme e de sua carreira no cinema.

ÉDEN À L'OUEST

Costa-Gravas. O imigrante ilegal é extremamente frágil, na França são cerca de 350 mil trabalhadores ilegais. Com o temor constante de ser deportado para uma realidade que ele ou ela não deseja mais, há uma facilidade de se sujeitar a tudo. Isso está no filme em momentos que exploram precisamente essas situações relacionadas ao sexo. São idéias muito específicas escritas por mim e pelo co-roteirista Jean-Claude Grumberg em cenas que teriam como eixo questões que nos afligem como seres humanos. Eu queria também fazer um filme que mesclasse o drama com uma leveza, não exatamente com a comédia. Essa é uma idéia [a leveza] que me interessou muito nesse filme e já tinha me interessado em O Corte [seu filme anterior].

A LINGUAGEM DESTE FILME

Costa-Gravas. A linguagem depende da história, muito mais do que o período em que o filme é feito. Tem que estar conectada com o conteúdo do filme. Nos últimos 20 anos, tanto para os espectadores como para nós, realizadores, a linguagem do videoclipe mudou completamente a capacidade de entender o cinema. Impossível não pensar nesse tipo de mudança ao fazer um filme. Quis fazer um filme que tivesse essa pressa, mas sem apelar para a gag. Jacques Tati dizia que não é necessário fazer gags para ser engraçado, basta olhar para a sociedade.

CINEMA POLÍTICO

Costa-Gravas. Minha formação na universidade é literária. A formação política percebida nos meus filmes talvez venha da vida, por ter vivido num país [a Grécia] ocupado pelos nazistas, depois vitimado por uma guerra civil que ainda passou pela Guerra Fria. Já na França, tive muita sorte de encontrar pessoas como Yves Montand e Simone Signoret, sem radicalismos ou preconceitos e muito pragmáticas na forma como vêem a sociedade. O que um diretor pensa aparece nos filmes. Para mim, parecia que faltava alguma coisa a ser feita no cinema. E eram histórias que me interessavam.

DOS FILME P OLÍTICOS AO COMNENTÁRIO SOCIAL

Costa-Gavras. Não vejo diferença entre filmes políticos e de cunho social. Às vezes é mais importante termos um filme de aspecto social, e aí sermos inevitavelmente políticos.

RELAÇÃO COM A AMÉRICA LATINA

Costa-Gravas. A América Latina é um laboratório social e político para o observador. Essa minha impressão teve início quando buscava a história de um embaixador americano que foi da Grécia para a Guatemala. Investigando esse personagem, encontrei também um tema recorrente nos meus filmes, a intervenção dos Estados Unidos na política do subcontinente. Perdi grandes amigos para a repressão política nesse período.

> Assista ao trailer de Éden a l'Ouest 

 
 
 

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