Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 18.08.2014 18.08.2014

“O fado é a verdade do canto e das suas palavras”, diz o artista português Camané

Por Priscila Roque
 
O fado tal como conhecemos hoje nasceu com os jovens marinheiros que, ao voltarem do mar para Lisboa, no século XIX, cantavam a saudade e as mágoas passadas nas pequenas tascas do bairro de Alfama. Com a profissionalização do gênero, chegando aos restaurantes e à burguesia, formou-se a chamada primeira geração, que perdurou décadas e se tornou uma escola para as demais.
 
As fronteiras foram rompidas na década de 40, ainda no início da carreira de Amália Rodrigues. A Rainha do Fado apresentou a música portuguesa ao mundo e deixou sementes em inúmeros países, mas sobretudo nos lares da terra de Fernando Pessoa.
 
Um de seus eternos aprendizes é Camané, chamado Príncipe do Fado, que desembarcou no Brasil neste mês para duas apresentações durante o Festival de Fado, em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Essa será a segunda vez que vou atuar no País. Há cerca de 10 anos, cantei em São Paulo. Espero que as expectativas sejam recíprocas”, comenta o intérprete em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.
 
Sua trajetória começou cedo. Em uma família repleta de fadistas, vivia cercado por discos de Amália, Fernando Maurício, Lucilia do Carmo e Alfredo Marceneiro. Apesar de ter gravado a primeira música no finalzinho dos anos 1970, aos 12, foi somente alguns anos mais tarde que embarcou no circuito comercial. Assinou com a gravadora EMI em meados dos anos 1990, e tamanho talento o transformou em uma referência da atualidade.
 
RELAÇÕES COM O BRASIL
 
Em 2011, a canção “Fado Sagitário” entrou para a trilha sonora da novela Fina Estampa, exibida pela Rede Globo – um pano de fundo para as cenas românticas entre a protagonista Griselda (Lília Cabral) e o português Guaracy (Paulo Rocha). Para Camané, esse destaque foi importante para se aproximar do País. “Foi muito bom. Tive um enorme retorno do público brasileiro em relação a isso. Todas as críticas e comentários foram fantásticos”, diz.
 
                                                                                           Augusto Brázio
Camané é irmão dos também fadistas Helder e Pedro Moutinho
 
Durante sua carreira, quebrou barreiras e levou também seu cunho fadista para outros projetos de gêneros musicais variados, como na banda Humanos – em que homenageou António Variações, um destaque da música pop lusitana que teve morte prematura – e ao lado dos Xutos & Pontapés, uma das bandas que consolidaram o rock em Portugal. Mas será que tamanha ousadia poderia chegar também a um intercâmbio brasileiro? “Por que não? Pode acontecer, desde que me sinta identificado com o projeto e o artista”, revela.
 
PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE
 
A UNESCO reconheceu o fado como Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2011. O título deu um novo gás para o gênero e acabou por despertar, na última década, até mesmo o interesse do público mais novo. “Penso que se deve ao fato de os jovens atuais terem perdido o complexo de gostarem de músicas mais antigas e tradicionais, olhando para o fado como algo que lhes pertence ou que podem entender de uma forma mais simples do que aparentemente parecia. O fato de o fado ter sido considerado Patrimônio também deu um grande impulso e uma maior visibilidade”, acredita Camané.
 
Um dos maiores símbolos de Portugal revela a melancolia do povo, textos de grandes poetas e o som de um típico instrumento musical que oferece identidade ao fado: a guitarra portuguesa. Há quem diga que o conjunto desses elementos é capaz de tocar até o mais duro dos corações. “O fado é a verdade do canto e das suas palavras. Quando é cantado com autenticidade, toda a sua expressão e emoção são transmitidas a quem o ouve, independentemente de entender as palavras ou não. Fado é a vida!”, emociona-se.
 
AS NOVAS GERAÇÕES
 
Durante o Festival de Fado no Brasil, Camané esteve acompanhado por duas jovens fadistas, Carminho e Raquel Tavares – que beiram os 30 anos –, e pelo projeto Amália Hoje, que revisitou o repertório de Amália Rodrigues e trouxe uma roupagem pop: uma geração revelada nos últimos 10 anos. “Acho isso fantástico. Espero que essa corrente não pare e que a qualidade vá sempre aumentando”, conta.
 
No mercado brasileiro, Mariza, António Zambujo, Carminho e Ana Moura parecem já ter encontrado formas de conectar Portugal ao Brasil, com agendas de shows, parcerias ao lado de artistas brasileiros e lançamentos de discos. Um cenário que pode trazer o gosto pelo fado novamente para esse lado do Oceano Atlântico. “A ponte da música tem de ser feita sempre nos dois sentidos, e o fado é a nossa música por excelência para essa troca”, completa Camané.
 
O poema “Ai Margarida”, de Álvaro de Campos, foi musicado por Mário Laginha e interpretado por Camané
 
 
 
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