Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.12.2012 28.12.2012

O Evangelho segundo Flávio Aguiar

Por Carolina Cunha
 
A Bíblia é o livro mais popular do mundo, e recontar suas histórias pode ser uma tentação para muitos escritores. O gaúcho Flávio Aguiar não só mordeu a maçã como caiu neste pecado com muito bom humor. O resultado é A Bíblia Segundo Beliel, da Criação ao Fim do Mundo: Como Tudo de Fato Aconteceu e Vai Acontecer, obra recém-lançada pela editora Boitempo. 
 
Na sátira do escritor, os fatos bíblicos são narrados por personagens considerados secundários, como Beliel, um anjo desgarrado que faz o papel de “editor” do evangelho. Quem também ajuda na tarefa é o escravo de Jó (que não jogava Caxangá), a pomba que Noé soltou da arca, o Querubim Ezaziel, que escapa do Sexo dos Anjos em Sodoma e Gomorra, ou Misgodeu, um faz-tudo do Inferno que, no livro, desabafa: “Antes do tal de Cristo bater na porta, todo mundo vinha para o Inferno”.
Nessa história contada por anônimos bíblicos e celestiais, fatos bombásticos acontecem sob a ira e o amor de Deus, o todo-poderoso. O leitor descobre que Adão morria de tédio no paraíso, Eva tinha ciúmes de uma sirigaita chamada Lilith, Abel era um chato de galochas e Caim matou por acidente.
 
Professor aposentado de Literatura da USP, o veterano Flávio Aguiar já publicou mais de 30 livros. Hoje ele vive em Berlim, onde atua como pesquisador e correspondente internacional para publicações brasileiras. Da capital alemã, ele respondeu a perguntas do SaraivaConteúdo. 
 
Capa de A Bíblia Segundo Beliel
 
Como surgiu a ideia do livro? Como foi o processo de escrita, você pesquisou muito?
Flávio Aguiar. O livro veio surgindo dentro de mim, ao longo de meus estudos como professor de literatura. A Bíblia, ou as Bíblias, têm uma presença constante nas artes e na literatura. Quando lemos Machado de Assis, que era confessadamente ateu, a gente tropeça na Bíblia a cada passo. Acho que esse processo de leitura foi se acumulando, até explodir nessa vontade de reescrever o Livro Sagrado de pontos de vista inesperados. Mas isso é uma tradição bíblica. Por exemplo: os evangelistas cristãos reescreveram a Bíblia do Velho Testamento de um ponto de vista inesperado. A Vulgata traduziu a Bíblia para o Latim de um ponto de vista inesperado, tornando-se um dos livros mais influentes da Literatura do Ocidente. Martin Luther traduziu a Bíblia para o alemão de um ponto de vista inesperado. E assim por diante. Por que não Beliel? Mas reafirmo: o livro é fruto de décadas de leitura e pesquisa.
 
A Bíblia tradicional fala de mitos da criação e do fim do mundo. O que mais te surpreende ou te fascina nas histórias bíblicas?
Flávio Aguiar. O que eu sempre falava para meus alunos: a história bíblica é sexo, ação e violência o tempo inteiro. Melhor do que qualquer thriller ou policial, ou mesmo ficção científica atual. São mundos criados, destruídos, batalhas sem fim, seduções de todos os tipos, uma história profundamente humana e repleta de ideias avançadas, como as da igualdade entre homens e mulheres, os direitos das crianças, a redenção dos pobres e dos humildes, a revolução libertadora dos escravos… Depois, as Igrejas e Religiões institucionais deturparam tudo, transformando a palavra Criadora num discurso de opressão. Um dia elas pagarão por isso, nem que seja diante do Criador.
 
Como foi achar o humor escondido nessas histórias? Deus, que é sempre tão poderoso, pode ser um cara engraçado?
Flávio Aguiar. Cristo diz aos doutores do Templo: se este templo for destruído, eu posso reconstruí-lo em três dias. A interpretação canônica dessa passagem dos Evangelhos é a de que ele está prevendo a própria morte e ressurreição, em três dias. Os doutores riem: como pode ele sozinho reerguer em três dias um templo inteiro? Ora, Cristo está também tirando sarro deles, dizendo “Olhem, vocês não estão entendendo nada do que está acontecendo…”. São burros! Numa outra visada, não se pode deixar de considerar o Jeová do Velho Testamento um personagem algo cômico, sempre obcecado em tentar e recuperar a humanidade e em refazer a Criação. Ele parece meio inseguro sobre o que fez, esse gesto arriscado de criar algo não previsto na eternidade: a finitude, no tempo e no espaço. E com ela, o prazer. Os imortais não têm prazer, essa é uma sensação ligada à finitude. O prazer é prazer porque ele acaba.
 
Comente sobre a escolha do anjo Beliel como um dos protagonistas.
Flávio Aguiar. Beliel me veio de dois nomes bíblicos – dos textos apócrifos para o Vaticano: Baliel e Belial. Juntei-os, e deu Beliel. Criei-o, fi-lo andar pra lá e pra cá, e no sétimo dia descansei….
 
Você tem algum personagem preferido?
Flávio Aguiar. Além de Beliel, Misgodeu, o faz-tudo no Inferno, que esquenta as caldeiras e dá assessoria para outros infernos, como o muçulmano, o corintiano, o flamenguista, o comunista; a pomba que traz o ramo de oliveira para Noé depois do dilúvio; e as Sibilas, profetisas meio alopradas que preveem o que está acontecendo hoje. Sem falar em Caim, o injustiçado.
 
Você disse em entrevista que seu livro também trata de temas contemporâneos e pode ser uma leitura do nosso tempo. Pode dar algum exemplo?
Flávio Aguiar. O fim do mundo. Para onde nos voltamos, nos deparamos com uma ameaça de fim do mundo. Há o dos calendários religiosos, como o dos maias. Mas há também o do aquecimento global. E olhem a Europa: um mundo agonizante, arrastando para o ralo o estado do bem-estar social. Ainda bem que a América Latina está renascendo das próprias cinzas: ainda resta uma esperança.
 
O inferno parece um lugar mais legal do que o Paraíso?
Flávio Aguiar. Claro. No inferno qualquer um pode entrar. Parece galpão de gaúcho: sempre tem lugar pra mais um. Já no Paraíso, para entrar precisa ter carteirinha, ser membro, sócio remido ou em dia com as mensalidades, um saco! Se for brasileiro, precisa ter um santo forte como despachante, além de atestado de bons antecedentes, CPF, prova de estar em dia com o Tribunal Eleitoral, etc. E nenhum povo vai fazer guerra a outro para provar que seu Inferno é melhor. Já com o Paraíso é mais complicado.
 
 
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