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O essencial de Machado de Assis

Por Andréia Martins
O carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é considerado um dos principais nomes da literatura brasileira. Autor de diversos contos e de livros clássicos como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, se estivesse vivo, Machado teria completado 175 anos no dia 21 de junho.
Hoje, quem busca se aprofundar na obra do escritor pode encontrar um bom acervo na Academia Brasileira de Letras, a ABL, no Rio de Janeiro, com livros, objetos e discursos do autor, que presidiu a casa.
E aproveitando o aniversário do escritor, pedimos a quatro escritores brasileiros que dividissem com os leitores do SaraivaConteúdo o que para eles é essencial na obra de Machado. Veja o que disseram Noemi Jaffe, Luiz Ruffato, Marcelo Moutinho e Francisco Bosco.
 
NOEMI JAFFE: DOM CASMURRO
“Meu livro favorito do Machado é Dom Casmurro, embora seja muito difícil escolher entre ele e Memórias Póstumas de Brás Cubas”, diz Noemi sobre o livro escrito em 1889 e publicado em 1900.
 
“Como professora do Ensino Médio, ao longo de mais de 20 anos, gostava muito de acompanhar o percurso dos alunos na lenta descoberta de que o maior mistério do livro está na narração em primeira pessoa, que engana a todos. Gostava de ver os alunos entenderem que o assunto da traição não tinha importância, mas sim os argumentos que Bentinho reúne a favor de si mesmo. Ainda assim, fiz vários julgamentos simulados de Capitu, reunindo advogados, em que os alunos atuavam como juízes. Ela sempre foi considerada inocente”.
 
 
LUIZ RUFFATO: MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
Ruffato, autor de Eles eram muitos cavalos, Inferno Provisório e outros, escolheu um dos clássicos da literatura nacional. A história foi publicada como folhetim, entre março e dezembro de 1880 na Revista Brasileira, e só foi publicada em livro em 1881.
 
“É uma obra-prima dá literatura universal. É um dissecamento impiedoso da visão de mundo da elite brasileira e de sua maneira de se relacionar com o Brasil. Além disso, neste livro Machado radicaliza sua forma de narrar, estabelecendo um diálogo interessantíssimo com a tradição e a contemporaneidade”.
 
FRANCISCO BOSCO: O ALIENISTA
“Indico especialmente a leitura do conto O Alienista”, diz Bosco. O conto foi publicado em 1882, no livro Papéis Avulsos.
 
“Nele, estão colocadas, com humor cáustico e profundidade filosófica, as relações dialéticas entre doença e saúde, razão e loucura. Para um tempo como o nosso, em que o país ainda mais poderoso do planeta, os EUA, procura patologizar amplamente a vida humana, desde a infância, medicando e normatizando todos os cidadãos, esse conto de Machado de Assis pode operar como uma pílula de desconfiança, se não for um verdadeiro antídoto”.
 
 
MARCELO MOUTINHO: ESAÚ E JACÓ
“Nele aparece um dos traços mais interessantes do autor: a capacidade de sintetizar, em episódios aparentemente banais, marcas da sociedade brasileira. Bom exemplo é o episódio em que o conselheiro Aires, personagem e narrador do romance, faz ponderações a respeito da mudança do nome de uma confeitaria na Rua do Catete”, lembra o escritor. 
 
Custódio, o dono da loja, havia procurado Aires para pedir sua opinião sobre como batizar a loja, já que na véspera mandara pintar a tabuleta com o nome Confeitaria do Império. “Aires sugere que Custódio opte por Confeitaria República, mas o confeiteiro alega que o panorama poderia se alterar, com a volta da Corte. O conselheiro, então, acena com o meio-termo: Confeitaria do Governo. ‘Tanto serve para um regime quanto para outro’, resume ele. ‘Há, porém, uma razão contra’, rebate Custódio. ‘Vossa Excelência. sabe que nenhum governo deixa de ter oposição’. Mais atual, impossível”, comenta Moutinho.
 
 
 
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