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“O espectador engajado é o melhor crítico”, diz a jornalista Ana Maria Bahiana

Por Carolina Cunha
Há alguns anos, a jornalista e escritora Ana Maria Bahiana almoçava com uma amiga do ramo editorial.
 
O papo era sobre literatura, e a amiga dizia que quem escreve, lê livros de um jeito diferente. Curiosa, ela perguntou se a mesma coisa acontecia com os cineastas. “Claro que sim!”, respondeu a jornalista.
Ana Maria sabe o que fala. Ela praticamente respira cinema. Carioca radicada nos EUA, ela vive em Los Angeles desde 1987, bem pertinho dos estúdios de Hollywood. De lá, pode entrevistar astros e diretores e escrever sobre a indústria de cinema e televisão.
Além de ser correspondente de veículos brasileiros e internacionais, Ana Maria Bahiana faz parte da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, responsável pela premiação anual do Globo de Ouro.
Em casa, na sala escura do cinema ou em badalados festivais, a cinéfila assumida chega a assistir a mais de 400 filmes por ano. E também tem os seriados, que ganham cada vez mais peso em sua agenda. “As séries de TV hoje têm o mesmo rigor e orçamento de grandes produções”, diz.
Muitos dos seus textos pautam o que leitor tem interesse de assistir ou não. Mas ela não gosta de ser chamada de crítica. Prefere dizer que é uma artesã das palavras e observadora profissional.
Daquela conversa inicial com a amiga, em 2008, Ana Maria montou um curso que ensina alguns truques para o espectador assistir a um filme com olhos mais atentos. Agora, as ideias do curso e parte de sua bagagem de décadas na área estão num livro.
Lançado pela editora Nova Fronteira, Como Ver um Filme é como um guia para o leitor que busca ampliar a compreensão do que se vê na telona. Do roteiro à produção final, a autora destrincha as etapas e elementos que compõem uma obra cinematográfica.
O SaraivaConteúdo entrevistou Ana Maria Bahiana por telefone. Na conversa, a jornalista conta um pouco sobre a experiência de ir ao cinema e revela: “As pessoas não sabem o que estão vendo”.
O que você espera que o leitor faça depois de ler o seu livro?
Ana Maria Bahiana. Espero que comece a se aventurar por caminhos que normalmente não iria. Comece a ver filmes que não veria e a se arriscar. Tendo esse arcabouço do que procurar, você se torna um espectador mais aventureiro e aumenta a sua visão.
Você disse que a melhor plateia é a ativa e inteligente. Por quê?
Ana Maria Bahiana. Ao ver um filme, duas coisas podem acontecer: você pode ficar sentado na plateia e sair da sala frustrado ou pode sair e falar “gostei”. Mas se é um espectador engajado, quando o filme falar contigo, você vai aproveitar melhor o momento. Se o filme não falar, você vai entender o motivo e começar a desenvolver o seu próprio padrão seletivo. Você passa a ser o seu melhor crítico e reconhecer o que é bom; se torna mais criterioso nas suas escolhas e educa o seu gosto. O espectador engajado é o melhor crítico.
Como é sua relação com os seus leitores?
Ana Maria Bahiana. Aprendo sempre com eles. Os meus leitores são os meus patrões. Eu não sirvo a mais ninguém, eu trabalho pra eles. Toda vez que alguém de estúdio reclama de algo que falei, paro na hora e digo: “Escuta, quem manda em mim são meus leitores”. Uma coisa que eu adoro é que na internet, essa troca com o leitor acontece em tempo real.
O que os bons filmes têm que os outros não têm?
Ana Maria Bahiana. O bom filme é aquele que você consegue se colocar nele de alguma forma. Ele vai dar mais de uma porta de entrada para a história e falar com você. Um bom filme deve dizer a que veio nos primeiros 15 a 20 minutos. Se fizer isso, sem perceber, você estará lá, dentro da narrativa, identificando-se de algum jeito com o personagem.
O que significa a experiência de ir ao cinema?
Ana Maria Bahiana. É muito parecida com sonhar. Só que é um sonho sonhado por outra pessoa e compartilhado por muitos. O filme te leva para algum lugar, para algo que você se lembra, viveu, sonhou ou experimentou. Quando esse diálogo dá certo, é algo mágico. É claro que isso acontece quando é somente você, a tela e o filme. Quando não tem ninguém falando no telefone ou discutindo com o namorado (risos).
Existe algum tipo de preparação para ser ver um filme?
Ana Maria Bahiana. Eu fico com pena das pessoas que, quando o filme começa, não começam com ele. As pessoas levam hábitos para o cinema que atrapalham. Se você está no telefone, ouvindo música, você realmente quer jogar seu dinheiro fora? Quando o filme começa, deve começar para você também. É uma escolha. Você pode levantar e pedir seu dinheiro de volta ou embarcar na viagem.
O que a plateia perde ao não ver um filme de um jeito mais crítico?
Ana Maria Bahiana. Eu acho que ela desperdiça duas horas da sua vida. Vejo muitas pessoas se deixarem levar pelas opiniões dos outros. Realmente existe a questão do gosto. Você pode amar profundamente um filme que seu melhor amigo odiou. Mas um espectador engajado tem menos decepções ao entender o que ele está vendo. Tem mais chances de ter boas experiências.
Já houve algum filme que você assistiu “de um jeito errado” e depois viu de novo?
Ana Maria Bahiana. Isso não acontece. Acontece de eu sair de um filme e não saber se gostei. Mas depois tenho que refletir sobre o assunto e encontrar respostas. Tenho um grande amigo de Los Angeles, ele é uma pessoa com um alto posto dentro de um estúdio e tem um gosto impecável. Uma vez por mês a gente almoça, e frequentemente nós falamos sobre filmes e discordamos radicalmente. Mas ambos conseguimos justificar. É um processo consciente.
Hoje você consegue ver um filme e acertar o final?
Ana Maria Bahiana. Eu faço mais do que prever o final, eu prevejo qual é a próxima cena, a próxima fala. A maioria dos filmes comerciais americanos eu vejo por cinco minutos e já adivinho como vai ser. É uma fórmula tão óbvia. Tem uns que, quando dá uma hora dessa brincadeira, eu levanto e vou embora.
Você não acha deselegante a pessoa sair da sala antes de terminar o filme?
Ana Maria Bahiana. Eu tento ter paciência. Mas acho que o público pagante tem todo o direito de se levantar e pedir o dinheiro de volta. Ver um filme é um compromisso sagrado. Sei que dá um trabalho infernal fazer um filme. Nenhuma daquelas pessoas está tentando fazer uma obra ruim, elas dão o melhor de si. Em honra desse trabalho, eu procuro ficar o máximo que posso, mas se eu ficar com dor de cabeça ou irritada, não dá (risos). 
 
A que o espectador tem que ficar atento ao ver um filme mais cult?
Ana Maria Bahiana. É a mesma coisa que nos filmes mais comerciais… A linguagem do cinema é universal. A narrativa visual é semelhante, mudam os gêneros, mas as regras são as mesmas. De Bollywood a Glauber Rocha, tudo do livro se aplica a qualquer filme.
Existem diretores que são incompreensíveis?
Ana Maria Bahiana. Tem muitos, quase todos que meu filho gosta (risos). Nossa mãe! Ele realmente gosta do que é obscuro. Embora ele tenha me pedido em segredo para ver Transformers (risos).
Quais são os roteiros que você considera impecáveis?
Ana Maria Bahiana. Tem tantos! Chinatown, Amarcord, Poderoso Chefão e Quanto mais Quente Melhor são perfeitos. O diretor Stanley Kubrick não tem filme ruim. Embora eu tenha assistido a De Olhos Bem Fechados e ficado com dúvidas. Mas depois, vi de novo e pensei: você é genial mesmo. Fellini, idem. Sou muito feliz tentando entendê-lo.
Existem alguns truques de diretores que fizeram escola. Por exemplo, Alfred Hitchcock e o gênero suspense. Ao tomar conhecimento desses truques, o público pode tomar menos sustos?
Ana Maria Bahiana. Hitchcock vai além do susto. Com ele, eu começo a entender como o jogo é complicado. Por exemplo, um filme aterrorizante para mim é O Iluminado. Todas as vezes que eu assisto, me apavoro. O grande diretor sabe que a plateia conhece seus truques, mas mesmo assim ele vai lá e faz. 
 
Qual é a sua opinião sobre os filmes em 3D?
Ana Maria Bahiana. O 3D é um recurso como qualquer outro. Assim como o uso da cor e do som, é uma ferramenta que faz parte da história. Só não gosto quando o 3D é usado como um parque de diversões. Aí eu acho uma chatura.
 
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