Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 11.11.2011 11.11.2011

O Curioso Livro dos Geeks, de Ken Denmead, mostra que afinidades tecnológicas ajudam a fortalecer os laços entre pais e filhos

Por André Bernardo
Na foto, Marcelo Tas
De origem inglesa, a palavra “geek” ainda não consta nos dicionários brasileiros. Mas, em linhas gerais, designa aquela pessoa que é aficionada por tecnologia. Para Ken Denmead, um dos editores do site da revista “Wired”, ser “geek” é muito mais do que apenas gostar de “gadgets” eletrônicos. É ser (demasiadamente) apaixonado por alguma coisa. Que pode ser filmes de ficção-científica, revistas em quadrinhos ou jogos eletrônicos. “A maior lição que já tive a chance de ensinar aos meus filhos foi: persigam tudo o que faz vocês felizes. Se puderem conciliar diversão e trabalho, melhor. Assim, jamais vão encarar a diversão como trabalho”, teoriza Denmead, pai de Eli, 12 anos, e Quinn, 11.
Editor do site “Geek Dad”, que registra uma média de 1 milhão de visitas por mês, Denmead acaba de lançar O Curioso Livro dos Geeks – Brincadeiras Inteligentes Entre Pai e Filho. Repleto de ilustrações, gráficos e tabelas, vai ajudar pais e filhos a transformarem o play-ground em cinema ao ar livre, a lançarem aos céus uma câmera de vídeo presa a um balão ou, ainda, criarem uma HQ totalmente customizada. “Todo e qualquer interesse que pode ser compartilhado, especialmente aqueles que envolvem diversão e aprendizado, tende a fortalecer os laços familiares”, assegura Denmead, que adora jogar RPG, especialmente os da saga Dungeons & Dragons, com os filhos.
 
Aprendendo com os filhos
Na opinião de Marcelo Tas, um dos apresentadores do programa “CQC”, da Band, a atual geração será a última a usar a palavra “geek”. “Daqui para frente, todos os nossos filhos serão ‘geeks’“, profetiza. Ainda hoje, ele acha graça ao se lembrar do susto que levou há dois anos quando resolveu “entrevistar” os dois filhos pequenos – Miguel, 8, e Clarice, 4 – para a revista “Crescer”. “Ao conversar sobre redes sociais, vi que os dois já usavam o Club Penguim – uma rede de, na época, 64 milhões de crianças – que eu nunca tinha ouvido falar”, recorda. Até pouco tempo, Marcelo até tentou jogar Wii com os filhos, mas, aos poucos, percebeu que não tinha condições de competir com eles.
“O mais importante é o pai se aproximar dos filhos com espírito de aprendiz. Quem chega com aquela postura de papai-sabe-tudo corre o risco de ficar de fora do jogo. Querem uma dica? Aprendam com os seus filhos!”, recomenda. Autora de “Malhação”, da TV Globo, Ingrid Zavarezzi se considera uma “geek” assumida. Daquelas que leu e releu Senhor dos Anéis várias vezes, não perdeu um episódio sequer de Jornada nas Estrelas e adorava reunir as amigas para jogar “War”. Hoje em dia, ela e a filha, Bárbara, 24, são viciadas em “gadgets”. “Quando sai um modelo novo lá em Júpiter, a minha filha é sempre a primeira a saber e me avisa: ‘Olha, mãe, que legal!’”, brinca.
 
Conexão familiar
 
Pais Geeks – Flávio Pessoa
A paixão por “gadgets” é tanta que, por vezes, mãe e filha se veem conversando uma com a outra, através de e-mail, celular e MSN, mesmo dentro de casa. “Outro dia, virei para a minha filha e perguntei: ‘Vem cá, que tal você entrar no meu quarto e conversar pessoalmente comigo? Não é mais fácil?’”, diverte-se. Mas as afinidades entre Ingrid e Bárbara não param por aí. Frequentemente, as duas se espantam por gostarem das mesmas músicas, usarem as mesmas roupas e até rirem das mesmas bobagens postadas no YouTube. “Eu e minha filha vivemos conectadas. Se tenho, compro igual para ela. Essas coisas unem muito pais e filhos”, garante Ingrid.
Diretor de redação do jornal “O Fluminense”, Flávio Pessoa concorda plenamente. Fã da trilogia Guerra nas Estrelas – “das duas trilogias”, faz questão de ressaltar –, tratou logo de iniciar o pequeno Arthur, 4, no universo mágico de George Lucas. Hoje, os dois se esbaldam ao brincar com os bonecos de Darth Vader, C3PO e R2D2 pelos quatro cantos da casa. Além disso, Arthur já gosta de jogar videogame – “sobretudo o Kinect” –, usar o DVD e desbravar o smartphone dos pais. “Gosto de tecnologia. É algo de que não se pode mais prescindir. Só é preciso ter bom senso. É preciso usá-la com parcimônia e, claro, estabelecer regras e limites”, observa Flávio.
 
Entre dois mundos
No caso de Fernando, 11, uma das regras estabelecidas por Marcelo Tavares é fazer, em primeiro lugar, o dever do colégio. Só depois, o garoto pode sentar no sofá para experimentar um dos mais de 200 consoles e três mil jogos do acervo do pai, o maior colecionador de games do Brasil. “Sim, meu filho gosta de jogar videogame, mas ele também não abre mão de outras brincadeiras, digamos, mais tradicionais, como futebol, ioiô e pingue-pongue”, afirma Marcelo, que começou a se interessar por games aos sete anos, quando ganhou o primeiro Atari. Com o passar do tempo, resolveu transformar o que começou como um hobby em ganha pão.
Formado em Administração, Marcelo é o idealizador do Brasil Game Show, a maior feira de jogos eletrônicos da América Latina. Em sua quarta edição, recebeu a visita de 60 mil pessoas. “Até pouco tempo, o termo “geek” tinha uma conotação pejorativa. É como se todo mundo que gostasse de games não praticasse esportes, não fizesse amigos e não tivesse namorada. Felizmente, isso mudou”, acredita. O que não mudou ainda é o receio que Marcelo sente diante da possibilidade do filho não gostar tanto de games quanto ele. “Talvez ele ainda não tenha noção do tesouro que tem em casa. Mas vou procurar sempre dar liberdade ao meu filho e apoiar as decisões dele”, promete.
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