Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.06.2011 13.06.2011

O corpo e a alma dos sonhos

Por Felipe Candido

Desde os primórdios da história, os sonhos têm fascinado os homens com seu universo repleto de surpresas, alegrias, medos e outros mistérios. Com o passar dos anos, diversas visões e entendimentos sobre o mundo onírico foram desenvolvidos. Abordagens científicas, místicas ou românticas tentaram e ainda tentam entender esse obscuro fenômeno. Neste ano, são lembradas duas datas importantes relacionadas ao tema: a primeira data são os 110 anos do lançamento do livro A Interpretação dos Sonhos, do psicanalista Sigmund Freud, o pioneiro no estudo dos sonhos. O título traz os primeiros estudos sobre esse universo até então desconhecido e não investigado. Após a publicação desse importante estudo, Freud tornou-se amigo de um jovem psicanalista que também iria mudar os rumos das interpretações dos sonhos. Carl Jung, cujos 50 anos de morte são lembrados neste mês, fundou a chamada psicologia analítica, criando uma nova abordagem sobre o fenômeno, diferente da visão de seu amigo Freud.

As primeiras interpretações dos sonhos eram ligadas a fenômenos místicos, que supostamente revelariam a vontade dos deuses. “A definição de sonho sempre dependeu das representações que cada sociedade construiu. Assim, já representou augúrio dos deuses, ou mesmo texto de um destino. Hoje, temos a explicação da ciência, mas isso não acabou com as representações mágicas”, afirma Ana Costa, doutora em psicologia clínica pela PUC-SP, com pós-doutorado na Universidade de Paris XIII, e professora da Uerj.

Os grandes textos religiosos da civilização ocidental, como a Bíblia e a Torá, apresentam manifestações divinas através do sonho, como na revelação que o anjo Gabriel faz a São José sobre a gravidez de Maria. “Na antiguidade, reis, rainhas e grandes líderes sempre dispunham de um profeta para explicar (desvendar) seus sonhos e prever o futuro”, afirma André Mantovanni, autor do livro Dicionário Esotérico dos Sonhos (Editora Ghemini).

A CIÊNCIA

Já no século XX, os sonhos ganharam uma abordagem mais cientificista, a partir dos estudos de Sigmund Freud sobre o tema. Em 1901, ao lançar o livro A Interpretação dos Sonhos, considerado por estudiosos o marco inicial da psicanálise, Freud apresenta as primeiras explicações para o fenômeno onírico. “Para a psicanálise o sonho é uma expressão privilegiada do inconsciente, na medida em que o dormir afrouxa nossas defesas e então os desejos, fantasias e traumas podem se expressar, usando uma linguagem própria, que o psicanalista precisa decifrar”, explica Ana Costa, que é autora do livro Sonhos, da coleção Psicanálise Passo a Passo (Jorge Zahar).

Para os psicanalistas, os sonhos se originam de memórias que ficam guardadas no nosso inconsciente em razão de “vergonhas sociais” que carregamos em nosso dia a dia. Durante o sono, o próprio inconsciente trabalha para produzir o enredo onírico que desenvolve o sonho. “No nosso cotidiano abafamos as expressões do inconsciente por meio de representações que se adequam de acordo com nosso entendimento, que não ferem nossa vida em sociedade”, afirma a psicanalista.

Os sonhos ainda teriam uma função na manutenção da vida: “O sonhar é vital para nossa saúde. Quando temos perturbações no sonho, isso repercute na saúde. Em situações traumáticas acontecem essas perturbações e o sujeito sonha com a repetição do trauma, sem poder aceder ao campo da fantasia”, comenta Ana.

Dessa forma, para os psicanalistas os fenômenos oníricos exteriorizam o mundo que existe no inconsciente humano. “O indivíduo é aferrado às representações conscientes e razoáveis de sua vida diária. Mas o inconsciente não pode ser subsumido completamente por nossa vã razão. Fica sempre um resto que retorna no sonho, pedindo ao sujeito que considere seu inconsciente. É num percurso de análise que podemos ter acesso a esse inconsciente, porque não conseguimos explicar pelas representações corriqueiras da razão”, finaliza Ana Costa.

O ASPECTO MÍSTICO

Mesmo com as descobertas cientificas sobre o sonho, diversas pessoas acreditam que nem só por esse campo os sonhos devem ser analisados. “O sonho é um veículo de mensagens e símbolos contidos em nosso mundo interior que precisa ser interpretado com cautela e muita sensibilidade. Há um entrelaçamento dos campos mais sutis: emocional, psíquico e espiritual”, explica André Mantovanni, que é coordenador do site Portal Astral.

Ainda segundo Mantovanni, os sonhos podem nos trazer memórias de tempos anteriores, ou até mesmo revelar o que ainda irá acontecer. “Sonhamos por alguns motivos importantes: descanso da mente, conhecimento de símbolos que estão encobertos em nosso inconsciente e que precisam ser desvendados para vivermos melhor e superar bloqueios, traumas e desafios, porém espiritualmente também pode ser uma forma de termos imagens de vidas passadas, reencontros espirituais em outros planos e esferas e, em pouquíssimos casos, premonitórios”, afirma.


Divulgação/Carl Jung, criador da psicanálise

André ainda comenta que ao longo dos tempos os sonhos também se desenvolveram, moldando-se ao inconsciente coletivo da sociedade em que a pessoa que sonha vive, como apontou Carl Jung, em seus estudos sobre o tema. “O próprio Jung relata em seus estudos sobre imagens e símbolos arcaicos que esses elementos sempre estiveram impregnados  no inconsciente coletivo e que vão se moldando e se repetindo (com alterações) de acordo com  a passagem do tempo, cultura, tradições e outros fatores no inconsciente individual. Ainda devemos acrescentar que nossas experiências pessoais também influenciam na significação. Assim, os sonhos também refletem nossa cultura, o contexto em que vivemos”.

Seguindo a mesma linha de interpretação, o sonho pode ser também uma maneira que o inconsciente utiliza para descansar a mente e o espírito. “Já que a mente consciente em seu dia a dia, além de todas as funções necessárias para sobrevivermos, não daria conta de eliminar ou trabalhar esses símbolos, da mesma maneira que o sono é reparador para o corpo físico, são reparadores dos corpos psíquico e espiritual”, comenta.

Mesmo com diversos estudos, análises e visões sobre os sonhos, esse universo dos sonhos continua envolto em mistérios, assim como a própria alma humana. Como afirma André Mantovanni, todas as tentativas de explicações sobre o tema se complementam para buscar um entendimento maior sobre o ser humano: “Ao estudar a espiritualidade, passar por religiões e depois passar pela filosofia e psicanálise, percebi que em todos esses caminhos os sonhos possuem uma importância sobre nosso mundo interior. Não podemos deixar de lado o legado de grandes estudiosos que nos dão sua valiosa contribuição científica, filosófica para adentrarmos neste vasto e infinito mundo dos sonhos. Diria que o sonho é o caminho para grandes descobertas de nosso eu”, finaliza o escritor.

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