Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 18.07.2012 18.07.2012

O cinquentenário e a premiação do primeiro filme de Glauber Rocha

 
Por Daniela Guedes
 
Em 2012, além de comemorarmos o cinquentenário da premiação, em Cannes, do filme de Anselmo Duarte, O Pagador de Promessas, também merece ser celebrado um acontecimento desconhecido por muitos.
 
Os cinquenta anos da premiação internacional de outra produção cinematográfica brasileira, Barravento, de Glauber Rocha (1938-1981), que conquistou, em julho de 1962 (um mês depois do festival de Cannes), o prêmio de Jovem Revelação, no Festival Internacional de Karlovy Vary, na Tchecoslováquia, atual República Tcheca.
O cineasta e crítico Guido Araújo, organizador das Jornadas Internacionais de Cinema da Bahia – que, na época, morava na Tchecoslováquia –, foi quem inscreveu o filme para a mostra competitiva.
 
“Como eu mantinha boas relações com o pessoal do cinema tcheco e, sobretudo, com os organizadores do Festival de Karlovy Vary, conversei com os dirigentes e forneci maiores informações a respeito de Glauber Rocha. Depois, propus convidá-lo para o Festival que ia acontecer pouco depois de Cannes”, explica Guido.
Assim, a sugestão de Guido Araújo foi atendida pelos organizadores do festival, o que possibilitou a participação de Glauber Rocha na mostra competitiva. Isso ocorreu dois meses após a estreia, em Salvador, do seu primeiro trabalho, Barravento.
“Quando soubemos que Barravento estava entre os filmes premiados, fui ao Grand Hotel Moscou, onde Glauber estava hospedado, dar-lhe a notícia. Ele se abriu numa grande gargalhada e foi ao palco do Palácio do Festival para receber os aplausos e seu primeiro prêmio internacional, como Jovem Revelação. O mesmo prêmio que Nelson Pereira dos Santos já  havia conquistado em 1956 com Rio, Quarenta Graus e que também Walter Lima Junior iria receber em Karlovy Vary, dois anos depois de Glauber, com Menino de Engenho”, relembra.
 
Cena de Barravento
 
Existe até uma controvérsia sobre a premiação. Há quem diga que Walter da Silveira, crítico cinematográfico e fundador do Clube de Cinema da Bahia, fez questão de deixar claro, à época, que Glauber Rocha não havia recebido prêmio algum no Festival Karlovy Vary, e sim que ele havia recebido uma espécie de certificado de participação.
 
“Tenho absoluta certeza da premiação de Barravento, de Glauber Rocha, em julho de 1962, como Jovem Revelação no Festival Internacional de Karlovy Vary. O Guido Araújo foi quem inscreveu o filme para a mostra competitiva”, afirma André Setaro, professor, crítico de cinema e autor do Setaro´s Blog.
Controvérsias à parte, a película – que começou a ser filmada em 1959 por Luis Paulino dos Santos – acabou sendo passada para Glauber, pois Paulino apaixonou-se pela atriz principal, Sonia Pereira, e atrasou o cronograma. Sobre a troca da direção do filme, Glauber Rocha dizia: "Perdi o amigo, ganhei o filme". Glauber contava ter sido "praticamente obrigado" a deixar a produção executiva para dirigir.
Com o consentimento do produtor, Rex Schindler, Glauber Rocha reescreveu o roteiro com José Telles de Magalhães, o que durou três anos (de 1959 a 1962), tortuosos e necessários para vir à luz, segundo André Setaro. “Barravento pode ser considerado um rascunho do que viria a seguir, uma promessa de um cineasta que veio a traumatizar duramente o cinema brasileiro com Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), uma indiscutível obra-prima”. Define.
Barravento não deve sua importância apenas por ser o primeiro de uma pequena – mas importante – lista de trabalhos do cineasta baiano ou por ter sido o terceiro longa com produção baiana – antes dele, apenas Redenção (1959) e A Grande Feira (1961), ambos de Roberto Pires, haviam sido lançados comercialmente. Mas sobretudo por, na década de 60, refletir e tentar mostrar ao país um misticismo religioso, a oposição ao "estado de alienação", a revolução contra o patrão.
 
Com esses elementos, o mais importante cineasta brasileiro desenvolve um argumento que, à primeira leitura, é bem simples: numa vila de pescadores, a única rede pertence a um explorador, mas a comunidade não se revolta, postando-se passiva diante da opressão.
 
A chegada de Firmino (Antonio Pitanga), vindo da cidade grande, onde se conscientizara politicamente, cheio de ideias revolucionárias, vai se chocar com o pensamento de Aruã (Aldo Teixeira), o favorito da deusa Iemanjá. Para libertar o povo, Firmino tem que destruir a credibilidade de Aruã frente aos pescadores, o que consegue no final.
 
Em um dos seus vários discursos, Glauber definiu Barravento como obra de inspiração revolucionária. "Fiz um filme contra candomblés, misticismos e, num plano de maior dimensão, contra a permanência de mitos numa época que exige lucidez, consciência, crítica e ação objetiva", afirmou em entrevista concedida pouco antes do lançamento da obra, em 1962, ao jornal baiano Diário de Notícias. 
 
No mesmo tom, prosseguia: "O folclore e a beleza contagiante dos ritos negros são formas de alienação, impedimentos trágicos a uma tomada de consciência para a liberdade de uma raça importante em nosso século, como a negra".
 
Ainda que não tenha galgado o reconhecimento justo na época, pois não foi sucesso comercial, o filme foi o prenúncio de uma obra regida pela dicotomia, de um discurso nem sempre claro e coerente, mas apaixonado, que iria marcar toda a filmografia de Glauber Rocha.
 
 
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