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O cinema nacional e a tradição de revelar atrizes

Por Diego Muniz
 
Alice Braga, Hermila Guedes, Leandra Leal e Simone Spoladore. Esses são alguns dos nomes recentes de atrizes que despontaram no mercado após receberem o papel principal em um filme. A tradição do cinema nacional de apostar em rostos não muito conhecidos como protagonistas segue firme em 2014.
 
Entre as produções agendadas para entrar em cartaz este ano, destaque para duas debutantes premiadas: Rita Batata, que interpreta uma jovem advogada no filme De Menor, e Maeve Jinkings, na pele de uma cantora de música brega que busca o sucesso no longa Amor, Plástico e Barulho.    
 
“Uma atriz não conhecida pelo grande público pode trazer um frescor maior ao personagem, pois não há expectativas em relação à performance. É muito bom para um diretor trabalhar com essa liberdade”, explica a paulistana Caru Alves de Souza, que faz sua estreia em longa com o filme De Menor.
 
Também com o filme pronto para entrar no circuito comercial, a diretora pernambucana Renata Pinheiro acredita que uma atriz ainda não popular facilita os trabalhos antes da gravação.
 
“Minhas protagonistas frequentaram os bailes bregas, e foi fundamental serem anônimas nesses ambientes. As atrizes famosas são reconhecidas em cada canto que vão, e esse reconhecimento, às vezes, pode dificultar a tentativa de mimetizar os atores ao mundo real. Em Amor, Plástico e Barulho, algumas cenas se desenvolvem em locais reais. Gosto de um tipo de cinema que rompe a barreira entre a ficção e o documental.”
 
Escalar protagonistas desconhecidas para a telona já virou uma característica do cinema nacional. Segundo Adilson Marcelino, jornalista e editor do site Mulheres do Cinema Brasileiro, essa ligação beneficia tanto a arte quanto os atores.
 
“É essa busca do frescor, do registro do instantâneo e da verdade que há no cinema que possibilita apostas mais ousadas. Não ter um rosto muito 'manjado' pode trazer grandes ganhos para um filme e abre uma porta para atores menos conhecidos.”
 
Para Caru, essa “ousadia” é possível apenas para alguns tipos de produções. “Um cinema que se move com maior liberdade, que não tem que responder às demandas da iniciativa privada, bilheteria e distribuidoras, não precisa necessariamente dispor de rostos conhecidos para fazer seus filmes”.
 
Maeve Jinkings em Amor, Plástico e Barulho    
 
 
SUCESSO, RECONHECIMENTO E MAIS TRABALHO
 
Ter o primeiro grande papel lançado em uma sala de cinema pode ser o passaporte definitivo para a profissão. Protagonista de Estômago (2007), Fabíula Nascimento viu a carreira se transformar após sua estreia. “O filme me apresentou não só para o Brasil, mas para o mundo. Me levou para outra cidade e para outros mil trabalhos incríveis. E claro, me deu um pouquinho de moral [risos]”, revela a atriz, que conquistou a popularidade no ano passado na novela global Avenida Brasil.
 
Na expectativa do lançamento de Amor, Plástico e Barulho, Maeve, que esteve também no premiado O Som ao Redor, analisa o que mudou antes mesmo da estreia: “sou atriz de um cinema dito ‘cinema de autor’, filmes que me dão a chance de estabelecer bons diálogos com meus parceiros de trabalho, com os diretores. Fazemos arte para nos expressar, e isso depende de um interlocutor. Recebo mensagens de pessoas de todo o Brasil, também da Turquia, do Irã, da Inglaterra. Isso é gratificante”.
 
“Quando faço um filme, de longa ou curta-metragem, independente do papel, eu sempre me pergunto: 'O que me cabe contar dessa história? Que porção me diz respeito?'. É claro que fazer essa pergunta a uma personagem protagonista é muito instigante”, revela Rita.
 
“Após filmar De Menor, eu senti que as ânsias profissionais se acalmaram dentro de mim. Eu sou capricorniana, então o desejo de realização do trabalho é o pilar da minha existência, para o bem e para o mal, eu sempre senti que tinha que correr atrás de algo que já tinha perdido. O filme estabilizou essa sensação, hoje posso ficar com os dois pés no chão, não preciso encarar essa corrida maluca que eu criei para mim", afirma Rita Batata.
 
 
Rita Batata em cena; ao lado, Rita e Caru nos bastidores do filme De Menor
 
 
RETROSPECTIVA NACIONAL
 
A pedido do SaraivaConteúdo, Adilson Marcelino, editor do site Mulheres do Cinema Brasileiro, selecionou as atrizes que tiveram sua carreira modificada após brilharem no cinema. Confira.
 
ANOS 1960
 
– Norma Bengell – Faz uma estreia absolutamente sensacional no final da década de 1950 em O Homem do Sptutinik (1950) e, já no início da década de 1960, causa sensação internacional como a protagonista de Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra.
– Leila Diniz – Conhecida por seus trabalhos na televisão, chega ao cinema e faz sucesso nacional como protagonista de Todas as Mulheres do Mundo (1967), de Domingos de Oliveira.
– Adriana Prieto – Estreia no cinema como a protagonista de El Justicero (1967), de Nelson Pereira dos Santos.
– Helena Ignez – Estreia em longas na década de 1960 e faz enorme sucesso como a protagonista em O Padre e a Moça (1965), de Rogério Sganzerla.
 
ANOS 1970
 

– Sonia Braga – Depois de fazer pequena participação em O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, foi a protagonista de A Moreninha (1970), de Glauco Mirko Laurelli.

– Vera Fischer – Estreia no cinema na década de 1970 e se consagra em A Super Fêmea (1973), de Aníbal Massaini Neto.

– Zezé Motta – Já vinha da TV e não estreia no cinema como protagonista, mas é uma das atrizes de maior destaque da década por causa de Xica da Silva (1976), de Carlos Diegues.

– Helena Ramos – Estreia direto no cinema sem ser protagonista, mas é uma das atrizes de maior destaque do cinema popular e logo chega ao protagonismo.

ANOS 1980

 

– Fernanda Torres – Surge para o grande público na TV, mas logo depois protagoniza no cinema em Inocência (1983), de Walter Lima Jr.

– Marcélia Cartaxo – Estreia como a protagonista Macabéa em A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, e arrebata o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim.

– Ana Beatriz Nogueira – Estreia como protagonista em Vera (1987), de Sérgio Toledo, e arrebata o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim.

– Malu Mader – Vinda da televisão, é protagonista de filmes de destaque na década de 1980, como Feliz Ano Velho (1987), de Roberto Gervitz.

ANOS 1990

 
– Leona Cavalli – Um Céu de Estrelas (1996), de Tata Amaral.
– Leandra Leal – Surgiu para o grande público na TV, mas chegou ao cinema já como protagonista em A Ostra e o Vento (1997), de Walter Lima Jr.
– Dira Paes – Depois de dois filmes na década de 1980, tornou-se protagonista em Corisco & Dadá (1996), de Rosemberg Cariry.

ANOS 2000

 
– Rosanne Mulholland – Protagonista de peso a partir de A Concepção (2005), de José Eduardo Belmonte.
– Hermila Guedes – Protagonista a partir de O Céu de Suely (2006), de Karim Ainöuz.

– Alice Braga – Sucesso estrondoso como a protagonista de Cidade Baixa (2005), de Sérgio Machado.

– Simone Spoladore – Estreia no cinema em Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho.
 
 
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