Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 06.09.2011 06.09.2011

O cinema íntimo e prolífico de Takashi Miike

Por Andréia Silva
Duas coisas chamam atenção quando o assunto é o cineasta Takashi Miike. A primeira é que seu grande sonho era ser piloto de corrida. A segunda é o ritmo frenético com que toca a carreira: em 20 anos de estrada, iniciada em 1991, Miike já dirigiu mais de 70 filmes.
O que motivou este cineasta, natural de uma família problemática e humilde, a seguir este caminho, é outro ponto interessante de sua história.
“Não gosto de fazer esforços. Então dirigir filmes é um trabalho adequado para mim, porque não preciso fazer esforços. São os atores e a equipe que fazem todo o trabalho, o diretor apenas senta lá e diz ‘tente outra vez’. Entrei para a escola de cinema sem nenhum propósito, mas depois que entrei para a indústria do cinema não encontrei nenhuma razão para sair dela, então continuei trabalhando com filmes”, disse ele ao jornalista Tom Mes, no livro Agitador: O Cinema de
Takashi Miike.
Curiosamente, o resultado dessa despretensão como cineasta deu à obra de Miike urgência e rendeu tramas esquizofrênicas, fazendo dele um dos mais interessantes nomes da atualidade, e de sua “incoerência”, sua marca registrada.
“A cada filme ele muda tudo. Ele pode rodar uma comédia para família e o próximo ser um terror censurado. Em um projeto pode ter uma câmera elegante e calma com uma grande estrutura de produção e alto orçamento, e o filme seguinte ser com uma câmera mais marginal e agitada, com pouca estrutura e baixo orçamento. Isso torna os longas dele imprevisíveis”, diz o cineasta e produtor de audiovisual Davi Pretto, curador da mostra brasileira sobre os 20 anos de carreira de Takashi Miike.
A impressão do imprevisível e da urgência da obra de Miike não é percebida apenas por quem acompanha há tempos o trabalho deste cineasta, como é o caso de Pretto.
O jornalista Chico Fireman, 36, autor do blog Filmes do Chico, pôde conhecer mais do trabalho de Miike na mostra de filmes do diretor em São Paulo. Antes, já havia assistido outros filmes do diretor como The Happinness of the Katakuris (2001), The Bird People from China (1998), Fudoh: The New Generation (1996), Young Thugs: Nostalgia (1998), Izo (2004), 13 Assassinos (2010) e Hara-kiri: Death of a Samurai (Ichimei), e o que mais lhe chama atenção na obra de Miike também é o caráter “multifacetado” de sua produção.

Cena da comédia familiar The Hapiness of the Katakuris, de 2001
 
“Quem acha que a violência e o gore (gênero ligado ao terror) são 100% da obra de Miike pode perder muita coisa, porque há muito lirismo nos filmes dele, mas um lirismo que namora com os temas caros a ele, como a máfia e o submundo. Miike fala de infância, mas sem abrir mão da violência. Fala de assassinatos, mas em forma de comédia musical. Ele sempre surpreende”, diz o jornalista.
 
Para quem já conhecia a obra de Miike, a mostra em homenagem ao cineasta, que passou por São Paulo e está em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro até 18 de setembro, veio como um presente para poder assistir a mais produções dele. No entanto, levanta questionamentos: em 20 anos de carreira, por que nenhum de seus filmes foi exibido em circuito comercial no Brasil?
 
Pretto diz que as explicações variam, mas entre as principais cita a dificuldade de classificação da obra do cineasta e, justamente, as marcas de “cinema de exagero” e “cineasta de filmes violentos” com as quais seu trabalho é rotulado.
 
Cena do filme Ichi, O Assassino, de 2001
 
Tudo isso contribuiu para afastar a produção de Miike do popular. “Ele foge muito daquela linha linear que se espera de filmes policiais, de samurais ou de ação. Miike inclui muitos elementos que podem surpreender o espectador. No geral, os elementos que ele usa são pops, como sangue jorrando, música e comédia. O espectador tradicional pode não achar sério, mas os mais jovens podem ser conquistados justamente por essa mistura de referências”, diz Fireman.
Já para Pretto, “esse cinema parece ter difícil assimilação no Brasil”. “Talvez um exemplo mais próximo a esse tipo seja Quentin Tarantino, e talvez por isso Miike seja frequentemente comparado a ele”, diz.
 
Tarantino do Japão
 
Tarantino, aliás, é um fã confesso do trabalho de Miike, tendo inclusive atuado em um de seus filmes, Sukiyaki Western Django (2007). A opinião de que os dois têm formas de produzir semelhantes – para quem acredita que o cinema de ambos seja baseado na estética da violência – não é compartilhada por quem acompanha a obra do diretor japonês. Talvez sirva apenas para localizar a obra do cineasta japonês no imaginário popular em meio a um universo imprevisível.
 
Quentin Tarantino em cena do filme Sukiyaki Western Django, de 2007
 
“Até hoje não entendemos bem essa comparação. O Tarantino usa fortemente a questão de referências em seus filmes, trabalha com o exagero de gêneros, etc. O Miike quase nunca fez isso. Ele é bastante simplista cinematograficamente. Existe uma irreverência em alguns filmes do Miike como Fudoh: The New Generation ou Ichi The Killer que podem ter alguma relação com o estilo do Tarantino. Mas de resto, são obras distantes”, diz Pretto.
 
Fireman segue a mesma a opinião. “O universo pop é comum aos dois. A violência e o mundo dos gângsters também. Mas não diria que os cinemas dos dois se parecem”, comenta.
 
Avesso ao mainstream

O primeiro longa do diretor a cruzar o caminho de Pretto foi Audition. “Lembro que o filme me impactou muito. Mas muitos dos filmes do Miike que vi há alguns anos e hoje estou revendo ganham novos significados. Hoje, o Audition tem muitos outros tons. Uma obra de Miike pode criar diferentes leituras dependendo do momento que você o (re)vê”, diz.
Outro aspecto do trabalho de Miike que chama atenção é o seu desinteresse pelo mainstream. “Quando perguntamos para ele sobre a importância do Ichimei (Hara Kiri: A Death of a Samurai) estar na competitiva oficial do Festival de Cannes e se ele achava que isso o colocaria em outro ‘patamar’, ele disse que acha que sim, mas que ele detesta esses patamares e não quer ser visto como um diretor de Cannes”, diz Pretto.

 
Miike quebra e estabelece novos paradigmas. Este ano lançou seu primeiro longa-metragem em 3D e também o primeiro com a nova tecnologia a disputar a Palma de Ouro na competição oficial do Festival de Cannes. Agora, ele diz que vai trabalhar em uma telenovela para a TV japonesa, que deve ser exibida à 1h da manhã. Só para não sair da rotina.
 
 
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