Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 19.08.2011 19.08.2011

O cinema da Nouvelle Vague comemora 60 anos

Por Luma Pereira
Na foto Godard em cena do filme Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague
 
Na década de 60, ocorreu na França a Nouvelle Vague, movimento cinematográfico que revolucionou a maneira de produzir filmes. Os padrões do passado foram repensados, e o cinema passou a integrar novas ideias. A novidade também ganhou espaço em vários outros países do mundo, marcando para sempre a história da sétima arte. Em junho de 2011, foi lançado em DVD o documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, dirigido por Emmanuel Laurent, para celebrar o aniversário de 60 anos do movimento.
 
Em português, o termo Nouvelle Vague significa “Nova Onda”, tendo sido utilizado pela primeira vez por Françoise Giroud, jornalista parisiense, na revista L'Express. Nomeava a nova geração de cineastas que queriam reformular a maneira de fazer cinema da época. “O movimento pode ser definido como o símbolo da necessidade de rompimento de toda uma nova geração de cineastas, formada por jovens cinéfilos e politizados, com o modelo clássico e acadêmico de se pensar e fazer cinema”, explica Beatriz Saldanha, cinéfila e estudiosa do tema. Posteriormente, os entusiastas da Nouvelle Vague passaram a ser chamados de “Os Jovens Turcos” – “era uma comparação ao grupo de resistência contra a monarquia na Turquia”, completa Saldanha. Com o lançamento em DVD do documentário Godard, Truffault e a Nouvelle Vague, o assunto foi relembrado e sua importância mais uma vez reconhecida.
 
Godard, Truffault e a Nouvelle Vague
 
“O movimento propunha um cinema autoral, experimental e ousado, em oposição ao que hoje chamamos de ‘cinemão’ – filmes comerciais, sem qualquer ambição”, esclarece o cineasta Carlos Gerbase. Essa ideia inicial deu origem às quatro principais características da Nouvelle Vague, conforme enumera o cineasta: “inconformidade com a moral e a estética burguesas; oposição ao universo bem comportado do cinema comercial – quebras de continuidade narrativa e soluções de montagem pouco convencionais; criatividade para compensar os baixos orçamentos; valorização do diretor como o autor da obra cinematográfica”. Outros aspectos das produções deste movimento eram as filmagens realizadas fora do estúdio, “resultando em filmes urbanos, mais realistas, que traziam o cotidiano para as telas”, comenta Saldanha.
 
O alcance das ideias
 
A “Nova Onda” não ficou restrita às fronteiras francesas, influenciou o mundo todo. “O termo foi utilizado para designar movimentos surgidos em diversos outros países”, comenta Ailton Monteiro, graduado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará. Saldanha conta que, na Alemanha, surgiu o Cinema Novo Alemão, cujos cineastas representantes foram Werner Herzog, Wim Wenders e Rainer Fassbinder. Na Inglaterra, houve o Free Cinema, com John Schlesinger e Lindsay Anderson como expoentes. No Brasil, tivemos o Cinema Novo (1960), idealizado por Glauber Rocha. “Todas essas tendências eram movidas pela mesma idéia: fazer um cinema inovador e independente”, resume a cinéfila. Mas os dois principais cineastas representantes, em geral, foram os franceses Jean-Luc Godard e François Truffaut.
 
Glauber Rocha
 

O movimento cinematográfico francês de fato conquistou o objetivo de propor novas maneiras de produzir filmes. A partir da Nouvelle Vague, as câmeras eram levadas às ruas (uma solução para problemas de orçamento), as narrativas podiam não seguir uma linearidade e o diretor se transformou no autor e passou a ser mais valorizado – como um escritor. “Em O Acossado (Godard) e Os Incompreendidos (Truffaut), ambos de 1959, os protagonistas são vistos em freqüente movimento, caminhando pelas ruas de Paris”, exemplifica Saldanha. “A maneira de fazer filmes saiu do modelo clássico e procurou novos rumos estéticos”, acredita Monteiro. A Nouvelle Vague tornou possível a realização da tão famosa frase de Glauber Rocha, aquela que diz ser possível fazer cinema com apenas uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.

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