Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.09.2012 13.09.2012

O bruxo tupiniquim

Por Thaís Ferreira
 
Em 1997, em meio a um tiroteio na Favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, Hugo (apresentado inicialmente como Idá), de 13 anos, descobre que tem poderes. Ao se indispor com um dos chefes do tráfico do morro, ele é jurado de morte e passa a ter sua avó e mãe ameaçadas. A solução é fugir. No caminho, ele começa a descobrir um mundo mágico e a frequentar uma escola de bruxaria. Qualquer semelhança com a série do bruxo Harry Potter não é mera coincidência.
A Arma Escarlate, da Editora Novo Século, foi inspirado nos livros de J.K. Rowling, mas passam bem longe do contexto e dos personagens ingleses. A escola Nossa Senhora do Korkovado é diferente de Hogwarts, porque tem problemas tipicamente brasileiros, como a corrupção. O personagem principal também passa longe do bonzinho Harry; Hugo é marrento e nem sempre age de forma correta.
A obra foi um sucesso na Bienal do Livro de São Paulo, e a autora Renata Pacheco Ventura vendeu todos os exemplares em um único dia. O SaraivaConteúdo conversou com ela para saber sobre seu trabalho e os planos para as sequências dessa história.
Você começou sua carreira trabalhando como roteirista de cinema. Quando você decidiu se dedicar à literatura?
Renata Ventura. Na verdade, eu sempre quis ser escritora. Fiz faculdade de jornalismo porque era o curso mais geral e que tinha matérias diversificadas como psicologia, economia e sociologia. Dessa forma, eu poderia ter mais ideias para os meus livros. Quando me formei, comecei a trabalhar com documentários e permaneci nessa área por três anos, até que percebi que eu não tinha mais tempo para escrever meu livro. Ele ficou parado na metade porque eu trabalhava muito. Então decidi parar e me dedicar a escrevê-lo.
Como surgiu a ideia para A Arma Escarlate?
Renata Ventura. Foi durante uma entrevista com a J.K. Rowling, a autora do Harry Potter. Um fã norte-americano perguntou se ela não estaria interessada em escrever um livro sobre uma escola de bruxaria nos Estados Unidos. Ela respondeu que não, mas disse que ele podia escrever se quisesse. Assim, eu comecei a imaginar como seria um mundo mágico no Brasil, quais temas que eu abordaria e como seria a escola, e ela surgiu completamente diferente de Hogwarts, com corrupção e falcatruas.
 
Capa do livro A Arma Escarlate
Você acha positiva a comparação da sua obra com as do Harry Potter?
Renata Ventura. Eu acho. Na minha mente, é como se fosse o mesmo mundo. No entanto, não menciono isso no livro. Sou fã do Harry Potter e, depois que acabaram as histórias, fiquei órfã, assim como todos que gostavam. Eu queria ampliar esse mundo mágico para o Brasil, por isso não me importo com a comparação.
O livro fala bastante da realidade brasileira. Você teve essa preocupação ou foi surgindo no decorrer da história?
Renata Ventura. Eu gosto de escrever colocando a realidade no foco principal. Prefiro pensar sobre o real e em como modificá-lo. Dessa forma, ajudo as pessoas a se conscientizarem sobre fatos concretos, essa sempre foi uma preocupação minha. Estudei muito sobre a favela de Santa Marta, em 1997, e a situação de como era a guerra do tráfico. Nesse ano, o morro estava conturbado porque estavam tentando prender o traficante Marcinho VP. Isso influenciou na história, uso a fantasia para falar de realidade.
Você teve alguma inspiração para construir a personagem do Hugo?
Renata Ventura. Na verdade não, Hugo se criou sozinho. Quando comecei a escrever sobre magia no Brasil, pensei instantaneamente que ele deveria vir de uma comunidade pobre ou de uma favela. Ele começou a surgir naturalmente. Os outros personagens foram mais planejados, tomei por base os signos do zodíaco. Para construir cada um deles, pesquisei até formar personalidades distintas. O Hugo foi se construindo ao longo da história, e eu fui me surpreendendo com ele e com suas reações.
Na última Bienal do Livro, em São Paulo, você vendeu todos os livros de uma forma surpreendentemente rápida. Você esperava esse sucesso?
Renata Ventura. Não, pelo menos não tão rápido assim (risos). Eu achava que permaneceria todos os dias para conseguir vender os livros. Mas como eu tinha prometido para os fãs, fiquei durante o evento autografando e falando com os leitores. O livro foi lançado em novembro do ano passado, mas o boom veio recentemente. Acho que foi no momento em que comecei a falar do livro nas redes sociais. Acho que as pessoas começaram a descobrir a obra aos poucos. No começo, existia um pouco de preconceito porque alguns achavam que era uma imitação de Harry Potter. Na medida em que começaram a ler, foram surgindo resenhas positivas na internet. E no boca a boca, o livro explodiu.
Qual a principal reação dos leitores de A Arma Escarlate?
Renata Ventura. A maioria deles não entende as atitudes do Hugo, porque ele é quase um anti-herói. Os jovens não estão acostumados com um protagonista que faz tanta coisa errada. Então, eles batalham um pouco com esse pensamento. Isso acontece comigo também: ao mesmo tempo em que entendo o Hugo (porque sei que o que ele faz tem um motivo), também quero matá-lo (risos). Mas essa era a ideia, brincar um pouco com essa noção de que herói tem que ser o mocinho perfeito.
Alguns dos personagens têm facebook. O que você acha dessa interação entre os fãs e os personagens? Como surgiu essa ideia?
Renata Ventura. Eu sempre quis conversar com as personagens dos livros que lia, então decidi criar os perfis. As conversas são ótimas. Dependendo do personagem, os leitores pedem conselhos. É muito divertido, esse contato é ótimo.
Você pretende escrever continuações? Você já sabe quantas sequências serão?
Renata Ventura. Já estou escrevendo a próxima continuação. Eu planejei cinco livros contando a história do Hugo e um sexto com a história do vilão principal, que ainda não apareceu. Eu apenas falei dele em uma frase, só que ninguém sabe que é sobre ele que estou falando.
 
 
 
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