Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 15.03.2013 15.03.2013

O Brasil e os brasileiros nas terras dos super-heróis

atualizado em 18/03/2013
Por Marcelo Rafael                                                   
 
É um pássaro? É um avião? É uma argentina com superpoderes? Não! É Fogo, uma brasileira com sobrenome hispânico integrando a Liga da Justiça. Ela é apenas uma de diversas tentativas de representar personagens brasileiros nas HQs das duas principais editoras norte-americanas, Marvel e DC Comics.
Em novembro do ano passado, mais uma entrou para esse seleto time quando um destacamento dos X-Men topou com Iara dos Santos em Recife. Com o poder de se transformar em tubarão e sob o codinome de Shark-Girl, ela entrou para a equipe.
 
BACKGROUND É ESSENCIAL
 
Com um nome que remete à senhora das águas de nossa cultura indígena, um sobrenome popular em nosso país e um background convincente (tubarões em praias da capital pernambucana), a personagem tem o mérito de fugir do eixo Rio–São Paulo e não cair em estereótipos de samba, selva, futebol e carnaval.
 
Já Beatriz Bonilla da Costa, a Fogo, e Maria Concepción de Guzmán, a Jaguar, ambas da DC, têm sobrenomes mais argentinos que brasileiros. A grafia do sobrenome de Fogo, inclusive, já foi alterada várias vezes: daCosta e DaCosta, padrões não usados no português.
“Acho que um erro grotesco é a confusão de idioma, não tanto no nome dos personagens, mas principalmente no seu emprego na narrativa. Há de se considerar também que são sempre personagens secundários, sem presença forte no enredo principal”, afirma Iuri Andréas Reblin, pesquisador de HQs e coautor de Super-heróis, Cultura e Sociedade.
 
Além do caráter de coadjuvante, há a má pesquisa dos quadrinistas. Levi Trindade, editor sênior da Panini, lembra de um caso em que o Homem-Aranha Ultimate (alternativo) chega a um aeroporto de Guarulhos militarizado e rodeado de florestas. “Isso aconteceu nos anos 2000! Não é como se não existisse internet. Por mais que Brian Bendis (roteirista) seja conceituado, pecou nisso: retratou um Brasil completamente absurdo”.
Como exemplo de boa pesquisa, Levi cita a formação dos X-Men nos anos 1970, com Wolverine (Canadá), Pássaro Trovejante (indígena norte-americano), Tempestade (Egito), Colossus (antiga União Soviética) e Banshee (Irlanda), entre outros. “Era quase como uma Liga da Justiça Internacional (LJI). Só que as personalidades foram bem trabalhadas, não eram representações vazias de seus países de origem”, conta.
 
Beatriz
 
Uma espécie de Gisele Bündchen em chamas, Bea, como também é conhecida, é uma das mais antigas entre os brazucas no exterior. Criada na década de 1970 pela DC Comics sob o nome de Flama Verde, seu histórico se alterou ao longo dos anos: foi modelo, dançarina, apresentadora de TV, presidente da filial das Indústrias de Bruce Wayne (o Batman) no Brasil e até agente secreta do governo federal.
 
Na atual fase da DC Comics, Bea foi incluída na LJI sob o argumento de que o Brasil tem ganhado importância no cenário internacional
 
“Quando começou, ela era o estereótipo de heroína e do que se pensava que era o Brasil: uma mulher provocante, de colante e chamativa. E não tinha mais nada para dizer do que isso”, conta Levi.
Durante a década de 1980, seu passado ganhou detalhes mais contundentes. Ela passou de agente secreta do antigo SNI (Serviço Nacional de Informações, atual Agência Brasileira de Inteligência) a membro da LJI. Nos anos 2000, foi revelado o envolvimento de seu pai, torturador, com o Golpe Militar de 1964.
 
Ya’Wara
 
Apesar de se tratar de uma índia tapirapé trajando biquíni, Ya’Wara é citada com um bom exemplo de construção de personagem tanto por Levi quanto por Iuri.
 
Criada em 2012, Ya’Wara faz parte de um grupo internacional do qual Aquaman fazia parte antes de entrar para a Liga da Justiça da América
 
“Ela tem um background proporcionado pelo desenhista (Ivan Reis) e pelo arte-finalista (Joe Prado), que são brasileiros. Em contato com Geoff Johns (chefe de criação da DC), eles montaram o histórico da personagem, suas motivações, seu perfil psicológico”, conta Levi.
 
Roberto e Amara 
 
Paulista e afrodescendente, Beto queria seguir carreira no futebol quando descobriu seus poderes mutantes na adolescência e entrou para os Novos Mutantes, da Marvel, como Mancha Solar.
 
“O fato de ser de família rica, de pai empresário e mãe arqueóloga auxilia a questionar nossos próprios preconceitos, de achar que num país de feições majoritariamente negras e indígenas apenas brancos são ou podem ser abastados”, analisa Iuri.
Beto já teve papel importante, mas está apagado hoje em dia. “Ele perdeu um pouco de suas características. Há poucos anos ele foi considerado um dos X-Men imortais. Com o tempo isso foi esquecido, jogado para debaixo do tapete, e sua participação caiu”, diz Levi.
 
O surgimento de Mancha Solar levou à introdução de outra personagem, a Magma. Em uma expedição liderada pela mãe de Beto, os Novos Mutantes encontraram uma cidade do Império Romano perdida em plena floresta amazônica. Nela, residia Amara Juliana Olivians Aquilla.
 
A personagem Magma
A garota, teoricamente, seria brasileira, mas Nova Roma é uma cidade independente do Brasil. No desenho animado X-Men Evolution, no entanto, ela é considerada uma cidadã de nosso país.
 
BRASILEIROS, PERO NO MUCHO
 
Alguns outros não conseguiram deixar de derrapar no estereótipo ou em erros de grafia, como o Capitão Forsa/Forza (“Força”), ou a Capitã Brasil, ambos da Marvel.
 
Forsa teve curta participação e logo foi morto por um vilão alemão. Já a Capitã faz parte de uma equipe exclusiva dos desenhos animados, que inclui Wolverine como Capitão Canadá e vários outros “capitães”. O poder da heroína é o “samba sônico”.
Essas são tendências que não devem se repetir, segundo Levi. “A intenção dos editores é atingir mais do que o próprio país. Então, se começam a aparecer personagens muito bizarros, que não têm a ver com as nacionalidades representadas, dificilmente conseguem licenciar isso”, afirma.
 
Fogo pode ser encontrada atualmente no gibi Liga da Justiça. Já Mancha Solar – ainda que não apareça muito hoje em dia – e Iara estão em X-Men e X-Men Extra. Amara tem mais aparições, hoje, no desenho X-Men Evolution, e Ya’Wara pode ser vista em Universo DC.
 
 
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