Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.11.2012 14.11.2012

O bem-amado Paulo Gracindo

Por Cintia Lopes
 
Não é preciso ser um noveleiro de carteirinha para reconhecer a influência ou a popularidade de um determinado personagem. Ainda mais quando o seu intérprete é considerado, por várias gerações, um dos mais importantes atores do país. Dono de tipos inesquecíveis, Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo, mais conhecido como Paulo Gracindo, teve participação inquestionável em momentos marcantes da teledramaturgia brasileira. 
 
Quem não se lembra, por exemplo, de Odorico Paraguaçu, o prefeito corrupto da fictícia Sucupira de O Bem-Amado, e de João Maciel, da novela O Casarão? Ou ainda do primo rico do quadro Primo rico, primo pobre, do humorístico Balança, Mas Não Cai? Ou da radionovela O Direito de Nascer? Isso apenas para citar alguns. E é justamente para manter viva a lembrança na memória dos fãs e apresentá-lo ao público mais jovem que o filho, Gracindo Júnior, em parceria com o especialista em Teledramaturgia, Mauro Alencar, e colaboração da jornalista Eliane Pace, lançam agora o livro Um Século de Paulo Gracindo, o eterno Bem-Amado, da editora Gutenberg. 
 
A obra faz parte das comemorações em homenagem ao centenário de nascimento do ator. Além de registrar a trajetória e importantes momentos da carreira, a publicação também traz registros raros de Gracindo em família e depoimentos de nomes como Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro, Lima Duarte, entre outros. Narrado em primeira pessoa, Gracindo Júnior explica tratar-se da história de um pai que se dedicou às artes. “Não canso de dizer que ele foi meu herói. E conseguimos conviver com mais facilidade depois que passamos a trabalhar juntos”, lembra Gracindo, que iniciou a carreira aos 15 anos, contrariando a vontade do pai. “Ele achava que o diploma era importante. Prometi que um dia iria presenteá-lo com um canudo. Muitos anos depois, acabei me formando em psicologia”, recorda.
 
Histórias e “causos” realmente não faltam em Um século de Paulo Gracindo, o eterno Bem-Amado. Afinal, foram 65 anos de carreira dedicados ao rádio, teatro, TV e cinema. Somente como radioator e apresentador do Programa Paulo Gracindo na Rádio Nacional, ele atuou por 20 anos. “Acho que o grande diferencial é que ele era um ator de composição, que trabalhava a estrutura do personagem num tempo em que isso não era comum”, compara Gracindo. 
 
                                                                                                               Divulgação/ Arquivo Gracindo Junior
No filme 'Terra em Transe', com direção de Glauber Rocha 
Paulo Gracindo
 
 
O coautor Mauro Alencar ainda acrescenta: “A cada papel, uma personagem diferente, representando um lado social e geográfico do Brasil. Sempre com uma detalhada composição em gestos e emoções”. Entre os mais famosos: o bigode do bicheiro Tucão, personagem da novela Bandeira 2, de Dias Gomes, exibida em 1971. “Esse papel foi especialmente marcante pra mim. Eu tinha 9 anos quando a novela foi exibida e lembro claramente que despertou a minha paixão pelo gênero”, admite.
 
Ainda assim, Mauro faz questão de ressaltar a importância de outro personagem: o político corrupto Odorico, de O Bem-Amado. Segundo ele, o trabalho de Gracindo na novela de Dias Gomes ajudou na formação da identidade nacional. “Ele teve a felicidade de representar tipos emblemáticos da sociedade brasileira. Odorico, por exemplo, foi tão importante que chamou a atenção do mercado latino-americano. A postura dele foi comparada a diversos políticos na época”, frisa. 
 
                                                                                  Crédito/ Arquivo Gracindo Junior
Com Brandão Filho, o Primo Pobre, do quadro 'Primo Rico, Primo Pobre' 
 
Outra característica marcante era seu método de composição. “Ele costumava extrair manias e características de figuras conhecidas para compor os personagens. Assim aconteceu com o velho Antenor (de Ossos do Barão), inspirado em seu avô”, recorda Mauro. Mas, acima de tudo, tanto Gracindo Júnior quanto Mauro Alencar são unânimes em apontar o maior feito do ator nos “bastidores”. “O valor de seu trabalho contribuiu para legitimar e profissionalizar o ofício de ator no Brasil”, explica Mauro.
 
Frases, expressões, e neologismos inesquecíveis do bem-amado Odorico Paraguaçu
“Vamos deixar de lado os entretantos e partir para os finalmentes.”
“Alma lavada e enxaguada.”
“Cemitério na sua virgindade defuntícia.”
“Encupridamento de pequenos salários.”
“Esquerda badernista, desaforista e subversenta.”
“Coloquiamento sigiloso, com todos os acautelatórios.”
“Anais e menstruais da História.”
“Prafrentemente, pratrasmente.”
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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