Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 14.03.2014 14.03.2014

O baile contemporâneo da Orquestra Imperial

Por Felipe Candido
Eles são jovens e se tornaram referência da música contemporânea no Brasil. Além disso, uniram-se para formar uma big-band, que se assemelha aos grupos que animavam as gafieiras que tanto fizeram sucesso décadas atrás. Também recrutaram grandes nomes da música brasileira para se juntar à banda, tocar e se divertir nos bailes promovidos por eles. Mas esses shows nada têm de saudosistas. São apenas encontros que buscam a diversão, dialogam com a música atual e olham para o futuro.
Essa é a Orquestra Imperial, formada no Rio de Janeiro em 2002, com alguns dos mais importantes e influentes jovens nomes da música atual: Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Thalma de Freitas, Domenico Lancellotti, Nina Becker, além do veterano Wilson das Neves, entre outros.
Mesclando músicas autorais com sucessos de outros tempos, os bailes promovidos pela Orquestra viraram sucesso instantâneo entre o público, bem diverso e eclético. Um desses shows históricos, realizado em 2007, foi registrado e acaba de ser lançado em DVD. Orquestra Imperial – Ao Vivo! tem todos os ingredientes que fizeram o sucesso da banda.
Kassin, um dos principais produtores musicais da atualidade, é músico e um dos fundadores da banda. Ele conversou com o SaraivaConteúdo sobre o passado, o presente e o futuro da Orquestra Imperial.
A Orquestra Imperial surgiu em 2002 com o intuito de reviver as tradicionais big-bands, que tiveram muito sucesso tempos atrás. Como surgiu essa ideia?
Kassin. Eu tinha a ideia de fazer uma big-band junto com os amigos; tive essa ideia com o Domenico e influenciado pelas orquestras porto-riquenhas de Nova York, da gravadora Fania. Eu via que todos eles participavam dos discos um dos outros; dali, sempre achava que podíamos ter isso com nossos amigos: já que tínhamos várias bandas, porque não ter uma banda de baile com todos os amigos juntos?
 
O músico e produtor Kassin foi um dos fundadores da Orquestra Imperial
A Orquestra é formada por um grande número de músicos jovens. Qual a influência dessas big-bands na formação desses músicos?
Kassin. Para alguns, nenhuma; é mais a possibilidade do encontro. Para outros de nós, é um universo que admiramos e [do qual] queríamos nos aproximar, mas não acho que fazemos qualquer espécie de resgate ou pesquisa, apenas tocamos aquelas músicas da nossa maneira.
Como é a seleção das músicas e dos arranjos? Independente de quando foram compostas, elas ganham um aspecto contemporâneo na formação da banda.
Kassin. Normalmente pegamos músicas que gostamos e tentamos converter o arranjo para a maneira que tocamos. As bases não são escritas. Os metais são, então muito da base muda. Não somos pesquisadores, não há qualquer intenção de resgate formal. Acho que estamos mais para “sequestradores”, num certo ponto de vista. Não gosto dessa ideia de resgate.
Além dos músicos da nova geração, a Orquestra conta ainda com grandes medalhões da música brasileira. Como é a relação entre pessoas de gerações distintas no cotidiano da banda?
Kassin. Infelizmente perdemos o Nelson [Jacobina, um dos primeiros integrantes da banda, que morreu em 2012], foi uma grande perda para nós; toco sempre com a memória dele. Para mim, é como se ele ainda estivesse na banda. O Wilson apareceu para participar de um show – somos todos fãs dele. Ele apareceu, cantou duas músicas e ficou o resto do baile tocando percussão; na semana seguinte, veio de novo e fez o mesmo; na outra semana, nós o chamamos para a banda.
Não sinto distância alguma em relação a ele, estamos na Orquestra pelo mesmo motivo: para se divertir, e a relação é ótima.
 
Nelson Jacobina, que estava na Orquestra desde o início, foi homenageado na capa do segundo disco da banda, Fazendo as Pazes com o Swing
Como é a recepção do público aos bailes da Orquestra?
Kassin. O público se diverte conosco. Para nós, é uma festa com todos os amigos tocando; acho que isso passa para o público, independente da ideia de preservação que não nos agrada.
As composições inéditas da Orquestra também promovem encontros de compositores de gerações distintas, como Wilson das Neves e Stephane San Juan ou Domenico Lancellotti e Delcio Carvalho. Como foram essas parcerias?
Kassin. Naturais. Elas são parte da convivência, consequência da amizade e do convívio.
As canções autorais, feitas por músicos jovens, também têm forte apelo de gafieira e big-band. Para esses compositores, como é esse diálogo com a canção contemporânea?
Kassin. As músicas que fizemos para a Orquestra foram compostas pensando nessa formação. Nós todos vivemos nosso tempo, somos pessoas do nosso tempo tocando músicas autorais e músicas de outras épocas com a intenção de fazer um baile.
Vocês acabaram de lançar um DVD ao vivo, de um show gravado em 2007. O que mudou na Orquestra de lá até hoje?
Kassin. Mudou muito; como somos muitos, a formação sempre é um pouco mutante. Perdemos o Nelson, que era parte do DNA da banda. Para nós, poder ver aquele registro ali é muito importante, como um álbum de fotos.
Na música feita pela Orquestra, há distinção entre clássico e contemporâneo? Como se dá esse diálogo?
Kassin. Não há distinção, é tudo música.
O tempo importa quando o assunto é música?
Kassin. O tempo é o que mais importa – o tempo é a base de tudo, o relógio, a pulsação, as frequências… Isso é o que mais importa na música, a foto é o que importa menos.
O que podemos esperar do futuro da Orquestra Imperial?
Kassin. Pessoalmente, espero continuarmos nos divertindo, essa sempre foi a ideia para mim. Sempre será.
 
 
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