Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 16.11.2011 16.11.2011

O argentino Mario José Paz coloca a cidade de Búzios sob os holofotes do cinema

Por Bia Carrasco
Na foto, Mario José Paz
 
Ela é francesa. Ele, argentino. Em meados dos anos 1960, ela fez de uma pequena cidade de pescadores no Brasil o seu local de veraneio. Décadas depois, ele transformou esse mesmo lugar em um ponto de encontro para os amantes do cinema. Ela é Brigitte Bardot, atriz e símbolo sexual dos anos 1950, que se apaixonou pelo misticismo de Búzios, no Rio de Janeiro, levando ao pequeno vilarejo a atenção de repórteres e curiosos. Ele é Mario José Paz, que chegou à cidade para ficar 10 dias, período que se tornou 30 anos, e aproveitou para firmar o local como cenário para filmes, festivais, novelas e séries.
Em sua charmosa pousada com vista para o porto, no centro de Búzios, Mário chega com passos calmos. Com os cabelos brancos caídos sobre a nuca, a barba rala e o bigode que se envolve sobre a boca pequena, ele não faz movimentos em abrupto para falar. Na mesa, os poucos cigarros encontram o cinzeiro em um gesto sutil, para descartar apenas a cinza necessária que se curva na extremidade. Os olhos falam e repousam sobre algum lugar do ambiente para revelar a resposta certa. O espanhol mistura-se ao português para comprovar a paixão por ambas as terras e, acima de tudo, pelo cinema.
Nascido em Rosário, na Argentina, Mário formou-se em direito. Ainda pequeno, começou a frequentar o cinema junto a seu pai. No escuro das salas de projeção, o envolvimento era tanto, que ele mergulhava nas histórias. "Eu saía de lá totalmente tomado pelo personagem, chegava na minha casa e era o James Bond por dois dias", lembra, ao afirmar que essa vivência de acreditar é importante na área da atuação. "Escutar, acreditar e fundamentar", enfatiza.
O contato com o cinema foi, segundo o argentino, essencial para a sua formação como ator. Mas antes de iniciar a sua carreira na dramaturgia, ele desempenhou um importante papel em Búzios, como formador de público na área do cinema.
 
Há cerca de 30 anos, quando chegou à cidade para visitar amigos, ele se apaixonou por sua beleza natural. "Vim aqui para um passeio e me encantei por esse lugar, que é completamente mágico. Pra sair de Búzios, você tem que voltar pelo mesmo lugar que entrou, por isso tem uma coisa de armadilha, que eu acho muito simpática, muito curiosa", revela.
O tempo passou e Mário continuou na cidade. Após montar a sua pousada, decidiu que precisava levar a sua verdadeira paixão à sua nova residência. Foi então que surgiu a ideia de criar o primeiro cinema de Búzios. "Pensei em alguém que pudesse fazê-lo, mas não era viável, porque era uma ideia bem maluca, e talvez até continue sendo", brinca o argentino sobre o projeto que acabou sendo criado por ele.
 
Para viabilizá-lo, Mário juntou-se a Vilma Lustosa, produtora cinematográfica que, na época, estava à frente do RioCine Festival, evento que teve 14 edições antes de se fundir, em 1999, com a Mostra Rio, para se tornar o Festival do Rio, um dos principais eventos de cinema da América Latina.
Inaugurado em 1994, o Gran Cine Bardot, nome dado em homenagem a Brigitte Bardot, começou a tomar forma com a doação de 11 poltronas. A primeira exibição foi o filme Manhattan, de Woody Allen, para os doadores. Hoje, o local abriga 111 lugares, com uma programação requintada, sob a curadoria de Mário. "Eu te diria que o Gran Cine Bardot tem um público, por isso alguns blockbusters não funcionariam aqui. Se colocamos um Harry Potter, por exemplo, não faz sucesso. Mas se colocamos um filme francês, a sala fica lotada", observa.
 
Fachada do Gran Cine Bardot
Segundo Mário, dinheiro não é desculpa para não entrar no cinema. "Aceitamos qualquer tipo de pagamento. Tem pessoas que pagam com peixe, tem os artistas de rua, que pagam com os seus quadros. Ninguém poderá jamais dizer que não entrou no Gran Cine Bardot por falta de dinheiro", enfatiza Mário, ao ressaltar que não aprecia que as pessoas comam pipoca nas salas. "Eu não encontro uma relação entre milho, manteiga e cinema", diz. E quanto à bebida? "Vinho pode, mas só se for branco e argentino", brinca.
 
Festival à beira-mar
Em paralelo à inauguração do Gran Cine Bardot, o Búzios Cine Festival nasceu para firmar de uma vez por todas a cidade como local de encontro para os amantes da sétima arte. Fruto de mais uma parceria entre Mário Paz e Vilma Lustosa, a primeira edição ocorreu em 1994, reunindo a população local, artistas, distribuidores e exibidores. "Foi uma festa lindíssima. A mobilização foi extraordinária, toda a cidade participou, as vitrines tinham decoração para o festival, os restaurantes tinham pratos com nomes de atrizes como Brigitte Bardot e Marilyn Monroe", lembra Mário.
 
Imagem de edição anterior do Búzios Cine Festival
Em sua 17ª edição, o festival desse ano acontece entre os dias 23 e 27 de novembro. Sem caráter competitivo, Mário define o evento, que já faz parte do calendário de cinema nacional, como "um momento de confraternização que vai além da negociação. Não existe a pretensão de ser um grande festival, porque não é competitivo, mas é uma belíssima festa, num marco maravilhoso que é a cidade de Búzios".
A estrutura do evento conta com exibições ao ar livre em três praças da cidade, além de projeções no Gran Cine Bardot, todas com entrada gratuita.
 
A programação de 2011, que ainda não foi finalizada, inclui filmes infantis, nacionais e internacionais. Um dos lançamentos será o filme Viúvas, do diretor argentino Marcos Carnevale, que conta com a participação de Mário Paz no elenco.
Além de fomentador cultural, Mário é ator, tendo participado de novelas como Viver a Vida, em que ficou conhecido como o argentino Maradona. No teatro, ele emerge como produtor, com peças como "Doze Homens e Uma Sentença", baseada no filme de Sidney Lumet, que está em cartaz em São Paulo.
 
 
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