Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 02.07.2013 02.07.2013

O ano de Graciliano Ramos

 
 
 
 
 
Zaqueu Fogaça
 
Obsessivo em sua busca infindável pela perfeição, Graciliano Ramos tratava as palavras com extrema meticulosidade, escolhendo a dedo as que lhe serviam, descartando qualquer capricho.
 
“Para Graciliano, escrever era sinônimo de escassez. Foi um escritor que sempre buscou expressar o máximo de informação no mínimo possível de palavras”, explica o crítico literário e ensaísta Fábio Lucas. Nascido em Quebrangulo, no interior de Alagoas (SE), Graciliano exerceu os mais diversos ofícios ao longo de sua carreira: de professor a jornalista, de político e escritor. Enquanto ocupava o cargo de prefeito da pequena cidade alagoana Palmeira dos Índios, em 1929, conquistou a admiração pelo acabamento literário que conferia aos relatórios encaminhados ao Governo do Estado prestando contas de seus serviços.
 
A fama de seus textos foi tão grande que, além de serem publicados em alguns jornais do País, despertou, também, a admiração do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, que rapidamente lhe pediu originais para publicar, o que aconteceu somente em 1933, ano em que estreou como romancista com a publicação de Caetés. “Integrante da chamada geração de 30 do romance brasileiro e pertencente ao grupo de escritores regionalistas que começavam a conquistar visibilidade no restrito cenário literário do período, Graciliano Ramos, ao contrário de outros escritores nordestinos, como José Lins do Rego e Jorge Amado, não ficou preso as amarras da ficção regionalista e conferiu universalidade a sua obra”, explica Fábio Lucas.
 
HOMENAGEM À GRACILIANO
O autor de São Bernardo (1934) e Vidas Secas (1938) é o grande homenageado da Flip 2013 – Festa Literária Internacional de Paraty, em um ano marcado pela comemoração dos 120 anos de seu nascimento e a memória dos sessenta anos de sua morte. Profundo admirador da obra de Graciliano Ramos, o escritor amazonense Milton Hatoum, autor de livros como Relato de Um Certo Oriente (1989) e Dois Irmãos (2000), abre a festa literária com uma conferência sobre o autor, com o tema: “Graciliano Ramos: aspereza do mundo e concisão da linguagem”. Em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, Milton Hatoum antecipa alguns temas que tratará no dia 3 de julho, data de início da Festa Literária, que segue até o dia 7 de julho na cidade de Paraty (RJ); e ainda nos presenteia com algumas informações sobre Um Solitário à Espreita, obra de sua autoria que será lançada durante a Flip e que marca sua primeira incursão pelas crônicas.
 
Graciliano Ramos
Em que circunstância aconteceu seu primeiro contato com a obra de Graciliano Ramos e qual sua relação com ela atualmente?
MILTON HATOUM. Li Vidas Secas e Infância quando estudava no Ginásio Amazonense Pedro II. Fiquei impressionado com o contraste entre o universo literário desses livros e o meu pequeno mundo de Manaus (AM). Dois mundos muito diferentes. Sabia que eram invenções literárias, mas os grandes romances são mais reveladores que livros de sociologia ou história. Graciliano me permitiu conhecer em profundidade outra face do País.
A ficção de Graciliano é conhecida pela força com que a síntese é capaz de trazer à sua composição, a representação do universo nordestino em pequenas situações e, até mesmo, na intimidade de suas personagens. De que maneira essa narrativa inovou o romance brasileiro?
MH. A inovação reside não apenas na linguagem, mas no modo de juntar vários problemas numa única narrativa. É o caso de São Bernardo, que explora os grandes temas da literatura: o amor, a morte, o poder, as relações humanas e a própria linguagem. E tudo isso sem denúncia, sem panfletagem, sem qualquer sentimentalismo. A dicção e o tom dos narradores, o ritmo da frase, as descrições breves e nada gratuitas, as palavras exatas para expressar sentimentos e situações, tudo isso é  muito elaborado.
A literatura forjada por Graciliano não se prende ao excesso, prefere a simplicidade. É isso que lhe confere universalidade?
MH. Acho que essa simplicidade é apenas aparente. A complexidade da obra de Graciliano foi e ainda está sendo analisada pela crítica. Embora a obra dele seja muito conhecida, talvez a mais lida depois da de Jorge Amado, penso que não é exatamente uma obra popular. Será popular quando a escola pública deste País adquirir qualidade. Para tanto, é preciso que os 5.570 prefeitos leiam os Relatórios do prefeito Graciliano e tomem vergonha na cara. Há prefeitos que fazem um bom trabalho na área educacional, mas são a minoria.
Dentre as obras de Graciliano, existe alguma que lhe desperta maior interesse?
MH. Penso que ele escreveu quatro grandes livros: São Bernardo, Vidas Secas, Infância (1945) e Angústia (1936). Bom, eu os reli várias vezes, sempre com interesse e paixão, e nas releituras descobri outras coisas, outras relações. Se eu fosse um crítico, escreveria um livro sobre Graciliano. Mas escrevi uma crônica sobre Infância.
Qual o maior legado deixado por Graciliano que, além de escritor, também exerceu o ofício de jornalista, professor e político?
MH. O legado está na obra de rara qualidade ética e estética. E há também o legado ético do cidadão, jornalista, político, professor e militante. Não escondeu o que pensava e pagou caro por isso. Não buscou honrarias nem prestígio, e não acreditava no mérito.
Seu novo livro será lançado durante a Flip. Pode nos adiantar do que se trata a obra e suas características?
MH. Lanço meu primeiro livro de crônicas: Um solitário à Espreita. É uma seleção de crônicas publicadas nos últimos dez ou doze anos. Incluí nesse livro uma crônica sobre Infância. Quanto ao novo romance… Esse desgraçado se arrasta há anos e não sei quando vou terminá-lo. É ambientado na mesma época de Cinzas do Norte, mas aborda outras questões e é narrado de outra forma. É um romance que segue minha trajetória de vida, os anos que morei em Brasília (DF), São Paulo (SP) e Paris (França). Uma ficção sem ilusões. Não há otimismo na literatura.
 
 
 
Recomendamos para você