Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 03.02.2010 03.02.2010

O albatroz baiano

Por Vinicius Valente
Foto de Tomás Rangel


> Assista à entrevista exclusiva de João Ubaldo ao SaraivaConteúdo 

O albatroz certamente é um dos pássaros mais majestosos danatureza. Seu vôo imponente chama a atenção pelo bater da maior envergadura deasas do reino animal. Em seu mais novo livro, João Ubaldo não faz uso da imagemda ave apenas para compor as características de seu personagem. O albatroz azul se trata de outroromance com o qual o autor proporciona o nascimento de enormes asas naimaginação de seus leitores. E o estilo do pássaro gigante realmente combinacom o escritor, que iniciou seu vôo particular na ilha de Itaparica, em frente a Salvador, do outro lado da Baía de Todos os Santos, indoadquirir o respeito do mundo literário internacional. 

No último dia 28, o autorrecebeu uma homenagem na livraria Saraiva do Shopping Iguatemi, em Salvador,tornando-se patrono da loja. Durante a celebração, o romancista concedeu umaentrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.

A trama de O albatrozazul, lançado ano passado, conta a história de um senhor bastante velho,que mesmo com seus anos de experiência, ainda procura encontrar um sentido navida. O protagonista tem consciência da proximidade de sua morte, encarando-acom naturalidade, chegando a ansiar por ela, pois este seria um momento derecompensa pelos sofrimentos passados. Se o ar misterioso do enredo é dominante,não será Ubaldo que o esclarecerá:

“Não sou muito indicado para falar sobre meus livros. Eu,aliás, não gosto de falar sobre meus livros, porque o livro devia existir porsi mesmo na cabeça de cada leitor. Eu não só não tenho jeito pra isso, como nãoconfio nesse tipo de análise. Não sou uma fonte autorizada para falar sobremeus livros”, reafirma o escritor.

João Ubaldo nasceu na ilha de Itaparica, Bahia, em janeiro de 1941. Filho de um professor e político, passoua juventude em Aracaju e em Salvador. Desde pequeno mostrou interesse pela literatura,devorando livros e, algumas vezes, resumindo-os e traduzindo-os sob solicitaçãode seu pai. Em 1955, matriculou-se no Colégio da Bahia, onde, um ano depois,iniciou sua amizade com o cineasta Glauber Rocha.

“Glauber escreveu umprefácio para meu primeiro livro [Setembronão faz sentido]. Ele foi quem fez força para publicar o livro no Rio deJaneiro, porque eu estava nos Estados Unidos estudando e nem ligava. Foi eleque batalhou, juntamente com o Flavio Costa, que é escritor e meu amigo. E elesdois conseguiram a publicação do livro, que eu achava fácil. Não dei a menorimportância. Eu era bobo. Não sabia das dificuldades que o autor novoencontra”, relembra o autor.

Além desta obra e de Oalbatroz azul, o escritor possui no currículo romances importantes na literatura brasileira, como Sargento Getúlio (1971), Viva o povo brasileiro (1984) e Osorriso do lagarto (1989). Escreveu também Vila real(1979), O feitiçoda ilha do pavão (1997), A casa dosbudas ditosos (1999), Miséria egrandeza do amor de Benedita (2000) e Diáriodo farol (2002). No começo da carreira, Ubaldo era estimulado por JorgeAmado, porém faz questão de ressaltar que o escritor não favorecia suas obras.

“Era meu amigo e compadre. Jorge Amado não apadrinhavaninguém a não ser num sentido muito genérico. Ele apadrinhava a todos. Era umhomem extremamente generoso e se interessava por todos os jovens que faziamliteratura ou artes em geral em Salvador e na Bahia. Então ele sempre estimuloua todos com generosidade e com alegria. Mas nunca me patrocinou”, afirma Ubaldo.

Durante sua vida, o escritor também teve forte atuação nojornalismo. Em 1957, começou a trabalhar como repórter no Jornal da Bahia, se transferindo posteriormente para A Tribuna da Bahia, onde chegou a ocuparo cargo de editor-chefe. Desde então contribuiu para diversos diários derenome, como O Globo e O Estado de São Paulo

Atualmente, oautor encontra-se no meio de uma batalha protagonizada em sua terra natal. Nodia 14 de janeiro, o governo baiano lançou um edital com a intenção deconstruir uma bilionária ponte ligando Salvador à Itaparica, obra que Ubaldo écompletamente contra. Visando atrair os holofotes para a causa, o autorescreveu o artigo “Adeus Itaparica”, onde denuncia a intenção de gruposempresariais de transformar a ilha em uma “patética Miami de pobre”. O textoestá motivando um manifesto nacional de apoio ao romancista, já assinado porgrandes nomes, como Luis Fernando Verissimo, Cacá Diegues e Chico Buarque.Ubaldo não deixou de comentar sobre a construção da ponte:

“Uma iniciativa estapafúrdia, na minha opinião, burra,retrógada, atrasada e interesseira em transformar essa ilha em um pedaço deautopista toda. O pretexto básico para isso é que o sistema de ferry boat queliga a ilha à Salvador não é eficaz. Salvador ficaria sendo o único lugar do mundoonde isso não dá certo. Porque dá certo até no Maranhão, que é um estado muitomais pobre do que o nosso, no Mar do Norte, no Canal da Mancha, em condições denavegabilidade horrorosas, é pontual e serve. Mas, para reequipar e colocar emfuncionamento o sistema de ferry boat de Salvador, são necessários porvolta de R$ 150 milhões e administrar aquilo com seriedade. Em compensação, aponte deve estar na casa de alguns bilhões de dólares”, ironiza o escritor.

> Confira o artigo “”Adeus Itaparica””

> João Ubaldo Ribeiro na Saraiva.com.br

> Assista à entrevista exclusiva de João Ubaldo Ribeiro ao SaraivaConteúdo

> Confira um trecho do documentário Língua – vidas em português, de Victor Lopes, com João Ubaldo

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