Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 16.09.2010 16.09.2010

O Afeganistão através da fotografia e dos quadrinhos

Por Bruno Dorigatti

 

O imaginário do Afeganistão tem sido recorrente no mundo ocidental, pelo menos desde o final dos anos 1970, quando foi invadido pelos soviéticos. Ainda que calcado nos estereótipos, o país que nos chega remete à imensidão das montanhas, longos terrenos desérticos e inóspitos, ausência de recursos e tecnologia. Lá, se vive em condições escassas de acesso à alimentação, roupas, medicamentos e bens de consumo. Mais recentemente, os talibans ganharam atenção no mundo ocidental antes ainda do 11 de setembro de 2001, quando impuseram uma versão rigorosa das leis islâmicas, proibindo às mulheres o acesso à educação e ao trabalho, além de se opor à qualquer coisa que não diga respeito à sua fé, seja a televisão ou as duas enormes estátuas de Buda localizadas em Bamiyan, que datavam de mais de 5 mil anos e foram dinamitadas em março de 2001, pouco antes da invasão norte-americana por conta dos atentados terroristas contra Nova York. 

Após os atentados e a ocupação norte-americana, o país voltou a despertar o interesse ocidental, sobretudo pelo fato de que nas montanhas inóspitas entre o Afeganistão e o Paquistão estaria escondido o idealizador e um dos principais articuladores do primeiro ataque realizado em solo norte-americano por forças estrangeiras – Pearl Harbor, como se sabe, é uma ilha situada no Havaí. Bin Laden continua foragido (morto, desaparecido, não importa; já foi devidamente canonizado e santificado, com o perdão do trocadilho cristão), apesar dos rumores de que estariam em seu encalço quando os Estados Unidos de George W. Bush resolveram desmobilizar grande parte de seus soldados na Ásia para enviá-los, em 2003, ao Iraque. Hoje, com Obama, os EUA desmobilizam no Oriente Médio para se voltar novamente ao Afeganistão. O país continua aumentando a sua produção de papoula, planta utilizada na fabricação do ópio e da heroína, e os talibans voltaram a dominar o país e impor a sua lei ante os senhores tribais, com exceção da superprotegida capital Cabul. O que nos dá a certeza de que o país ainda permanecerá por muito tempo como foco do interesse ocidental. 

E um bom começo para se tomar contato com aquela cultura e aquele povo é o trabalho dos franceses Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Frédéric Lemercier. O primeiro é fotógrafo e esteve no país em 1986, ainda durante a guerra entre os mujahedin – combatentes afegãos e estrangeiros e embrião dos talibans – e a União Soviética, acompanhando uma equipe dos Médicos Sem Fronteiras (MSF). O fotógrafo. Uma história no Afeganistão (Conrad) é um trabalho magistral que reúne em três volumes – o último lançado recentemente no Brasil – as fotos em preto e branco de Lefèvre, na verdade integrantes da graphic novel que refaz a trajetória e a experiência do francês em território afegão, junto com o texto e os quadrinhos de Guibert e a diagramação e cores de Lemercier. Depois de Joe Sacco popularizar o jornalismo em quadrinhos, com seus álbuns sobre a Bósnia e a Palestina, o trio acima dá outro salto ao incluir na narrativa as fotografias de Lefèvre. O resultado é surpreendente. 

No primeiro volume, lançado originalmente na França em 2003 e aqui em 2007, acompanhamos a ambientação em Peshawar, no Paquistão, e a longa jornada Afeganistão adentro, quando a equipe do MSF e Lefrève acompanham uma caravana que leva armas para os combatentes. A travessia na fronteira é feita durante a noite, com os membros da organização escondidos embaixo de burcas. Mas a viagem até o primeiro destino, aonde vão se estabelecer em uma vila com um precário hospital demora mais um mês. É o período de ambientação no inóspito território, ao mesmo tempo em que vamos tendo contato visual com a paisagem, a geografia, os afegãos, os hábitos e outras peculiaridades que só as fotografias conseguem exprimir e sintetizar. O que já se anuncia ao final do primeiro volume, os atendimentos médicos e as intervenções cirúrgicas nas localidades por onde a caravana passa, se aprofunda no segundo volume, lançado originalmente em 2004 na França e em 2008 aqui pela Conrad. Estabelecidos em Zaragandara, o MSF e Lefèvre vão passar um mês na localidade. O atendimento médico passa pela retirada de balas de Kalachnikov alojadas na cabeça e no corpo de mujahedins, mas também realiza intervenções mais “triviais”, digamos, como crianças queimadas com água fervente. O atendimento, como prega a ética médica, não discrimina nem pergunta quem é ou qual a origem dos feridos. O objetivo é salvar vidas, ainda que as precárias condições dificultem ao máximo a tarefa. 

As fotografias em preto e branco de Lefèvre conseguem explicar de maneira direta e sintética por vezes o que muitos jornalistas já tentaram contar através de páginas e páginas de jornais, revistas e livros. Acompanhar em foto sequência a reação de alguém que tem a perna amputada, ou uma criança com a mão queimada, dentro de uma jarra de chá com antisséptico nos coloca em contato direto com aquela dor. A guerra mesmo, nunca aparece, a não ser com um helicóptero passando ao largo, com barulhos de tiros e explosões e as caravanas de mujahedins com quem esbarram pelo caminho. E nem precisa. O inimigo, sempre a espreita, se materializa, nas crianças com bala no antebraço ou com o queixo desfigurado por estilhaços, no mujahedin sem o globo ocular por conta de um tiro de Kalachnikov, ou de outro com uma bala que entrou pela virilha e saiu pelas nádegas, ainda que com a sorte de não ter atingido nenhum órgão vital. Ao mesmo tempo em que aumenta a apreensão de uma cultura tão diferente e a familiaridade com os afegãos, por outro lado, o fotógrafo sofre e se angustia com a impotência diante de tanta atrocidade. E faz o que sabe, registrar aquela dor. 

O terceiro e derradeiro álbum, lançado em 2010 pela Conrad, registra o final desta primeira incursão de Lefèvre no Afeganistão – ele voltaria ao país outras vezes. Um tanto quanto incomodado com a carência de tudo – comida, conforto, uma cama – ele decide abandonar os médicos e seguir, com alguns guias, o caminho para o Paquistão. E é neste momento que vai enfrentar, sozinho, os momentos mais difíceis da viagem. Os guias o abandonam em uma noite, ele segue sozinho com seu cavalo que levava a carga e os mantimentos, dorme ao relento no alto de uma montanha debaixo de neve, mas é salvo por uma caravana que começa a extorqui-lo e acaba por entregá-lo a um corrupto policial paquistanês na fronteira, que o encarcerara e tenta extorquir Lefèvre. Tudo isso registrado com suas fotografias, que de certa maneira compõe um réquiem para o que teria sido o seu fim. Apesar de ter ficado entre a vida e a morte, chegando mesmo a escrever uma carta de despedida para a namorada e de fotografar o que teriam sido as suas últimas imagens, no momento em que desaba na neve, ao lado de seu cavalo, Lefèvre teve um profundo envolvimento com o país. Prova disso são as inúmeras vezes que retornou ao Afeganistão nos próximos 20 anos. 

Por fim, o vemos chegando em Paris, encontrando sua avó, sua mãe e o cachorrinho dela. A rotina se restabelece, e se pode ser reconfortante saber que Lefèvre retorna são e salvo, as sequelas o marcariam para o resto da vida. Uma furunculose contraída nesta primeira viagem fez com que perdesse 14 dentes nos anos seguintes. A informação aparece ao final do álbum, quando é contextualizada e atualizada a vida dos principais personagens, como os médicos da MSF e alguns dos afegãos com quem eles chegaram a conviver. Em consequência da furunculose, Didier Lefrève faleceu de ataque cardíaco no fim de janeiro de 2007, em casa, aos 49 anos. Tinha recém-recebido um dos prêmios do Festival Internacional de Quadrinhos de Angouleme, justamente pelo volume derradeiro de O fotógrafo.

 

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