Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 23.02.2012 23.02.2012

Nova estética e variação de temas dão novo tom ao cinema iraniano

Por Andréia Silva e Carol Cunha
Cena do filme iraniano A Separação
 
Como fazer cinema num país marcado pela censura do governo? O Irã possui uma das mais vibrantes indústrias de cinema dos países árabes. E para driblar o controle estatal que domina o país desde a década de 1980, os roteiros sempre apostaram no uso da metáfora e simbolismo para contar sua visão dessa sociedade islâmica.
 
Nos últimos 20 anos, a maioria dos filmes que chegou ao Ocidente trazia um ritmo lento e enigmático, com histórias sobre pobreza, guerra, a infância, a vida na zona rural e as situações precárias que traziam a opressão social como pano de fundo.
 
Embora esses temas ainda façam parte da realidade local, não conseguem revelar a complexidade do Irã de hoje. 
 
 
 
Com uma vasta produção – o país já chegou a produzir mais de 100 filmes em um ano –, a nova geração de cineastas iranianos e alguns veteranos tentam abrir o leque de suas produções e explorar assuntos diferentes, ampliando a temática e o alcance dos filmes mundo afora.
 
A vida agitada na metrópole, o consumo, a tecnologia, a cultura pop e o novo papel da mulher são temas que ganham cada vez mais espaço.
 
A bola da vez para conquistar a atenção da crítica e do público ocidental sobre o Irã contemporâneo parece ser o filme do diretor Asghar Farhadi, A Separação, que tem grandes chances de levar o Oscar para casa no próximo domingo.
 
O longa – com produção, direção e roteiro de Farhadi – venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado, saindo de lá também com os prêmios de melhor ator (Peyman Moadi) e melhor atriz (Leila Hatami) para os protagonistas. Este ano, venceu o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e é um dos favoritos ao mesmo prêmio no Oscar.
 
No roteiro, a relação de um típico casal de classe média está em jogo. A mulher deseja morar no exterior para dar uma vida melhor para sua filha. Mas no país, mulher casada não pode viajar sozinha.
 
Mesmo amando o marido, que prefere permanecer e cuida do pai doente, a solução que ela encontra é pedir o divórcio.
 
O filme aparentemente trata dos conflitos da relação familiar, mas, nas entrelinhas, fala sobre os problemas da sociedade iraniana e seus valores, além de velhos dilemas das relações humanas, como o amor, a ética, a velhice e o afeto.
 
O mérito de A Separação é colocar menos tinta no discurso político e apostar nas sutilezas de uma crise familiar como ponto de partida da reflexão sobre um país dividido por muitas coisas: gênero, religião e classe social.
 
A família, com boa condição social e aparente cabeça aberta, tem que lidar com as regras do governo do país e sua falta de liberdade. No filme, fica sempre a pergunta – o que você, espectador, faria no lugar deles? 
 
Veja o trailer de A Separação:
 
 
Aos 39 anos, Asghar Farhadi é um dos que representam esse novo momento do cinema iraniano.
 
Seu filme anterior, Procurando Elly, de 2009, que no Brasil foi exibido no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo, já trazia esse outro olhar sobre o Irã, contando a história de Ahmad (Shahab Hosseini), que volta ao país após passar anos morando na Alemanha.
 
Para recebê-lo, os amigos preparam três dias de comemoração. Para a festa, um deles convida a jovem Elly (Taraneh Alidoosti), professora de sua filha.
 
Ahmad, que acabou de se separar da esposa alemã e gostaria de começar uma nova vida com uma iraniana, vê em Elly a mulher perfeita. Mas ela desaparece no dia seguinte, trazendo tensão ao grupo.
 
Uma trama com uma narrativa ágil, que vai de uma aventura aparentemente ingênua entre amigos ao suspense. O filme faturou o Urso de Prata no Festival de Berlim na categoria melhor direção.
 
Ouvir falar de uma cena alternativa de rock no Irã, só mesmo através do cinema.
 
Foi o que fez o renomado diretor Bahman Ghobadi no filme No One Knows About Persian Cats (2009) – foto ao lado. 
 
A história é conduzida pelos personagens Askan e Negar, dois jovens músicos de Teerã que conhecem a cultura pop internacional e enfrentam vários desafios para realizar o sonho de levar sua banda indie para tocar em um festival no exterior.
 
Foi premiado em Cannes de 2009 e no Tallin Black Nights Film Festival.
 
Em 2005, dois outros filmes se destacaram: Requiem of Snow So Far So Close. O primeiro, escrito por Sholeh Shariati e com direção de Jamil Rosatmi, fala sobre a história de uma jovem curda que tenta fugir de seu casamento arranjado.
 
O longa faturou prêmios de melhor diretor, em 2005, no Fajr Film Festival, no Irã, e no 8th Olympia International Film Festival for Chirdren and Young People, na Grécia.
 
So Far So Close é um drama sobre um pai que descobre que seu filho está muito doente. Foi mais um premiado no 24º Fajr Film Festival e selecionado para o Oscar como melhor filme estrangeiro no mesmo ano.
 
Depois, em 2007, veio do Irã a base para uma animação que conquistou crítica e público: Persépolis, adaptação do livro autobiográfico da iraniana Marjane Satrapi, premiado em Cannes e indicado ao Oscar de melhor animação.
 
O filme foi dirigido pelo francês Vincent Paronnaud em parceria com Satrapi, ela mesma representante dessa ‘nova mulher’ do Irã.
 
Em tom confessional, o filme consegue ser divertido em vários momentos, mesmo abordando questões densas e confundindo a história da autora com a do seu país.
 
Outro exemplo é o cineasta Abbas Kiarostami, diretor de Cópia Fiel (2010) – foto ao lado.
 
No filme, Juliette Binoche interpreta uma mãe solteira, dona de uma loja de artes em Florença, que se interessa por um escritor acadêmico britânico (William Shimell) em visita à cidade para uma palestra sobre seu novo livro.
 
 
 
 
Ela o leva para um passeio vespertino numa cidadezinha próxima, que precisa acabar antes das 21h, quando ele precisa tomar o trem de volta para Londres.
 
No longa, o veterano diretor aposta em novas possibilidades, como filmar em outros países, contar com um elenco diversificado e rodar um filme em outra língua.
 
Tais desafios parecem comuns ao mundo do cinema, mas quando se trata do Irã, é um rompimento significativo com o nacionalismo propagado pelo governo, que gosta de ser autossuficiente.
 
Os sinais de ousadia do diretor já haviam aparecido em 2002, no filme Ten, onde ele apresenta uma nova visão da mulher iraniana, mais moderna.
 
Foi justamente esse ’outro olhar’ do Irã que chamou a atenção de Binoche na hora de aceitar o papel em Cópia Fiel. "Quando o Abba me chamou para ir a Teerã, eu só podia dizer sim. Mas não imaginava que faríamos um filme. Fui porque queria saber mais como é atuar no Irã, estava curiosa em ver a situação das mulheres lá. E fiquei impressionada com a forma como ele me filmou. A forma que ele filma as mulheres diz exatamente o contrário do que o seu país diz sobre elas", disse a atriz durante a exibição do filme em Cannes.
 
O mesmo acontece com o veterano Jafar Panahi. Enquanto seu último filme (Isto Não é um Filme, de 2011) tem um forte apelo político, o anterior suaviza o tema e está mais relacionado ao lado conservador da sociedade iraniana.
 
Trata-se de Fora do Jogo (2006), que mostra meninas iranianas disfarçadas de homens para poder entrar em um estádio de futebol.
 
A ideia do filme nasceu da atitude da própria filha de Panahi. Uma trama inteligente e com mais humor, que ilustra a luta pelos direitos das mulheres no país.
 
 
 
 
 
 
 
 
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