Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.11.2013 22.11.2013

Nossos Ossos marca estreia de Marcelino Freire em narrativa longa

Por Zaqueu Fogaça
 
Marcelino Freire tem andado mais calmo e à vontade com a narrativa longa. Foi preciso experimentar a tranquilidade de sua escrita para encontrar o fôlego que o romance tanto lhe cobrava. “Nas primeiras tentativas de escrever um romance, eu perdia o fôlego na metade e não conseguia concluí-lo”, explica.
 
Em Nossos Ossos, sua primeira incursão pela narrativa longa, o escritor une elementos biográficos e ficção em uma trama marcada pela síntese e pelo mistério, percorrendo diferentes espaços e tempos que pontuam sua investigação do centro da cidade e de suas personagens marginalizadas.
 
Em plena tarde de feriado, o autor de Angu de Sangue e Contos Negreiros encontrou um tempo para tomar um café e bater um papo franco com o SaraivaConteúdo com o objetivo de falar sobre a nova fase de sua escrita – classificada por ele como menos gritante – e  "desmontar os esqueletos" que integram Nossos Ossos.
 
Você afirmava que a ideia de escrever um romance beirava o insuportável. O que o fez ceder?
 
Freire. Os primeiros romances que tentei escrever não foram concluídos porque eu ainda não havia encontrado o tempo e o fôlego do romance. Era como se um maratonista gastasse todo sua energia nos primeiros quilômetros e não conseguisse ir adiante. Eu gritei muito em meus contos, e só consegui finalizar Nossos Ossos porque já estava mais calmo. Esse romance também grita, mas não o tempo todo. Ele foi feito sem pressa, até porque eu tinha que ter a história, e dificilmente a tenho pronta, sempre parto de uma palavra ou frase.
 
Ao conduzir a narrativa nesse processo de escrita às cegas, ela não lhe foge do controle? 
 
Freire. Adoro escrever dessa forma, porque ela permite que eu descubra a história enquanto escrevo. Após descobri-la, lá pela metade do livro, sei exatamente para onde devo direcioná-la. A palavra me direciona muito; costumo dizer que a escrita também escreve. Não acredito no culto ao bloqueio. Se a escrita não caminha, as palavras vêm ao meu socorro, mas para que isso aconteça é necessário estar intensamente envolvido com elas. Quando termino um capítulo, eu o leio como se estivesse rezando e, se a reza não fluir, é porque o ritmo está errado.
 
Em Nossos Ossos, o ritmo do texto é marcado pelas vírgulas. Esse recurso foi elaborado pensando na oralidade?
 
Freire. Em meus textos, nunca abandonei essa escrita sonora. Em Contos Negreiros, por exemplo, há um canto dos trabalhadores que não tem pontuação no interior do parágrafo, apenas no final. Na narrativa mais longa de Nossos Ossos, percebi que teria que usar pontuação. Em sua composição, comecei a colocar vírgulas – no interior dos parágrafos existem apenas vírgulas. Costumo dizer que não trabalho com pontuação. Graciliano Ramos não trabalhava com pontuação, e sim com pulsação. Sempre penso na pontuação como um momento de pulsar o silêncio. A literatura é feita por essas pulsações. Nesse romance, a vírgula cava a página, cava graficamente. Gosto de escrever "desenhando" nas páginas.
 
Outro elemento da escrita de Graciliano que você gosta de explorar em seus textos é a síntese. De que maneira ela se articula em sua narrativa?
 
Freire. Muitas pessoas dizem que eu escrevo com rimas, mas não é verdade. Não escrevo com rimas, e sim com "ímãs". Ao perceber que uma palavra está sozinha no texto, trato de arrumar-lhe um par. O escritor dobra esquinas ao escrever, a frase também. Não aceito nenhuma palavra desperdiçada em meu texto, procuro explorar todas essas esquinas presentes nele. Eu e meu texto não dobramos uma esquina se não for para mostrar algo novo. O Graciliano é mestre nessa concisão. Sempre que falam que eu tenho essa pontuação enxuta por causa do Rubem Fonseca, não é correto. Fui ler Rubem Fonseca, confesso, bem depois. Eu assumo que isso é do Graciliano Ramos e do Dalton Trevisan. 
 
                                                                                                                        Virginia Ramos
 
 
O romance é fragmentado em capítulos que remetem às partes do corpo humano, aos ossos. Por que preferiu dividi-lo?
 
Freire. O romance possibilita a montagem do esqueleto com seus diferentes ossos. Agora, finalizado, me pergunto o porquê de tê-lo escrito. Vejo-o como uma espécie de testamento, de tentar entender o porquê da minha vinda a São Paulo, entender o que ficou no Recife e o que é a saudade. É uma espécie de acerto de contas com tudo isso. Outra coisa que penso também, já que sou um escritor do agora, do meu tempo, é como ele dialoga com o Brasil de hoje. Assim como um pintor que analisa sua obra à distância, eu o vejo de longe e noto que o Brasil está tentando montar o corpo da nação. Estou montando esse esqueleto que ainda é, para mim, um corpo estranho.
 
Nossos Ossos mantém intenso diálogo com o centro histórico da cidade e suas personagens marginalizadas. De que modo a rua influencia o romance?
 
Freire. O livro que eu mais leio é a rua. E ela, em raras ocasiões, não está presente na literatura. Ela aparece em autores como João Antonio; mas antes de estar em seus livros, ela esteve nele. Moro em São Paulo há 22 anos e conheço todos aqueles lugares que estão no livro. Ando pelas ruas à espreita, ouço, vejo e sinto suas emoções. Morei no centro da cidade, e é um lugar que adoro, pois é onde tudo se desestrutura e as diferenças convivem juntas: das igrejas aos cinemas pornôs, das prostitutas aos executivos. É no centro que tudo perde referência, é um lugar de ninguém e ao mesmo tempo de todos.
 
 
 
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